Ponto Vermelho
Contas 3.º Trimestre: Sporting
2 de Junho de 2014
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Por EagleView

No Sporting, as várias Direcções do Clube foram encetando sucessivas reestruturações do passivo bancário com as duas entidades financeiras envolvidas (Millenium BCP e BES). Para além de comprovarem o facto mais óbvio – dificuldades financeiras acentuadas – continuaram a levantar dúvidas em muitos adeptos leoninos e na opinião pública em geral acerca da real situação do universo leonino, tendo em conta que as contas nunca foram consolidadas. E quando assim subsistem sempre dúvidas sobre a verdadeira dimensão do passivo total e até das dívidas entre as várias empresas do grupo entre si.

Consciente disso e porque para além dos mais havia com insistência rumores de possível má gestão, Bruno de Carvalho (BC) no seu Programa Eleitoral incluiu a efectivação de uma Auditoria de gestão externa e independente com efeitos rectroactivos para apurar a real dimensão dos factos. Como observador atento e segundo julguei entender, não como primeiro objectivo de caça às bruxas ou de lavagem de roupa suja, mas fundamentalmente para que todo o universo leonino, os bancos credores, as autoridades de supervisão e o público, ficassem a saber a realidade objectiva das contas e dos desempenhos das várias gestões que passaram pelo Sporting.

O actual presidente leonino deixou implícito que as acções a desenvolver após concluída a Auditoria seriam em função do que se viesse a apurar, sem excluir a possível criminalização se porventura fosse detectada alguma situação de eventual gestão danosa. Dado o período abrangido ser extenso a conclusão ainda vai demorar, pelo que, mesmo compreendendo a natural expectativa dos adeptos leoninos pela divulgação dos resultados, os mesmos deverão ser aguardados com serenidade e sem alimentar qualquer tipo de especulação. O seu a seu tempo…

Enquanto isso e porque o mundo continua a avançar, acabam de ser divulgados os resultados do 3.º trimestre. Embora artificialmente positivos e melhores do que os do FC Porto, revelam alguns pontos preocupantes e, de certo modo, não comparáveis com os dos outros grandes devido ao facto dos custos financeiros (2,8 Milhões) não reflectirem o verdadeiro custo do passivo remunerado. E ainda porque não abrangem um perímetro consolidado, uma questão que já teria sido apontada em diversos relatórios de auditoria.

Não sei mas gostava naturalmente de saber, até que ponto isso é afinado para transmitir um resultado ligeiramente positivo. Estas afinações, na minha opinião, a acontecerem (estou a especular) distorcem a realidade como é óbvio. O que não é bom quando o que se pretende com a demonstração de resultados e os R&C é mostrar de uma forma transparente o desempenho da empresa e da equipa de gestão do clube. Até porque estamos a falar de uma sociedade cotada em Bolsa.

Mas para ser franco estou céptico e não acredito que uma empresa que tem um passivo de 264 Milhões tenha apenas 2,8 Milhões de custos financeiros. Nem mesmo que fosse proprietária do(s) banco(s) credor(es)... Por outro lado, os resultados operacionais antes das vendas de atletas são 8,9 Milhões negativos, 34,5% das vendas, o que demonstra, sem sombra de dúvida, que os custos operacionais são demasiado elevados em relação aos proveitos. O que revela um claro desequilíbrio.

Os Custos com Pessoal (20,5 Milhões) representam 82,5% das receitas operacionais, estão demasiado altos e caem fora do Fair-Play Financeiro determinado pela UEFA (<70%). As vendas de jogadores (18,3 Milhões) representam 73,4% das receitas operacionais, apenas com o líquido das vendas (12,1 Milhões) permite um resultado ligeiramente positivo. O que de alguma forma está justificado devido ao facto de a Sporting SAD deter percentagens na maior parte pouco significativas dos direitos económicos dos jogadores.

O Capital Próprio (CP) continua fortemente negativo (118,7 Milhões) pois a empresa não consegue gerar resultados positivos mesmo com uma relativamente forte receita (73,4% das receitas operacionais) da venda de atletas. Continua portanto ligado à máquina em virtude de, entre outras coisas, estar manietado na sua capacidade de investimento. Pelo que suponho, em vez de pagar juros todos os meses que seriam mostrados na conta de resultados do R&C, fica a sensação que as mais valias das vendas e outros prémios a receber (Champions) já estão hipotecadas e já têm destino, embora desconheça os contratos estabelecidos entre o Sporting e os bancos credores.

Por último, o que gostava de saber é como essas receitas, a ser verdade, que saem para os bancos são tratadas em termos contabilísticos. Penso que deviam entrar como custos financeiros. Não é? No fim de contas é dinheiro que sai da empresa e afecta o seu cash flow. Não invejo a pesada herança de BC e da sua equipa que têm uma enorme e difícil tarefa pela frente e que, pelo andar da carruagem ainda vai demorar até atingir o desejado passivo gerível… É que conforme o jornalista Pedro S. Guerreiro referiu no seu artigo de 29 de Maio no diário Record, «(…) Já quando se vê o passivo da Sporting SAD não se está a ver a totalidade do clube. Ora, e esta é a novidade, os auditores do Sporting escreveram uma reserva no relatório às contas segundo a qual, além do passivo do clube de cerca de 210 milhões, há mais quase 300 milhões de passivo. Este relatório de auditoria não é ainda público mas os valores circulam junto de várias fontes do sistema financeiro. (…)».


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