Ponto Vermelho
Exemplos do futebol que temos
16 de Julho de 2014
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1. O futebol e em particular os aspectos com ele relacionados fora da quatro linhas, tem vindo a evoluir muitas vezes no pior sentido acompanhando a tendência que se vem registando igualmente nas relações das sociedades e dos vários aspectos que regem o seu funcionamento. O capitalismo selvagem existente desde os primórdios da humanidade ainda que assumindo muitas e variadas formas, tem vindo sempre a adaptar-se e a evoluir, com regras feitas à medida dos mais influentes e poderosos aumentando assimetrias a cada passo. Onde quer que seja. Mesmo naqueles lugares onde hipocritamente fazem passar a ideia de que tal é impossível de acontecer, em que o conteúdo é o mesmo ainda que a forma de apresentação seja diferente.

2. Aqui chegados e transpondo esse cenário para o futebol, seria suposto que essa chaga não fosse tão evidente e pronunciada como se observa. Existem supra-organismos na Europa e no Mundo responsáveis pelo estabelecimento das regras, de zelar pela sua aplicação e pelo bom funcionamento das competições, em que seria suposto assegurarem igualdade de tratamento em todas as federações e clubes do planeta futebol. Devíamos pois estar descansados mas não estamos, dados os constantes atropelos que se vão notando em função dos interesses que importa salvaguardar para que os senhores da FIFA e a da UEFA se mantenham no poder por tempo indeterminado.

3. Temos, para ilustrar esta tese, o anacrónico fair-play financeiro da UEFA de monsieur Platini que, parafraseando o nosso treinador ainda que noutro enquadramento, é uma treta. Ou aquelas sábias decisões do conglomerado da FIFA dirigido por Herr Blatter de atribuição da organização do Campeonato do Mundo ao Qatar que como é universalmente reconhecido é uma potência do futebol mundial… Ou ainda, num exemplo bem recente do Mundial do Brasil, da atribuição do galardão de “Melhor Jogador” a Lionel Messi que, sem pôr em causa a enorme categoria que todos sabemos possuir, desta vez não chegou aos calcanhares de um Robben, de um James Rodriguez, de um Mascherano ou de um Di Maria, só para citar estes.

4. O que lhes tem valido e continuará a valer é o próprio futebol em si como ópio e show que arrasta multidões e propicia situações constantes de paixão e de irracionalidade. E com isso o espectáculo dá origem a todo o tipo de negócios in e out, a começar pela galinha dos ovos de ouro dos direitos televisivos e pelos igualmente milhões derivados da construção das necessárias infraestruturas que têm que ser erguidas de harmonia com os padrões-FIFA que como se sabe são extraordinariamente exigentes. E sem falar na publicidade. No fundo, é importante que todos os clientes do círculo fiquem satisfeitos, mesmo que no final o país anfitrião arroste com elefantes brancos que ficam como recordação para a posteridade…

5. Nos últimos anos com particular ênfase nos campeonatos do nosso continente, tem-se assistido a algo que nos devia deixar, a todos os amantes do futebol, muito preocupados. É que, com uma crise de contornos muito significativos a partir de 2008 que tem empobrecido ainda mais muitos países e muitos clubes, o paradoxo é o aparecimento de novos potentados saídos do nada mas que ao injectarem milhões duvidosos na indústria e no negócio passaram a ser olhados com outros olhos pelas entidades reguladoras do futebol. Não fosse assim e não haveria dois pesos e duas medidas com o afastamento das provas europeias de uns (os mais débeis) em detrimento da aplicação de simples multas a outros (os mais poderosos financeiramente).

6. Estabelecer e sobretudo manter prazos no capítulo das transferências que se têm revelado desajustados de todo é algo difícil de compreender e de aceitar. Manter o mercado aberto depois dos campeonatos se iniciarem é uma regra sem o mínimo sentido que causa tremendas dificuldades aos menos apetrechados e desvirtua por completo a verdade desportiva. Só conseguimos compreender esta decisão estapafúrdia à luz do favorecimento descarado dos grandes potentados futebolísticos, sejam eles os tradicionais ou os que podem emergir a qualquer momento de qualquer lado desde que a condição seja a de injectarem muito dinheiro na indústria para gáudio de Nyon e de Zurique.

7. Os principais clubes portugueses têm sofrido na pele essa política selectiva e a cada ano que passa mais complicado se torna a sua tarefa. A sua condição de clubes de país periférico sulista agrava ainda mais as suas debilidades, sendo que a manter-se este estado de circunstâncias num futuro próximo muita imaginação terá de haver dos seus dirigentes para poderem sobreviver a esta ameaça bem real que os circunda e envolve. Não são muitas as alternativas que lhes restam e nos últimos anos têm reagido com o potenciamento e venda de jovens jogadores estrangeiros. Mas pelo andar da carruagem e com a formação a dar frutos, a tendência crescente será a das Academias e dos Centros de Formação passarem a ser fornecedores directos dos talentos que conseguem produzir. Em boa verdade, quando continua a haver dinheiro a rodos nos clubes-ricos e nos Fundos de tipo duvidoso, para quê ter trabalho se o mercado abastecedor está mesmo à porta?






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