Ponto Vermelho
Expectativas abortadas
30 de Maio de 2014
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1. Depois do sucesso retumbante, aquilo que parecia ser uma situação pacífica por Jorge Jesus estar contratualmente ligado ao Benfica por mais uma época transformou-se, de repente, num tabu cujo desfecho chegou a preocupar muitos benfiquistas. As coisas são como são, e se fosse há um ano atrás decerto muitos desses benfiquistas encolheriam os ombros e estariam mesmo a torcer pela sua saída. Como aqui escrevemos recentemente, as declarações dúbias de Jesus permitiram todo o tipo de especulações habituais nestas circunstâncias, mas afinal, sem que seja possível escamotear possíveis aliciamentos desta vez estrangeiros, tudo não terá passado de alguma encenação para testar até que ponto é que Jorge Jesus continuava ou não a reunir a primazia no universo benfiquista. Do lado de fora muitos foram aqueles que começaram a rejubilar com a perspectiva da sua eventual saída, sinal que a sua continuação os deixava preocupados.

2. A saída que afinal não passou de uma possibilidade pelos vistos nada consistente, não aconteceu porque Jesus não reunisse capacidades enquanto treinador para poder vir a comandar uma equipa do top europeu. A questão linguística tantas vezes evocada como sendo o principal óbice sendo de facto importante, não é nada que não seja ultrapassável e os exemplos abundam. Excluindo os casos de sucesso - o percursor Artur Jorge e o presente José Mourinho - enquanto estão pendentes de confirmação os percursos de André Villas-Boas e Leonardo Jardim, a realidade é que a grande maioria dos treinadores portugueses tem sido forçada a emigrar por o mercado de trabalho em Portugal não lhe apresentar soluções realistas e credíveis. Têm saído, na grande parte dos casos, para equipas de campeonatos muito menos competitivos ainda que oferecendo condições remuneratórias extremamente atractivas.

3. Não é o caso de Jorge Jesus. É certo que só tardiamente atingiu o estrelato mas ainda muito a tempo de construir uma carreira de sucesso. Por outro lado, apesar dos portugueses terem herdado dos seus antepassados o espírito aventureiro que os leva a demandar outras paragens e conhecer outras culturas, nem todos navegam necessariamente nessa onda. Parece ser esse o caso de Jorge Jesus, pelo menos enquanto dispuser de possibilidades de treinar ao mais alto nível em Portugal com níveis de remuneração como os actuais. Ainda sobre esta questão não será alheio o facto de já não ser propriamente um jovem sedento de novas aventuras e, ainda por a sua vida se encontrar estabilizada. São factores determinantes que só virão a ser alterados caso a conjuntura se altere de modo radical. E no futebol como sabemos, tudo pode acontecer num ápice.

4. A tudo isto acresce, ainda, o factor emocional decorrente da radical alteração de situações. Depois de um inferno algo prolongado em que teve a oportunidade de constatar a solidariedade institucional do presidente que contra quase todas as correntes teve a cabeça fria para lhe assegurar todo o apoio que culminou na renovação por mais 2 épocas, Jesus experimentou um céu esplendoroso que só o Benfica pela sua dimensão incomensurável lhe consegue proporcionar. E sem esquecer um passado recente que ultrapassou todos os limites do razoável, a verdade é que o projecto é aliciante e o Benfica constitui sempre um atractivo e um desafio para qualquer treinador que fica desde logo convidado a ultrapassar os limites agora que, finalmente, toda a estrutura atingiu a maturação desejada. Também por isso, Jesus sentiu necessidade de exprimir gratidão.

5. Está ainda longe de se saber qual vai ser a composição definitiva do plantel. Será o mercado a definir posições mas é admissível que hajam elementos nucleares que irão mesmo sair, até pelas questões financeiras que são conhecidas. Outros entrarão, por certo, para os substituir. É uma consequência natural e em todas as épocas tem sido assim. Vislumbra-se um cenário repleto de dificuldades e um desafio que Jorge Jesus aprecia e não enjeita e, até agora, tem sempre descoberto a fórmula mágica do sucesso. Um mérito que não pode deixar de ser reconhecido. Estamos convictos que será porventura esse um dos seus grandes aliciantes, pois a necessidade aguça o engenho e assim tem a oportunidade de testar e criar novas soluções. Caíram por terra todas as tentativas externas de o apear do comando e agora é tempo de lermos e ouvirmos explicações verdadeiramente hilariantes que mais não escondem do que receio, preocupação e frustração. Quando é que, finalmente, deixam de se preocupar com o Benfica e se concentram neles próprios em exclusivo?










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