Ponto Vermelho
Polémicas desnecessárias
4 de Setembro de 2014
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1. O recente derby lisboeta foi calmo e tranquilo a despeito da intensa rivalidade, do empenho e da energia desenvolvida ao longo de todo o jogo pelos jogadores das duas equipas. Os dirigentes primaram pela discrição (e nem o facto de nenhum dirigente leonino ter ido para a Tribuna Presidencial originou qualquer remoque), os jogadores souberam respeitar-se uns aos outros, os adeptos puxaram pelas suas equipas de forma correcta e assertiva e até o melhor árbitro do planeta fez muito menos asneiras do que é hábito quando apita jogos do Benfica.

2. Aparte alguns (poucos) adeptos mais expansivos que não conseguem passar um desafio (seja contra quem for) sem fazer detonar petardos que geram multas que a falida tesouraria da Liga de Clubes agradece encarecidamente, terá sido porventura um dos derbies com menos casos polémicos dos últimos anos. Nesse particular estão todos de parabéns e para que ninguém ficasse deprimido, os acasos do futebol concederam ao prélio uma decisão salomónica. A polémica, se assim se pode chamar, teve a ver com o erro de Artur e a decisão de Jesus de lhe conceder a titularidade.

3. É claro que existem sempre excepções pela negativa. O facto do então guarda-redes leonino Ricardo ter falhado um lance aproveitado pelo capitão Luisão para introduzir a bola nas suas redes e permitir assim ao Benfica conquistar o título de 2004/2005, ficou para sempre gravado no espírito de alguns fanáticos lagartos (como Eduardo Barroso) que se recusam a aceitar que o lance foi legal. Daí que neste derby quando Nani atirou a bola contra o braço esquerdo de Luisão (que mantinha prudentemente as mãos atrás das costas) tenha sido, na mente de Barroso, penalty. Será sempre assim pois já se percebeu que não conseguirá ultrapassar jamais o trauma de 2005.

4. Mas como não há bela sem senão, não foi esse facto comezinho que ensombrou o derby. Como se constatou, enquanto os adeptos sportinguistas sairam satisfeitos pois há várias épocas que não pontuavam ou marcavam qualquer golo na Luz para o campeonato, os benfiquistas sairam algo frustrados, dado que mesmo enfatizando o facto de que num derby o resultado é sempre imprevisível, a realidade é que o empate aconteceu de forma inusitada e caricata.

5. Apesar de alguns ameaços não se esperava o que aconteceu. Tal como Proença quando apita jogos dos encarnados parece ficar afectado e inibido, também Artur quando disputa jogos de maior responsabilidade demonstra fragilidade psicológica que o leva a cometer erros de palmatória que invariavelmente custam pontos à equipa. Mesmo que, como foi o caso, se tenha ressarcido no último minuto evitando a vitória leonina. Nestes casos de guarda-redes, depois de um erro daquela amplitude, por mais defesas difíceis que façam depois, ficarão para sempre marcados.

6. Na ressaca, alguns comentadores apressaram-se a considerar que a razão para a instabilidade era devido à presença de Júlio César no banco e que Jesus teria gerido mal essa questão que afectou a mente de Artur. Não concordamos de todo. Há 2 épocas, aconteceu um lance algo semelhante contra o FC Porto que Jackson Martínez aproveitou para fazer golo e nessa altura não vinha do banco qualquer ameaça à sua titularidade. Por ser recorrente é uma questão que deve ser ponderada e nesse particular espera-se que o Consultor Motivacional possa ajudar a ultrapassar o problema.

7. Este episódio rocambolesco que custou pontos ao Benfica que estava na frente do marcador e por cima no jogo, fez-nos lembrar uma situação do mesmo tipo passada com o nosso ex-guarda-redes Quim. Também aí estava em equação uma alteração na baliza encarnada mas no jogo da Eusébio Cup de 2009 contra o AC Milan, Quim defendeu nada mais nada menos do que 4 penalties e, como tal, ganhou um novo fôlego para a titularidade. Tal como nessa altura, parece não haver nenhuma dúvida de que essa questão foi decisiva e qualquer que fosse o treinador muito provavelmente tomaria a decisão de o manter na baliza.

8. Agora há, no entanto, uma nuance diferente. É que depois da saída intempestiva de Oblak o Benfica anunciou de pronto que iria contratar não um mas dois guarda-redes, o que deveria levar à saída de Artur. Contudo, as contratações foram-se arrastando, o grego Karnesis esteve quase contratado e Júlio César só o foi já com a época em andamento, pelo que o quase deixou de o ser e Artur acabou por ser repescado, tendo começado a época na baliza encarnada e sem comprometer. Antes pelo contrário.

9. Todos perceberam incluindo o próprio Artur que face ao historial e experiência de Júlio César que seria uma questão de tempo até este ser o titular e só o facto de ter chegado tardiamente o impediu de ter começado a época nessa condição. Face às prestações de Artur ao ter contribuído decisivamente para a conquista da Supertaça, de ter impedido o Paços de Ferreira de se adiantar no marcador na Luz e de não ter merecido reparos nas duas primeiras jornadas, a decisão de Jorge Jesus, fosse qual fosse, comportaria à partida, sempre um risco potencial, a menos que Artur mantivesse a bitola ou Júlio César fosse imaculado.

10. Diz-se agora, depois do facto consumado, que foi uma má decisão de Jesus que acabou por prejudicar o Benfica, para além de causar mossa psicológica em Artur. Tudo porque falhou, porque se tal não acontecesse ninguém falaria sequer do assunto. Mas observemos agora a questão por outro prisma; suponhamos que Jesus tinha optado por Júlio César e admitamos que este tinha falhado num lance capital. Que se diria? Que Jesus se tinha precipitado logo numa altura em que Artur estava em alta e moralizado. Demasiados ses não é verdade? Pois é…

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