Ponto Vermelho
Personagens da história do futebol portoguês-II
20 de Julho de 2014
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Por EagleView

Reportei-me ontem à forma como Pinto da Costa (PC), se foi sedimentando no poder e malgré tout, como foi passando incólume de forma sistemática pelos intervalos da chuva, leia-se, aproveitando os buracos e alçapões que as generosas e compreensivas leis foram colocando à sua disposição. Para já não falar do tráfico de influências e do concluio com outras personagens ocupando postos relevantes em vários sectores da vida nacional. Ninguém, obviamente, consegue fazer tudo sozinho!

Vimos, igualmente, de harmonia com o relato de Marinho Neves no seu livro 'Golpe de Estádio' como começaram a ser tecidas as várias teias e ao aparecimento de uma personagem – Luciano D’Onofrio –, que se viria a revelar fundamental na escalada de PC. Prossigo com Marinho Neves (MN): «Luciano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado, apareceu pela mão de Reinaldo Teles e recebeu a bênção de PC. D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma pessoa de grande interesse para o clube. PC foi quem mais lucrou com a sua vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu e D´Onofrio viu ali um grande negócio para si e para PC».

Um filão inesgotável face à conjuntura que atravessávamos. Mas demos a palavra a MN: «Em todos os jogadores que fossem negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das primeiras comissões Pinto da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luciano D´Onofrio tinha ligações com a Mafia italiana e que Reinaldo mais alguns familiares viveram sempre de habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação de objectos roubados. "Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos comunitários"», costumava dizer Reinaldo, que um dia ficou deliciado quando em Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reinaldo viu a rua de Santa Catarina transformada num gigantesco bordel, imaginando situações do tipo "leve três e pague duas" ou "pague o seu bacanal em dez suaves prestações"».

Continuando: «Mas era sonhar muito alto. Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com Alberto Magalhães, reputadíssimo empresário. PC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não dava tréguas:
– Aqui quem manda sou eu e quem não estiver bem que se afaste!»

Mais: «O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reinaldo Teles ia subindo na hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande contestação, pois nessa altura já Reinaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos».

Sintomático: «Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição. Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de lançar alguns insultos ao presidente e seus pares.
- F… da p…, chulos, vão trabalhar!
Pinto da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reinaldo Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas, deu de imediato uma ordem em surdina:
– F… esse gajo!»

O vale tudo: «Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio. O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer. O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até a alguns agentes de autoridade que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre esta onda de poder e segurança que Pinto da Costa construiu o seu império e imperializou a sua própria imagem».






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