Ponto Vermelho
Ódio & corrupção-III
3 de Setembro de 2014
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Por EagleView

Finalizo hoje o capítulo referente ao baú das memórias que nos conduziu até à década de oitenta do século passado e que focaliza fundamentalmente a personagem de José Maria Pedroto (JMP) e o seu modus operandi para ultrapassar os constrangimentos que derivavam do domínio do futebol português pelos dois clubes de Lisboa. Como já tivémos ocasião de observar, a forma como arquitectou todo um plano maquiavélico para chegar ao domínio do futebol português, assistido, continuado e desenvolvido por Pinto da Costa (PC) até aos dias de hoje, provaram a si próprio e aos seus colaboradores mais directos, que os fins tinham justificado os meios.

Continuemos então com a resenha deste homem astuto, perseverante e sem dúvida inteligente. Foi a partir da época de 1982/83 que a dupla JMP/PC começou verdadeiramente a lançar os alicerces do FC Porto moderno. JMP e o seu assistente e seguidor PC, aproveitando-se das amplas liberdades e da confusão ainda existente na época, começaram por dividir o país futebolístico, erigiram guerras sem qualquer ponta de fundamento, lançaram o ódio, a mentira e o cinismo para cima dos adeptos e de todo o quotidiano desportivo. JMP terá sido, porventura, uma das figuras de entre todas as áreas de actividade, das que mais terá contribuído para uma perspectiva divisionista na sociedade portuguesa e à sua coesão colectiva no último quarto de século, se considerarmos o impacto e a importância que o futebol tem na vida quotidiana dos portugueses. Um mal cujas consequências só o distanciamento do futuro poderá vir a determinar.

Foram esses sólidos e diversificados alicerces que têm permitido desde então que o seu discípulo PC continue a ser, estranhamente, tolerado, branqueado e mesmo incensado por uma grande parte da comunicação social imediatista, superficial e reverente para com os poderes estabelecidos, por dirigentes desportivos e agentes diversos que fazem do servilismo e do dobrar da cerviz um modo recorrente de vida, e até por uma classe política medíocre e bajuladora, capaz de o receber, ano após ano, a expensas dos nossos impostos, nos luxos da Assembleia da República para o amen da praxe, intervalado com anedotas de gosto duvidoso.

Deve dizer-se, de forma bem clara, que o objectivo de vida de JMP e de PC não foi atingido em toda a sua amplitude. Apesar dos títulos conseguidos pelo FC Porto – grande parte deles à custa das mais variadas formas de viciação, muitas delas para além das questões vindas a público no âmbito do processo Apito Dourado, a verdade é que o clube nortenho nunca foi capaz de se afirmar como referência nacional, nem cativar a simpatia, ou mesmo o simples respeito, da esmagadora maioria dos adeptos portugueses, sobretudo fora das fronteiras do seu delimitado perímetro. Nesse particular e olhando para hoje, vê-se claramente que depois de toda essa lógica de sucesso e a despeito de todo o esforço desenvolvido, o clube portista (ou pedroteano/pintista?) continua a ser um clube regional e regionalista, embora com bolsas dispersas de adeptos, alguns sem grande convicção mas que vão atrás de quem ganha...

Para isso muito contribuiu o facto de JMP e depois PC nunca conseguirem matar a alma benfiquista, nem retirar uma pevide à gigantesca massa adepta do clube encarnado, que semana a semana, em Portugal e no mundo, vibra com os jogos do Benfica. Mesmo tendo, ao longo de todo este período, ganho mais vezes, o FC Porto nunca venceu por si próprio, mas sim e sempre, contra alguma coisa. Contra o Benfica, contra Lisboa, contra o Sul, contra os Mouros, contra os fantasmas dos seus próprios complexos. Mesmo ganhando aos grandes nunca deixou de ser pequeno. Uma pequenez do tamanho do seu presidente, que transformou uma instituição outrora respeitável num antro de rancor e podridão. Nenhum clube consegue ser nacional se não ultrapassar os seus traumas e se afirmar sempre contra alguém para ganhar motivação, em vez de potenciar os seus próprios méritos e virtudes.

Não restam dúvidas que, apesar de tudo, o grande clube do povo continua a ser o Benfica, de Norte a Sul, do Minho ao Algarve, do Continente às Regiões Autonómas, e é por isso que o ódio de PC aos encarnados permanece tão vivo. JMP e o seu aprendiz e seguidor PC. O primeiro já saiu fisicamente de cena há quase 30 anos e o segundo estrebucha porque sabe que já não tem muito tempo e mesmo com todo um historial de roubos de igreja do tamanho dos Clérigos, continua a liderar um clube que luta por ter mais expressão, pois não soube evoluir, crescer e tornar-se grande, de harmonia com os títulos que a bem e a mal já conquistou. Por tudo isto, ainda que lhe reconheça argúcia e uma tenacidade incomuns, continuo a recusar-me a ver na figura de JMP alguém a quem tenha que se reconhecer mérito e valor, porque essas suas capacidades foram direccionadas para caminhos ínvios e lamacentos. Considero-o como um dos principais responsáveis e a semente de 30 anos de corrupção, ódio e guerra no futebol português.








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