Ponto Vermelho
Ajustes de contas...
10 de Julho de 2014
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A incrível e impensável goleada sofrida pelo Brasil perante a Alemanha trouxe à luz do dia e enfatizou aquilo que de pior tem o ser humano – a satisfação e até mesmo a alegria com o mal dos outros a que se junta, neste caso, o tão ansiado e desejado ajuste de contas que tinha ficado pendente à espera da melhor oportunidade. E ela finalmente chegou de forma brutal e irá ficar registada para sempre como uma das piores humilhações da Selecção canarinha ainda por cima em sua própria casa, perante o olhar atónito de mais de 63 mil brasileiros presentes no Estádio Mineirão em Belo Horizonte, e dos largos milhões espalhados pelo imenso Brasil e na diáspora.

Este Mundial, como se sabe, esteve envolvido em polémica desde o início. As centenas e centenas de milhões gastos na edificação dos estádios alguns deles candidatos sérios a elefantes brancos já a partir de 2.ª Feira mal se comecem a diluir os ecos do Mundial, provocaram reacções firmes do povo brasileiro que se indignou com o elevadíssimo investimento em detrimento de outros sectores básicos carenciados, agravando ainda mais as assimetrias que já se faziam sentir de forma muito nítida. E o atraso nas obras dos estádios, nos acessos e nas infraestruturas de apoio que tanta preocupação parece ter criado à FIFA acabaram, apenas, por ser resolvidas parcialmente.

Como esperava a FIFA e o Governo brasileiro, mal a bola começasse a rolar a onda de contestação teria tendência a diminuir, porque o povo brasileiro ainda que sem mudar de posição quanto ao essencial da questão, adora futebol e apoia a sua Selecção que, à partida, enquadrava-se no lote das favoritas. À sua frente estava um homem bastante experiente com vários títulos no currículo, do qual o mais emblemático terá sido certamente o Mundial de 2002 realizado na Coreia e Japão numa final precisamente disputada com o seu carrasco da última 3ª. feira. No momento em que este Mundial se iniciou, nem nos piores sonhos o mais céptico adepto da canarinha imaginava que viesse a acontecer o desastre que afinal se registou. Surpresas do futebol com esta dimensão que de vez em quando acontecem.

Contudo, para qualquer espectador com um mínimo de massa crítica e de imparcialidade, terá ficado desde logo patente no jogo inaugural com a Croácia que esta Selecção Brasileira estava longe, muito longe, de todas as que por norma constituem a sua imagem de marca dadas as vastíssimas possibilidades de recrutamento que existem no Brasil e ao constante aparecimento de novos talentos. Os jogos seguintes vieram confirmar essa tese e só a força dos adeptos e um conjunto de factores aleatórios que nada tiveram a ver com a capacidade da equipa e dos jogadores, empurraram o Brasil até às meias-finais da prova.

O acontecimento seguinte foi de facto humilhante pelas circunstâncias em que decorreu e, perante uma catástrofe futebolística de dimensão inimaginável, era inevitável que desde logo começasse a caça às bruxas procurando bodes expiatórios a quem imputar responsabilidades para descarregar a raiva e a frustração pela humilhação sofrida. O alvo estava identificado e não espantou que para além de ser pedida a sua cabeça se pretendesse igualmente a sua imolação. Ainda que em circunstâncias especiais, já se sabe que na hora das vitórias há sempre uma multidão para receber os louros, enquanto as derrotas tendem sempre a ser individualizadas. Não tivémos, nós, benfiquistas, essa experiência ainda bem recentemente?

Nunca fomos fans de Luis Felipe Scolari e na nossa qualidade de curiosos do futebol sempre achámos as suas equipas com um futebol pouco atractivo e galvanizador. Mas não podemos deixar de constatar as suas conquistas e muito em particular à frente da Selecção Portuguesa que, é bom lembrar, desde 1966 registou os seus melhores resultados em que, para além de criar a habituação de estar sempre presente em fases finais, foi vice-campeã europeia em 2004 e conseguiu o 4.º lugar no Mundial de 2006. Mesmo apesar da intensa campanha interna desde que tomou posse do cargo de seleccionador promovida pelas eminência pardas do Sistema que o acharam pouco manobrável…

Scolari não sendo o único culpado pelo triste fim do Brasil neste Mundial, é naturalmente aquele sobre quem devem recair as maiores responsabilidades, competindo-lhe extrair as devidas ilacções pelo fracasso. Que os media e adeptos brasileiros o critiquem e promovam a sua demissão são factos deveras compreensíveis. O que já é mais difícil de compreender são os eternos ressabiados portugueses que, incapazes de raciocinar para além das suas mentes doentias, vêm agora juntar-se ao coro com cantigas desafinadas e próprias de gente do regime que tem conduzido e apadrinhado o futebol português no marasmo e na estagnação. Uns por acção e outros por omissão. Eles aí estão a debitar as suas habituais aleivosias e a destilar veneno palpitando-nos que não vamos ficar por aqui. Afinal ainda falta ouvir alguns papagaios repetirem-se…






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