Ponto Vermelho
Alternativa ao ruído
7 de Junho de 2014.
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«Quanto menos os homens pensam mais eles falam»-Baron de Montesquieu

1. O aparecimento de Bruno de Carvalho (BC) na ribalta desportiva e logo como presidente do Sporting, parecia constituir uma lufada de ar fresco no tão poluído quotidiano do futebol português. De facto, face a uma situação clubística grave que vinha persistindo, os adeptos do Sporting, apesar da desconfiança inicial, viram nele a possibilidade de devolver o Sporting ao trilho de onde nunca devia ter saído, depois de anos e anos a fio de suicídio sob o governo de condes e viscondes. Os adeptos dos outros clubes e em particular os do Benfica encararam a sua eleição com curiosidade e expectativa, esperando que a sua contribuição fosse assertiva para a mudança que se impunha no nosso futebol dado o aparente impasse desenhado com nitidez.

2. Os primeiros tempos foram promissores. Contra as expectativas encerrou em três tempos a renegociação da dívida com a banca colocando tranquilidade, pôs ordem na mesa tomando medidas complicadas e impopulares, centralizando a comunicação com o exterior um dos grandes défices do universo leonino. Ao mesmo tempo, a principal equipa de futebol dava mostras de vitalidade e a obtenção de resultados animadores mobilizou boa parte dos adeptos que começaram a abandonar a desconfiança para se dedicarem a apoiar a equipa. O estado de coisas no interior do Sporting, por via disso, registou mudanças acentuadas até com a conversão de alguns Velhos do Restelo.

3. O rápido distanciamento a contrapôr à submissão de mais de uma década em relação ao FC Porto e a neutralidade perante o Benfica, faziam crer que o Sporting se preparava para trilhar o caminho da independência e posicionar-se como clube com o seu historial. Sem contudo se desligar da fria realidade da conjuntura e dos vícios e dos esquemas de que padece o nosso panorama futebolístico. Além de que, a sua débil posição financeira e a ausência de passado histórico no dirigismo aconselhavam alguma prudência no discurso e na actuação. Passos firmes ainda que lentos rumo ao objectivo que teria que passar sempre por entendimentos, sabendo-se que nenhum clube por mais poderoso que seja, pode por si só impor-se aos demais. Os exemplos do passado de hegemonização através de caminhos tortuosos ainda que longos, começaram de forma clara já há algum tempo a deixar de fazer sentido.

4. O novo posicionamento leonino teve impacto e foi objecto de exploração pelos vários peões de brega na imprensa que por terem visto normalização nas relações com o Benfica logo se apressaram a introduzir grãos de areia na engrenagem tentando obstar a que as mesmas evoluíssem. Já nem sequer no capítulo das alianças, mas porque lhes interessa a manutenção da política de costas voltadas entre os vizinhos por um conjunto de razões que não importa agora escalpelizar. Soam pois a completa hipocrisia as perorações dos vários articulistas que se entretêm a fustigar os dirigentes como se fossem estes e só estes, a corporizar em si todos os males do planeta futebol. Nesse capítulo o maior destaque vai, como é normal, para o diário da verdade a que temos direito.

5. Nesse aspecto os incentivos que começaram a fluir para BC e se cruzaram com alguns obsessivos sinais interiores, reforçaram a falsa ilusão ao dirigente leonino de que tinha condições para corporizar um novo D. Quixote dos tempos modernos. Desde então, a aura populista que faz parte da sua vida foi-se reforçando com o beneplácito de algumas vozes nos media que ampliaram a cada passo as suas intervenções mesmo que elas revelassem imaturidade, falta de senso ou ausência de sentido estratégico.

6. Gradualmente, como não podia deixar de ser, BC com discurso de adepto foi-se afastando da realidade objectiva. Pensava (ou levaram-no a pensar) que bastava debitar teorias algumas das quais até bem interessantes, para que passasse a ser o pivot da mudança no futebol português. Dissemo-lo na altura e repetimo-lo, que teria sido bem mais útil e pragmático tentar gerar consensos o mais alargados possíveis para poder legitimar algumas ideias válidas e aproveitáveis. Ao não o fazer e optar por ir para a guerra sozinho, acabou por conseguir o expectável – o isolamento.

7. Constatando agora o erro estratégico cometido, BC começou a disparar em todas as direcções como se o mundo desportivo se tivesse conluiado de propósito para o abater. Para bem da sua credibilidade enquanto dirigente e do clube que lidera, deve abster-se de decalcar linguagem conspurcada que fez infelizmente escola noutras paragens, até por uma questão de poluição atmosférica. Com a experiência destes pouco mais de 14 meses de dirigismo desportivo é tempo de começar a reflectir. As soluções que emergem cá fora nem sempre são as mais aconselháveis lá dentro. Abandonar dogmas e ignorar obsessões será o mais curial pois esses sentimentos mais não servem do que atrasar a retoma do caminho mais consentâneo com a realidade. Deve retomá-lo antes que seja tarde…






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