Ponto Vermelho
Campeonato decidido
26 de Julho de 2014
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1. Quem acompanha diariamente o verdadeiro massacre de notícias, dos comentários e das opiniões veiculadas a nível dos órgãos de comunicação social por um enxame de jornalistas, repórteres, comentadores e outros especialistas aparentados, apenas entrecortados por outras actualidades como a que há mais de 3 anos era conhecida como a do chamado caso GES e não BES como insistem por ignorância, maldade ou de forma propositada impingir-nos, não pode deixar de notar que para além dos diários desportivos, também os generalistas dedicam cada vez mais espaço ao fenómeno desportivo (sem esquecer os on-line), já sem falar nas televisões que têm nascido como cogumelos. Todos, sem excepção, necessitam de preencher a sua programação com notícias ou sucedâneos para entreter a populaça sempre ávida de ler ou ouvir peças que a distraiam e vão de encontro às suas expectativas. É um serviço prestado à la carte oferecido por uma nova casta de profissionais prolíferos e multifacetados como convém, dos quais muitos por um conjunto de razões mistas, estão quase sempre devedores da ética, da independência e da honestidade intelectual que nos dias que correm são coisas que tendem a desaparecer de forma acelerada. É uma consequência dos novos tempos…

2. Neste momento (e aí os jornais desportivos têm razão para se queixarem amargamente da concorrência), qualquer cidadão, tenha ele muito, pouco ou nenhum interesse pelo desporto e nomeadamente pelo futebol que vai vegetando em Portugal, ao passar por qualquer posto de venda de jornais e revistas, ao comprar, ou apenas en passant dar um olhadela pelo canto do olho para as gordas, para além daquelas notícias eternecedoras de alguns pasquinóides tipo do gato que fugiu à senhora idosa e foi preciso chamar os bombeiros para o retirar do cima da árvore, ficam desde logo documentados sobre as últimas novidades, muitas retiradas do contexto mas apelativas e convincentes e quando chegam ao café da esquina ou ao local de trabalho, julgam-se desde logo aptos a poderem argumentar e discutir com os amigos ou colegas sobre um tema específico ou sobre uma notícia em concreto como verdades absolutas. O que significa que as notícias distorcidas ou manipuladas (isso pouco importa) porque há sempre hipótese de as corrigir (se for caso disso evidentemente) mais uma vez atingiram os objetivos pretendidos. Depois, à noite, se porventura ligarem qualquer canal televisivo (desportivo ou não), terão ensejo de ouvir as doutas dissertações de médicos, advogados, economistas, gestores e outros opinion makers a começar pelos clubistas todos com mestrado em futebol que deve ser, porventura, a disciplina mais procurada… O que nos valem são as excepções que felizmente continuam a haver!

3. Na antecâmara de mais uma época desportiva e observando algo divertidos essa fúria opinativa que revela dotes premonitórios sem precedentes que nem Zandinga ou o Bruxo de Fafe desdenhariam, vai animada a turba nos seus bitaites e palpites com frequência evolutiva constante e têm-se transformado em certezas inquestionáveis. Alguns, mais comedidos e inseguros, ainda se encontram no campo da relatividade, mas outros, quiçá a grande maioria, já não têm quaisquer dúvidas e muito menos o receio de se enganarem; – o campeonato versão 2014/2015 já está decidido, o campeão encontrado, e o ordenamento da classificação no tocante aos dois primeiros estabelecido, subsistindo dúvidas quanto ao terceiro onde parece haver mais do que um candidato… Aliás, tanto quanto abrange o espaço limitado da nossa memória e salvo qualquer fugaz fase de amnésia, não nos recordamos de alguma vez ter sido encontrado o vencedor e o segundo classificado do campeonato com tanta antecedência e muito antes da prova ter começado. O que prova que a imaginação e a evolução mental do ser humano é uma constante caixinha de surpresas. Enquanto leigos, receamos vivamente que o negócio especulativo esteja a perder encanto e isso não é nada bom para os interesses dos próprios media uma vez que funcionando a lógica, esgota-se a incerteza e com isso afunda-se o negócio…

4. Mas observemos este novo fenómeno de adivinhação pelo lado lúdico. Não tem o seu quê de hilariante? Quando as equipas ainda estão na fase de preparação e nem os bruxos conseguem adivinhar as investidas que o mercado (in e out) tem preparadas até 1 de Setembro, as cargas de treino têm sido violentas nesta altura da época para elevar os padrões físicos e há um infinidade de jogadores para serem integrados e assimilarem as rotinas das respectivas equipas, como é possível ter tantas certezas onde, do nosso ponto de vista, só existem dúvidas e incertezas? Há, pois, está explicado: é devido ao facto das novas personalidades serem monogâmicas e extraordinárias no 1.º caso, estáveis e fiáveis ainda que oriundas de múltiplas culturas no 2.º, enquanto que sem categoria e sem dinâmica no aspirante ao último lugar do pódio… Está escrito o argumento do filme, vai-se avançar para a sua produção e depois é só esperar que chegue às salas de cinema para observar a aceitação dos espectadores. Não é entusiasmante?












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