Ponto Vermelho
Breves notas financeiras sobre o FC Porto
29 de Maio de 2014
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Por EagleView

Numa altura em que crise económica, financeira e sobretudo moral preenche de forma recorrente as agruras do nosso quotidiano, que atinge o Estado, as Empresas Públicas e Privadas e os particulares, os clubes de Futebol não podiam passar pelos intervalos da chuva. A diferença reside não tanto nos números (nalguns casos assustadores), mas das entidades envolvidas que têm tratamento empolado e alarmante nuns casos, e compreensivo, omisso e mesmo branqueador noutros. Depende de múltiplos factores e em particular de quem se pretende atingir ou proteger. A estrutura está de tal maneira montada que até a insuspeita CMVM por vezes cai no logro do silêncio compulsivo sobre alguns enquanto alimenta, sem intenção mas objectivamente, a especulação alarmista sobre outros. Deixo por isso alguns dados e comentários para que todos possamos reflectir.

A avaliar pelos últimos dados conhecidos, a FC Porto Futebol SAD continua na sua espiral recessiva. Com a venda de Otamendi e Walter no 3.º trimestre deste ano, os portistas conseguiram vendas brutas de 14,1 Milhões€ mas com a particularidade das mais valias serem de apenas 8,5 Milhões€ (60%). Sem essas mais valias o resultado líquido no fim desse 3º trimestre teria sido de -47,2M€ (eu tinha previsto -45 Milhões€) o que daria um resultado líquido médio superior a -5 Milhões/mês.

Causa-me alguma surpresa e admiração que os responsáveis da FC Porto Futebol SAD ainda nada tenham feito a respeito desses resultados que eu apelido de desastrosos, quando sabemos que os Custos com Pessoal (CP) e os FSE - cerca de metade são Custos com Pessoal - têm vindo a subir ano após ano. Os CP foram no fim do 3º trimestre de 39,4 Milhões€ (6,5% superiores em comparação com o ano anterior) e os FSE, 31,7 Milhões€ (13,2% superior ao ano anterior). Os CP continuam a ser exactamente 70% dos proveitos operacionais, conforme exigência do FairPlay Financeiro (FPF) da UEFA, percentagem essa que vai sendo ajustada com a transferência dos CP que superam esse valor para os FSE. O outsourcing destes custos permite assim continuar a respeitar os rácios do FPF, mas é, contudo, uma forma artificial de gestão e mais cedo ou mais tarde a realidade deixará de poder ser escondida. Esconder o sol com uma peneira não será certamente a forma mais correcta e transparente de transmitir os resultados ao público aos accionistas e ao público e surpreende-me, ou talvez não, que a CMVM ainda não se tenha pronunciado sobre tão melindroso assunto.

Por outro lado, os custos financeiros continuam a subir (9,7 Milhões€) e a liquidez a deteriorar-se. No fim do trimestre o défice de Caixa era de -2,6M€. A capacidade de investimento continua igualmente a deteriorar-se de forma acentuada, os activos intangíveis (jogadores) baixaram para 64 Milhões€ (o ano passado eram de 83,2 Milhões€). A capacidade de investir tem vindo a perder força, os activos têm vindo a perder valor comercial a olho nu e não se vislumbram, a prazo, novos dados que possam inverter esta perigosa tendência. No fim do período, sem vendas de passes, os resultados irão ultrapassar os 50 Milhões€ negativos. A actividade operacional é fortemente deficitária, o cashflow acentuadamente negativo e tem vindo a aumentar. Esta tendência só poderá ser invertida com a ajuda de proveitos extraordinários através da vendas de jogadores.

Olhando para os proveitos operacionais no 3.º trimestre, estes foram de apenas 16,2 Milhões€ (quando nos outros dois foram de 20 Milhões€/trimestre). No 4.º trimestre não se vislumbram melhorias sabendo-se que não costuma haver proveitos substanciais em Maio, Junho e Julho. Os custos operacionais (28,5 Milhões€) subiram substancialmente neste 3.º trimestre. O resultado operacional (-9,7 Milhões€) constitui 60% dos proveitos. Irão por isso ser forçados a vender os activos mais valiosos durante o período de Verão. Lembremo-nos que o ano passado no mesmo período tinham realizado através de vendas um total de 60 Milhões€ brutos (Hulk, Álvaro Pereira, etc) que geraram mais valias de apenas 33 Milhões€ (60%).

Significa isso que mesmo que vendam os jogadores com mercado este Verão num total bruto de 70 Milhões€ (Jackson, Mangala, Fernando, Defour, etc) se a percentagem de mais valias (60%) for igual ao passado recente, esse valor (42 Milhões€) não será suficiente para cobrir os resultados negativos. Nem as necessidades de tesouraria e muito menos de investimento. Quanto à venda de Iturbe por 15 Milhões€ é bom lembrar que a FC Porto Futebol SAD detinha apenas 45% do passe. As mais valias não serão superiores a 4 Milhões€ a ajuizar pelas percentagens já referidas.
Curto e conciso. Mas muito mais haveria para dizer.

P.S. 1 – Sabendo-se que os activos tangíveis estão contabilizados nos resultados consolidados por pouco mais de 200 Mil€ gostaria de saber onde estão contabilizados os activos respeitantes ao estádio e demais equipamentos imobilizados. E, já, agora, os respectivos passivos. Seria interessante desvendar esse mistério…
P.S. 2 - Sobre este tema recomendamos a leitura do artigo hoje publicado no Diário de Notícias.








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