Ponto Vermelho
Derrotar o pessimismo
22 de Junho de 2014
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Quase sem se dar por isso, hoje, daqui a pouco, pode decidir-se tudo ou apenas dar uma machadada violenta no pessimismo que tomou conta de grande parte dos espíritos portugueses. Apesar da situação ter melhorado ligeiramente depois do surpreendente empate do Gana com o nosso carrasco alemão do primeiro jogo, a realidade objectiva é que só interesse a vitória à nossa Selecção como ponto de partida para a última jornada da fase de grupos como antecâmara dos oitavos-de-final em que, mais uma vez, só a vitória nos serve para alcançar esse objectivo.

É pois o momento de deixarmos de pensar em definitivo no desastre da última 2.ª Feira e concentrarmo-nos em exclusivo no jogo com os Estados Unidos. Várias alterações (obrigatórias) se anunciam restando saber até que ponto o habitual conservadorismo de Paulo Bento se mantem ou evolui. No entanto, como já vinha a acontecer e ganhou particular ênfase a partir do apuramento no play-off com a Suécia e se tem mantido ininterruptamente, mantem-se o culto da personalidade em torno de Cristiano Ronaldo, bastando para isso olhar para as capas dos dois principais diários desportivos de hoje.

Trata-se de uma situação que o Departamento de Comunicação da Federação não tem conseguido gerir com eficácia e isso faz com que a emenda seja pior que o soneto. É que, para além de concentrar em demasia as atenções no n.º 7 da Selecção, para quem está de fora fica a sensação de que os restantes jogadores são meros pajens que têm de abrir alas e curvar-se perante o todo poderoso. Ou, dito de outra forma, no caso de acontecer alguma infelicidade a Cristiano Ronaldo e este não poder dar o seu contributo, os outros jogadores ficam completamente órfãos e perdidos no campo sem saber o que fazer.

Embora obviamente esta apreciação traduza algum exagero, a verdade é que o capitão da Selecção por ser um produto explorado pelo marketing até à exaustão ainda que com a sua anuência e transportar actualmente o ceptro de Melhor do Mundo, estava desde logo condenado a concentrar em si a esmagadora maioria das atenções. Portanto, impunha-se que a estrutura federativa e em particular o seu vector de comunicação tentasse minimizar o efeito negativo desse intenso foco que pode ser extraordinário para o ego pessoal e para as respectivas marcas, mas não ajuda o profissional na sua grande missão de tentar corresponder à imensa categoria que ninguém deixa de lhe reconhecer. Para os adversários fica a ideia que neutralizando Ronaldo (ainda por cima algo debilitado fisicamente), a Selecção Portuguesa deixa de ter qualquer possibilidade de vencer os jogos. O que é, evidentemente, outro exagero.

Mas o que está feito feito está, restando agora manter o foco total no jogo de logo à noite frente aos Estados Unidos. Que, é bom recordar, já não são aqueles jogadores incipientes que não há muitos anos ensaiavam os primeiros passos no futebol profissional. Pelo que se tem vindo a observar através dos jogos da MLS a evolução tem sido gradual e notória, a que se tem juntado o rigor, a organização e a seriedade que os norte-americanos emprestam a todas as suas tarefas. E são treinados por um ex-jogador alemão com profunda experiência do futebol europeu. Além de que venceram o Gana que, por sua vez, demonstrou do que é capaz face aos alemães que nos tinham cilindrado.

Por tudo isto, torna-se vital que quem envergar a camisola das quinas daqui a pouco esteja bem ciente da tarefa que o espera para não ser apanhado de surpresa. Entrar com a concentração no máximo é meio-caminho para não ser surpreendido. Porque, parece demasiado evidente que como Selecção, Portugal tem melhores jogadores, muito maior experiência e mais talento que os norte-americanos, restando apenas provar essa mesma diferença dentro das quatro linhas. É proíbido voltar a cometer os mesmos erros do último jogo e estamos convictos que os nossos jogadores sabem que isso não pode voltar a acontecer. O que também não deve suceder é a excessiva fulanização e a tentação de passar sempre a bola a Ronaldo na esperança dele tudo resolver. A Selecção deve ser uma equipa e como tal deve actuar, sem prejuízo de poder potenciar quando oportuno e adequado, a mais-valia que deve, então, fazer a diferença…








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