Ponto Vermelho
Haverá clássico sem polémica?
12 de Janeiro de 2013
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Clássico entre Benfica e FC Porto ou vice-versa só é clássico se existir polémica. De outro modo seria tão normal que não se venderiam jornais, os programas televisivos virados para o desporto ficariam coxos, os telejornais teriam menos audiências e alguns treinadores e dirigentes não seriam capazes de justificar eventuais fracassos. Preenche simultaneamente para os apaniguados do Dragão o 2º mandamento da cartilha azul e branca, que determina que é preciso criar inimigos para motivar as tropas. É uma das formas de galvanização a que recorre a organização exemplar e que até agora tem obtido bons resultados, pelo que não há razão para mudar.

Estavam já a fazer-se prognósticos sobre qual o pretexto que daria lugar desta vez à rampa de lançamento para os media darem o kick off, quando Jorge Jesus em resposta a uma questão lançada propositadamente para cima da mesa afirmou que «o sobrecarregado calendário do mês de Janeiro era bom sinal. Um indicador que o Benfica, ao contrário de outras equipas, estava a disputar todas as provas». Tal bastou para que a especulação desenfreada tivesse início, sendo interpretada como uma farpa única e exclusivamente direccionada para o FC Porto. Percebia-se pois que o clássico já estava no horizonte e convinha agitar um pouco as águas e começar a trazer o assunto para o topo da actualidade. E que melhor do que inventar uma polémica?

Há sempre, normalmente, duas formas de encarar este tipo de situações. No caso em equação até podia ser tentada uma 3ª alternativa, atendendo a que a interpretação das palavras de Jorge Jesus poderia sofrer nuances. Podia, de facto, ser uma indirecta aos azuis e brancos, mas poderia ser igualmente uma simples constatação da presente realidade. Como ele não o explicitou, se porventura tivesse a posteriori assumido esta última interpretação não haveria forma como desmenti-lo. Logo são versões pessoais que valem o que valem e que poderão ser interpretadas como tentativas de criar uma boa polémica sabendo de antemão a predisposição popular que sempre existe para casos como estes. E se houvesse porventura dificuldades de fazer passar esta estória, o passado recente estava aí bem fresco na memória de todos para tornar credível essa assumpção.

Infelizmente, para desespero dos amantes destas novelas de curto alcance e até ao momento, a fina ironia meteu férias e aquela substância que a mesma emprestava a estes assuntos dignos de registo perdeu-se no diluir do tempo que passa sem darmos por ele. Foi-nos oferecida em sua substituição uma alternativa de baixo custo, tímida, pouco imaginativa, com sérias dificuldades afirmativas na língua portuguesa mesmo recorrendo ao novo (des)acordo ortográfico num gesto de boa vontade, constituindo em suma uma versão obsoleta da realidade. Por muito menos haveria certamente mais e melhores alternativas. A arengada a que o porta-voz se prestou foi de facto deprimente e, por muito estranho que possa parecer, fez-nos sentir saudades do original que ao menos tinha o condão de nos divertir.

Houve tempos em que esse rezingar surtia efeito. Sabiam os pintistas e os media que exploravam e promoviam até ao tutano toda e qualquer dissenção, desde que a mesma servisse de motivo para a abertura das hostilidades. Todavia, quer-nos parecer que esse estratagema já teve a sua época e está já por completo démodé e mal ele surja e seja dado à estampa começa logo a ser ignorado, a menos que seja uma história com substância e que mereça a pena observar. Mas, valha a verdade, nos últimos tempos o manual de histórias e esquemas não tem sido enriquecido porque a imaginação parece estar saturada na zona. Com excepção evidentemente daquilo que se afigura cada vez mais como uma golpada – o adiamento ao arrepio dos regulamentos do jogo de Setúbal – e cujos contornos parecem ser mais vastos e que ou muito nos enganamos ou vai ainda dar que falar.

De facto parece que começa a haver algum défice imaginativo na estrutura de sonho. É real que dantes, com as pessoas menos avisadas e atentas, era muito mais fácil fazer passar qualquer esquema menos transparente. Mas hoje já não é bem assim, aparte o poder que o Sistema ainda detém e a capacidade de influência que promove junto de muitos e variados sectores e que lhe continua a granjear situações de previlégio. Mas é inegável que a imagem pública que a estrutura pintista transmite é agora de uma menor assertividade, com declarações desconexas e fracas de conteúdo, como foi exemplo a fraquíssima última comunicação do seu treinador. Mas iludam-se aqueles que pensam que isso é já o estertor da agonia. Nada disso, pois a grande maioria das estruturas ainda se mantêm sólidas e como tal torna-se necessário continuarmos atentos.

Apesar das poças de água de Setúbal e de termos assistido a um comovidíssimo regret do melhor árbitro português no estrangeiro para ver se ainda vinha a tempo de arbitrar o clássico, tal não aconteceu. Entendemos que desta vez a Comissão de Arbitragem demonstrou uma atitude inequívoca de sensatez ao proceder à nomeação de um árbitro que, apesar de alguns erros que tem cometido, tem primado pela discrição e não faz parte daquele lote vanguardista infelizmente bem conhecido de todos nós. Nestes encontros importantes é vital que as estruturas das equipas e os respectivos adeptos partam para o jogo sem ideias pré-concebidas em relação à arbitragem, porque isso é sinónimo que neste conspurcado futebol português o árbitro no mínimo merece o benefício da dúvida. Independentemente do que possa eventualmente vir a acontecer a seguir.






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