Ponto Vermelho
Ódio & corrupção-II
31 de Agosto de 2014
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Por EagleView

Continuando a desenvolver as memórias, depois dos 3 anos à frente da equipa do FC Porto, o clima de guerrilha no futebol português envolvendo os principais clubes e os poderes de decisão na FPF, estava extremamente intenso e fortemente acicatado pela dupla JMP/PC. Era um chorrilho de polémicas e um constante ambiente fervente entre os protagonistas. Mário Wilson, durante o período em que foi treinador do Benfica, ou mesmo da Selecção Nacional, foi sempre um alvo privilegiado de JMP, como se se tratasse de um verdadeiro ódio de estimação.

Como exemplo do clima que então se vivia e as repercussões nas pessoas, destaca-se recorrentemente um episódio ocorrido na época de 1979/80. Naquele período Mário Wilson era o Seleccionador Nacional. Convocou vários jogadores do FC Porto para representar Portugal num jogo particular contra a Espanha a ser disputado não muito longe – em Vigo. Esse jogo seria realizado entre dois jogos dos portistas para a Taça dos Campeões Europeus frente ao AC Milan o que evidentemente prejudicava a preparação da equipa portista. Por isso, JMP não se conteve, chamando palhaço a Mário Wilson. Os jogadores portistas iriam juntar-se ao grupo da Selecção Nacional que vinha de Lisboa, na Estação de Campanhã no Porto. Aí, em vez dos jogadores do FC Porto, estava uma verdadeira multidão em fúria que apedrejou o comboio que transportava a equipa nacional. Sintomático!

JMP foi então multado pelas instâncias federativas em 500 escudos. O popular Zé do Boné não se emendou e em jeito de reacção acrescentou: "Quando disse que Mário Wilson, como treinador, era um palhaço, não tive intenção de ofender os palhaços." A verdade é que este tipo de discurso era recorrente em JMP. Frases como "temos de lutar contra os roubos de igreja no Estádio da Luz", ou "passamos de pombinhos provincianos a falcões moralizados", ou ainda "é tempo de acabar com a centralização de todos os poderes na capital" eram normais e recorrentes no linguajar do técnico portista.

Depois do FC Porto perder o Campeonato da época de 1979/80, não conquistando o tri, JMP foi afastado do cargo de treinador principal do azuis e brancos pelo então Presidente Américo Sá que se dizia farto das polémicas e conflitos gerados pela dupla PC-JMP. A saída dos dois do FC Porto foi conturbada originando o célebre verão quente de 1980, quando 14 jogadores portistas onde constavam nomes como o de Costa, Oliveira, Octávio, Sousa, Frasco, Gomes, entre outros, fizeram uma autêntica rebelião.

Com efeito, após o presidente Américo Sá deixar o nome de PC fora das listas concorrentes aos órgãos sociais, em forma de protesto e demonstrando estar ao lado do actual presidente portista, 14 jogadores não compareceram aos trabalhos de preparação para a nova época (1980/81) sob o comando do austríaco Herman Stessl, entretanto escolhido para suceder a JMP. Esses 14 jogadores trabalhavam no Pinhal de Santa Cruz do Bispo às ordens de Hernâni Gonçalves, preparador físico de JMP (também já falecido) posteriormente conhecido como o Professor Bitaites, enquanto que os jogadores portistas, os apelidados de alinhados, prosseguiam a sua preparação em Leiria.

Desempregado, JMP, teria sido alegadamente seduzido por responsáveis do Benfica para assumir o cargo de treinador dos encarnados. Esse facto não se consumou porque, segundo constava, alguns dirigentes benfiquistas terão vetado o ingresso do técnico no clube, havendo outros a afirmar que terá sido JMP que não aceitou rumar a Lisboa pois pretendia continuar a trabalhar no norte do país. Para o Sporting acabou por rumar o britânico Malcolm Allison, para o Benfica o húngaro Lajos Baroti e JMP permaneceu inactivo no início da época de 1980/81. Entretanto, em Guimarães, o Vitória local arrancava para a época com enormes expectativas de sucesso. O recentemente empossado Presidente da Direcção, o jovem Pimenta Machado, tinha contratado um punhado de jogadores de inegável qualidade, desde os internacionais Damas e Blanker, a jogadores da categoria de Barrinha e Nivaldo, até aos jovens Fonseca e Ribeiro.

Depois de um início de prova algo titubeante Pimenta Machado decide despedir Fernando Peres e Cassiano Gouveia, a dupla técnica que comandava a equipa, à passagem da 7ª jornada do campeonato depois de uma derrota frente ao Sporting de Espinho por 3-1. Diz-se que incentivado por PC, Pimenta Machado terá decidido contratar tão só a melhor equipa técnica nacional, numa ousadia que espantou todo o futebol português. É desta forma que JMP, coadjuvado por António Morais e Artur Jorge, ingressa no Vitória de Guimarães. A entrada do novo treinador revelou-se importante, pois o Vitória melhorou significativamente de produção, alcançando resultados bem mais consentâneos com a real valia da equipa.

A estratégia de JMP, quando perdia, passava por imputar as responsabilidades pelas derrotas ao mundo exterior. Quando perdia, a culpa ou era do árbitro, ou dos poderes instituídos no futebol português que teimavam em prejudicar a sua equipa. Uma estratégia que como se viu chegou aos dias de hoje. Após a passagem pelo Vitória a sua carreira no futebol prosseguiu regressando novamente ao FC Porto, já com PC na presidência. O Vitória e os seus dirigentes tudo fizeram para manter JMP no cargo de treinador. Os vimaranenses terão mesmo oferecido um salário de 1.500 contos por mês, quantia superior à que JMP foi auferir como técnico do FC Porto. (…)




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