Ponto Vermelho
Casos da Liga Portuguesa
26 de Agosto de 2014
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1. A actividade noticiosa tem de ser viva e dinâmica para que o marasmo, o desinteresse e a indiferença nunca cheguem aos alvos que é preciso manter interessados e atentos a todo o custo – os telespectadores/leitores. A proliferação de órgãos de informação seja eles de que natureza forem, faz com que a toda a hora haja uma intensa luta pela primazia da actualidade e dê azo a uma concorrência desenfreada em que por vezes não vale tanto a notícia e o seu conteúdo, mas sim a forma como é apresentada e vendida. É esta a realidade actual gostemos muito, pouco, ou nada, e é com ela que teremos que viver. A aceitação ou rejeição já é uma situação que incumbe à curiosidade e à consciència de cada um.

2. Essa prática bastas vezes enviezada mas de certo modo compreensível, é seguida porque tem eco e encontra acolhimento junto dos destinatários. Por mais interessante e apelativa que seja uma capa de jornal, a abertura de um telejornal ou o pontapé-de-saída de um noticiário radialista, ninguém é obrigado a ler ou (tele)ouvir, pelo que ao fazê-lo, está de alguma forma e à partida desde logo a legitimar a notícia, tenha ela o grau de veracidade e de rigor que tiver. Não é por acaso que um dos diários generalistas da manhã bate toda a concorrência com notícias ocas e sensacionalistas que já fizeram escola no passado mas que estão de volta, provando que em vez de evolução positiva temos regressão. O que é sempre uma boa notícia para os poderes instalados que assim podem chafurdar mais à vontade sem serem incomodados…

3. É devido a isso que no futebol e no FC Porto numa decisão interna da estrutura azul e branca, a arriscada promoção de Ricardo Quaresma a capitão de equipa não deu origem à mínima controvérsia informativa, mas no jogo de Lille ao entrar a escassos dois minutos do tempo regulamentar e ao assumir uma atitude de incómodo e rebeldia tantas vezes protagonizada durante a sua longa carreira já causou pruridos a muita gente do meio, como se o intérprete não fosse Quaresma mas um dos jogadores mais disciplinados do plantel azul e branco. Bem sabemos que estamos na presença de uma estrutura de sonho de que dão a imagem que tudo controla com mão de ferro, mas que diacho, face à personalidade controversa do jogador de que é afinal estavam à espera? Perante a incomodidade da estrutura, valeu na circunstância a forma como Lopetegui lidou com o problema que, como todos sabemos, corre o risco de poder ser reavivado a qualquer momento…

4. Também no futebol um outro acontecimento deu à luz desta vez envolvendo o nosso vizinho do outro lado da 2.ª circular. Compreende-se a excitação do presidente-adepto com a chegada de Nani. Aliás, Bruno de Carvalho (BC) que se mantém animado pelo desejo utópico de vir um dia a atingir o dom da ubiquidade, contribuiu ele próprio para o que depois veio a acontecer que só não foi decepcionante porque a vitória acabou por sorrir. É evidente que a postura populista que mantem desde o início do seu mandato, e belicista ao disparar sobre tudo o que mexe mesmo até sobre o que está inerte, agrada aos adeptos mais radicais (e a alguma imprensa amiga) que interpretam isso como um sinal de personalidade e de firmeza, quando o é apenas de auto-afirmação. Mas não o será certamente para o apaziguamento do já por si atribulado futebol português que necessita antes de tudo de acalmia e não de agitação sem sentido.

5. Retomando o episódio, a postura de BC nos antecedentes, ao mesmo tempo que galvanizou as hostes leoninas (e isso em si foi um facto positivo), criou constrangimentos quer ao jovem treinador pouco ou nada habituado a este tipo de ambientes de pressão, quer ao próprio Nani que se terá sentido com outro peso depois da recepção presidencial em plena Portela. Dir-se-á que se tivesse convertido o penalty tudo estaria bem e não teria havido conversa de pastilha elástica. É bem possível que sim. Mas isso não invalida o essencial da questão; Nani pelo facto de ter acabado de chegar e estar desfasado dos movimentos da equipa, das ideias tácticas do treinador e por não ser uma necessidade absoluta, não deveria ter entrado como titular, ao mesmo tempo que não deveria ter tentado converter a grande penalidade porque existe uma hierarquia que deve ser respeitada, com a agravante do nulo que se registava na altura já com o cronómetro bastante avançado. E eis como dois fait-divers marcaram forte presença na semana informativa e motivaram discussões acaloradas entre os adeptos, mantiveram entretidos os plumitivos, e até nós nos sentimos tentados. Entretanto, o mais importante ficou em banho-maria. Não é significativo?










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