Ponto Vermelho
Jornais e jornalistas
8 de Julho de 2014
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Citemos Oscar Wilde: "O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor. Ao nos oferecer a opinião dos deseducados, ele mantém-nos em dia com a ignorância da comunidade".
A classe jornalística, a exemplo de outras profissões, vive tempos amargurados em que a incompetência, a falta de rigor, de credibilidade, a ausência de ética e a desonestidade intelectual de uma grande parte dos seus profissionais (avençados ou não), terão porventura, atingido o ponto mais baixo da sua outrora mui digna e respeitada profissão. Dizemo-lo com desagrado e com tristeza porque essa é uma constatação que continuamos a comprovar dia a dia.

Por força de teimarmos em manter-nos informados da realidade que se constrói e surge a cada momento em qualquer lugar e sobre qualquer tema, já acompanhamos o labor e as incidências da profissão há anos suficientes para conseguirmos assimilar que, se levada a sério e em profundidade, é das tarefas mais difíceis, complexas e repletas de perigo que existem. Mas ao mesmo tempo aliciantes. Não é por acaso que anualmente, são vários os profissionais de informação que perecem no exercício da sua profissão. Curvamo-nos em sua memória porque arriscam e por vezes sacrificam as próprias vidas para levar ao Mundo e aos cidadãos a realidade muitas vezes em directo, de um certo acontecimento que de outra forma não seria conhecido ou, a sê-lo, apenas com verdade parcial.

Infelizmente o jornalismo sério e independente por um conjunto diversificado de razões (algumas delas muito poderosas) tem vindo paulatinamente a decrescer. E também o jornalismo de investigação que não raras vezes tem feito abalar alicerces de empresas poderosas, de governos e até de países. Portugal, para variar, é exemplo pela negativa, e aparte diversos profissionais que muito prezamos e respeitamos, a maioria tem seguido a moda que tem feito escola em todos os sectores da sociedade portuguesa – a impreparação, a incompetência, o atropelamento das mais elementares regras da profissão com facadas sistemáticas no código deontológico e, ainda pior do que isso, o eufeudamento e submissão a determinados grupos de interesses.

Bem sabemos que a vida não está fácil e o mercado português da comunicação é demasiado curto e limitado para absorver os aspirantes a profissionais que anualmente concluem os seus cursos. Sobretudo nestes tempos de crise aguda em que se espera e desespera para assegurar um direito garantido pela própria Constituição. Isso explica em grande parte a enorme bagunça que grassa no mundo da comunicação com atropelos constantes e ultrapassagens de regras básicas que outrora constituiam ponto de honra para cada profissional qualquer que fosse o órgão onde desempenhasse a sua actividade. Eram, na circunstância, os mais maduros e experientes que, para além de ensinar, se encarregavam de controlar eventuais desvios. Esse código de conduta ia passando de geração em geração mantendo o nível da profissão. A diferença registava-se apenas na maior ou menor competência de cada profissional.

Quase tudo isso, hoje em dia, se perdeu à luz de outros critérios e outros interesses muitas vezes obscuros. A independência está seriamente ameaçada e como tal o jornalismo que se pratica, de uma maneira geral, reflecte isso mesmo. Como sabemos, em muitos casos, os jornalistas estão limitados nas suas opções, sofrem enormes pressões e não é crível que possam vir a pôr em xeque os interesses das suas entidades patronais e por antecipação os seus. Neste momento, quantos órgãos de informação são verdadeiramente independentes e completamente desligados de interesses políticos, económicos ou de grupo? Esse é precisamente o grande busílis da domesticada informação que temos…

Esse handicap é transversal e atingiu de igual modo os media desportivos. Todos sabemos de quem são, os interesses que representam, e os objectivos que perseguem. Não nos devemos portanto surpreender. De quando em vez vamos assistindo ao ténue estrebuchar de algumas virgens ofendidas cuja experiência já lhes devia aconselhar maior prudência na hora do resgatar da honra dos órgãos que representam, pois a mesma foi-se diluindo à medida em que algumas Bíblias foram perdendo as suas maiores referências para se situarem no mesmo patamar de outros que fazem da ficção, da mentira e da especulação as suas principais armas.

Como tão bem sabem esses profissionais, às redacções e aos jornalistas com contactos previlegiados estão sempre a chegar várias dicas, notícias e informações das mais variadas fontes. Sempre valeram o que valeram mas só eram publicadas depois de haver confirmação efectiva da(s) parte(s) envolvidas. Este era o panorama anterior. Actualmente, porque os jornais são diários e quase todos têm os seus próprios canais televisivos, qualquer rumor ou boato é transformado de imediato em notícia mesmo que encerre uma acentuada dose de especulação e se venha posteriormente a concluir que era um redonda mentira. Essa é a situação actual em que todos já alinham mesmo aqueles que dantes se recusavam a fazê-lo. O seu objectivo é sempre tentarem antecipar-se à concorrência. Com isto ressalta a especulação, as inverdades, a falta de ética, a desonestidade intelectual a troco de alcançarem os seus propósitos. Querem pois que tenhamos alguma consideração e apreço por esses métodos de comunicação Goebbelianos?






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