Ponto Vermelho
Saídas com impacto
13 de Agosto de 2014
Partilhar no Facebook

O ciclo de vida útil de um jogador de futebol é como todos sabemos curta salvo as excepções que ocorrem nos dois sentidos. Se até quase finais do século passado os atletas corriam o risco de ficarem amarrados a um único clube ao longo de toda a sua carreira bastando para isso que o clube manifestasse por escrito a sua intenção dentro do prazo estabelecido, a partir do Acórdão Bosman tudo se modificou e atingiu uma verdadeira revolução. Hoje em dia, os jogadores ainda que continuem a ser na quase totalidade das vezes simples mercadoria transaccionável à mercê de agentes, familiares, empresários e quejandos, de oligarcas e sheiks e de estratégias enviezadas para vários ganharem o mais possível com o negócio, têm apesar de tudo mais opções e maior liberdade de escolha. Não são, contudo, seres livres e quase nunca podem decidir o seu próprio destino profissional.

O sempre eterno Eusébio esteve em todo o primeiro período. Quando se aproximava o fim da sua carreira, muitos se interrogaram dentro do Benfica e fora dele e outros tantos vaticinaram que, devido à extraordinária relevância que o Pantera Negra tinha tido nos encarnados e na Selecção ao longo de 14 anos ao mais alto nível, o clube e a Selecção iriam sentir de maneira muito acentuada um vazio de dimensões imprevisíveis. Quando chegou o momento inevitável, pela Selecção em Outubro/73 e pelo Benfica em finais de Março/75 na Luz, muitos dos que assistiram a esse jogo também se interrogaram como iria ser doravante. Ainda que com sentimentos difusos porque estavámos no auge da 'Revolução dos Cravos' e falar de futebol nessa altura dadas as conexões com a ditadura anterior, era anti-revolucionário e contra o PREC. Até mesmo os jornais desportivos (trissemanários) eram relegados para 2.º plano.

Entre avanços e recuos mas com o futebol a reflectir o momento político que então se vivia, a emancipação e independência das outroras 'Possessões Ultramarinas' e já sem Eusébio nos seus quadros, a política de recrutamento do Benfica sofreu uma inflexão de 180º que até aí orgulhava-se de só jogar com atletas portugueses. Tal veio a acontecer numa Assembleia dramática no início de Julho de 1979 para tentar inverter a situação da aquisição de jogadores que começava a preocupar, dada a turbulência que então se vivia nas Ex-Colónias, uma das principais fontes de recrutamento encarnado.

No meio de toda essa agitação o Benfica teve que se habituar a viver sem o talento, classe e influência de Eusébio e sem a possibilidade de explorar o filão que representava os jogadores oriundos dos antigos países sob administração portuguesa em particular Angola e Moçambique. Por tudo isso começou a sofrer intermitências e não voltou mais ao seu papel dominador que tinha atingido o pico na década de 60. Assim, para além da enorme perda futebolística de um dos mais geniais futebolistas de todos os tempos, o Benfica foi forçado a viver com as vicissitudes da época que poucos anos depois, por erros próprios e estratégias pessoais, abriria caminho à ascensão e domínio do FC Porto de Pinto da Costa. Mas apesar de todas as dificuldades sobreviveu, ainda que tenha sido forçado a uma longuíssima travessia do deserto.

A conjuntura actual salvo os devidos distanciamentos, fez-nos de algum modo recordar esse período conturbado e estabelecer algum paralelismo. Dentro do extremismo de posições que nos caracteriza, a debandada de jogadores esta época por variadíssimas razões que esperamos fiquem esclarecidas amanhã à noite, criou um estado de nervosismo, insegurança e instabilidade que só foi minimizado com a exibição da equipa em Aveiro. Vários jogadores têm saído e, grosso modo, aparte este ou aquele (e lembramo-nos por exemplo de Garay), a sua partida tem causado alarido sobretudo pela quantidade ainda que não estejemos a menosprezar a qualidade associada. Alguns têm resistido até agora, mas a avaliar pela insistência e pormenores das notícias, parece crível que não vamos ficar por aqui. Longos dias tem Agosto…

Enzo é o homem do momento e parece ter adquirido uma importância lunar. Depois de uma adaptação falhada ao país e ao Benfica e de um regresso precipitado aos Estudiantes, o jogador chegou a manifestar que queria manter-se na Argentina. Nesse momento, por certo muitos benfiquistas terão pensado - já era! O bom senso, aconselhamento e a ligação contratual com o Benfica falaram mais alto e ele regressou. De extremo-direito banal transformou-se e foi transformado num centro-campista de nível mundial com a influência que se reconhece no futebol encarnado, como aliás ainda no Domingo se viu. A titularidade no Mundial não foi mais do que o corolário disso. Enzo ganhou ainda mais protagonismo quando Jesus afirmou publicamente que era, a par de Luisão, uma das suas extensões em campo. Que aumentou ainda mais quando Jesus referiu que era o jogador que gostaria de não perder. Se a cobiça era grande, maior passou a ser.

Sejamos, contudo, racionais e pragmáticos. Enzo tem 28 anos. Tem ambições óbvias de jogar numa Liga mais forte como é a espanhola e de, em paralelo, fazer um contrato com outra amplitude. Compreende-se, ainda que tal como outros jogadores de grande expressão, que a concretizar-se a sua saída do Benfica devesse poder escolher um clube à sua dimensão o que pode não ser o caso. Se acontecer, o Benfica perde uma mais valia e um atleta que desde que regressou, sempre soube honrar a camisola do Benfica pela sua classe, pelo seu pundonor e pelo seu profissionalismo. Por isso é benquisto de todos. Resta a compensação da parte económica que parece ajustada às circunstâncias. Mas, salvaguardadas as devidas distâncias, da mesma forma que o Benfica teve num passado já distante de se habituar a viver sem o seu futebolista de eleição, também agora (ou mais tarde) ficará sem Enzo. E também terá que se habituar. Não façamos disso um drama mas apenas uma questão que sendo importante, será, nos tempos actuais, igual a tantas outras. Algumas bem recentes…






Bookmark and Share