Ponto Vermelho
Ódio & corrupção-I
30 de Agosto de 2014
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Por EagleView

Todos estamos cientes de que o ódio e a corrupção existem desde os primórdios da Humanidade. Onde há Homens existe essa inevitável tendência, e em todo o tempo e em todas as sociedades essas duas palavras andam intimamente ligadas, sendo que ao longo dos tempos sofreram desvios e adaptações às novas realidades, disfarçadas com outras menos susceptíveis de chamarem a atenção da populaça. Hoje em dia para não irmos mais longe, é vulgar ouvirmos falar, por exemplo, de influência, uma palavra que serve para tudo até para propagar e desenvolver a corrupção em versão soft.

No futebol como nos outros sectores, não fugindo à regra, também a tivémos e continuamos a ter. Mas está generalizado e provado que foi no último terço do século passado que o ódio e a corrupção começaram a atingir a grande expressão que se tem verificado, fruto das alterações políticas registadas e da permissividade que se seguiu. Talvez porque José Maria Pedroto (JMP) partiu demasiado cedo, o mérito quase exclusivo tem sido atribuído a Pinto da Costa (PC). Mas, em bom rigor, foi o Zé do Boné que lançou as bases do que viria a ser o Sistema tal como o conhecemos hoje, que PC se limitou a desenvolver e a consolidar com os seus homens de mão. Será pois justo considerar JMP como o grande patrono e artífice do que se seguiu – o ódio e da corrupção no futebol.

Revisitemos então o passado para compreendermos melhor esta temática: Em 1960, JMP torna-se no 1.º treinador português com curso superior. Foi um treinador que demonstrou possuir excelentes capacidades técnicas associadas a um discurso agressivo, que viria mais tarde a caracterizar outro José (Mourinho). Enquanto treinador, continuou a evidenciar-se nos "estudos", obtendo uma brilhante classificação num curso efectuado em França. Estes resultados, aliados ao bom trabalho nas camadas jovens do FC Porto, levaram-no ao posto de treinador da Selecção Nacional de Juniores.

JMP regressa ao FC Porto já com PC como presidente. Nesse período ainda venceu uma Taça de Portugal e foi finalista da Taça das Taças. JMP e PC criaram as bases para a série de grandes êxitos que se seguiriam e que culminaram com a vitória na Taça dos Campeões Europeus. Ao leme estava o seu discípulo Artur Jorge, um dos dois treinadores portugueses campeões europeus de clubes, a par de José Mourinho, em 2003/04, também ao serviço dos portistas. Para a maioria dos portistas, JMP é uma lenda, um herói. Mas para um simples adepto do futebol como eu, ele foi a semente que gerou o ódio e a corrupção que têm grassado no futebol português nos últimos 30 anos.

Como exemplo, relato este episódio contado pelo também já falecido jornalista Neves de Sousa:
«Pouca gente soube que o muito saudoso José Maria Pedroto esteve a um pequeno passo de ser treinador do Sporting, quando João Rocha era presidente do clube de Alvalade. Tudo estava acertado, pormenor por pormenor, até à mais ínfima partícula de um documento que vinculava as duas partes, pelo menos durante uma temporada futebolística. Porém, no dia em que estava aprazado a assinatura nos papelinhos, Pedroto travou o gesto e subitamente disse para o presidente do Sporting: “Esqueci-me de lhe lembrar, mas falta aqui uma claúsula. Está tudo certo, tanto em relação aos meus prémios, como aos meus vencimentos, o caso do apartamento e do carro às ordens, tudo muito bem, mas o senhor presidente esqueceu-se de que eu lhe tinha dito logo no primeiro encontro: só vou para um clube que dê garantia de contar com os árbitros”. “Como, não percebo?”, indagou João Rocha, nessa altura pouco habituado a saber o que era certa fatia da arbitragem, Pedroto meteu a caneta na algibeira, levantou-se e apenas disse: “Quinze mil são para mim, mas para os árbitros são precisos outros tantos, caso contrário o Sporting só ganha campeonatos lá para o fim do século.” O contrato acabou por não ser assinado. Pedroto rumou para outra latitude a norte, mais compreensiva. O Sporting continuou a ver navios”.»

Ao contrário da lavagem de imagem que a imprensa avençada sempre se esforçou por fazer, JMP era ”intratável e tinha atitudes que roçavam o racismo", conforme afirmou o grande capitão Mário Wilson que o constatou nos anos que teve que conviver com ele. Assinou contrato com o FC Porto, após uma investida directa de PC, que estava devidamente autorizado pelo Presidente Américo Sá para o contratar a qualquer custo. JMP apenas colocou uma condição que se verificou: que PC fosse o Chefe de Departamento de Futebol Profissional. Começava assim uma dupla que marcou e marcará inquestionavelmente para sempre uma longa época de sombras no futebol português. PC e JMP traçaram uma estratégia que visava afrontar todos os poderes instalados no futebol português e de uma vez por todas acabar com a hegemonia dos clubes da capital.

A temporada de 1976/77 foi altamente conflituosa. O FC Porto acabou apenas em 3.º lugar no Campeonato Nacional da 1ª Divisão a 10 pontos do Benfica que foi o Campeão. Venceu porém a Taça de Portugal numa final onde derrotou o SC Braga por 1-0. No ano seguinte, finalmente, foi quebrado o longo jejum de vitórias portistas no Campeonato. Os azuis e brancos sagraram-se Campeões Nacionais depois de um competição disputadíssima, decidida no goal average, com o Benfica, que foi 2.º, com a proeza inacreditável protagonizada pelo clube da Luz, que não perdeu qualquer encontro na prova e não foi campeão. Renovou o título na época seguinte de 1978/79 em mais um campeonato rijamente disputado com o Benfica. Em 1979/80 perdeu o título para o Sporting, quedando-se o FC Porto no 2.º lugar somente a 2 pontos dos leões de Alvalade. (…)






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