Ponto Vermelho
A propósito de incompetência…
8 de Setembro de 2014
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Desde ontem à noite, após o desafio da Selecção em Aveiro, que todos aqueles (e são muitos) que para além de desancarem em tudo o que mexe pouco mais sabem fazer, desde os adeptos frustrados que apenas e só olham para os seus clubes, aos dirigentes do contra que ficaram de pé atrás só porque Paulo Bento não lhes fez a vontade de convocar o jogador A ou B, passando pelo verdadeiro enxame de comentadores que tudo sabem e tudo prevêem à posteriori, esforçando-se por justificar o que generosamente recebem para dizer baboseiras. Dos ditos profissionais e com excepção das excepções, tudo com dantes…

Convenhamos que a equipa nacional se pôs a jeito. Depois da paupérrima prestação em terras de Vera Cruz e no regresso às lides de mais um apuramento, esperava-se uma atitude diametralmente oposta e naturalmente uma vitória frente a uma Albânia que, excepto nos valores individuais, foi mais equipa em tudo: no querer, na raça, na determinação e na vontade, tendo no final recolhido com imensa sorte é verdade, os louros pelos atributos que não sendo muitos, foram os suficientes para levar de vencida uma débil Selecção que foi uma sombra daquilo que deve ser uma equipa de futebol.

Procurar justificações para a triste figura que fizémos que deve ter abalado o mundo do futebol nunca foi tarefa tão fácil. Sobretudo porque os problemas já por diversas vezes detectados não foram resolvidos como aliás já se tinha constatado pelas declarações tardias e inóquas do presidente federativo. E que se agravaram porque o habitual desbloqueador de dificuldades não esteve presente. Contudo, conforme já tivémos ensejo de afirmar, não comungamos exactamente da mesma visão que leva muitos observadores a considerarem que o problema básico e inultrapassável é a escassez de recursos seleccionáveis que contrabalancem a curva descendente da geração que fez da nossa Selecção uma equipa com aspirações e que a chegou a elevar no ranking da FIFA até ao 5.º posto. O que é, sem dúvida, assinalável.

São conhecidos os problemas que um País pequeno como Portugal enfrenta em todos os domínios e que chega ao futebol profissional. Mas isso não significa nem pode significar, que perante uma situação de défice estrutural evidente nos tenhamos que entregar resignados à fatalidade que o destino nos parece reservar. Se há área onde Portugal se parece renovar de forma cíclica é no futebol onde os portugueses revelam especial apetência e têm apurado o engenho conforme se tem visto pelas exportações sistemáticas de jogadores e também de treinadores onde estamos a dar cartas. E isso deveria ser um factor que deveria ser aproveitado e potenciado e não malbaratado como tem acontecido.

Portugal não foi bicampeão Mundial de Juniores apenas e só porque tinha um excepcional lote de jogadores. Sendo certo que isso foi um factor com enorme peso, tal deveu-se ao trabalho, à organização e à gestão dos recursos humanos à disposição, condições indispensáveis para se poder aspirar a vencer seja o que for. Uma situação que não foi continuada porque nos deslumbrámos com os êxitos alcançados quando isso deveria ser o ponto de partida para a consolidação dos alicerces que tinham sido implementados com sucesso. É preciso notar que sempre que uma vitória é atingida, o grau de exigência passa a ser maior dado que atraímos a atenção dos outros e passamos a ser um alvo a abater.

Sem termos aqueles valores de eleição que surgem de forma rara, temos, sempre tivémos, muito potencial jovem. Invariavelmente desaproveitado. Veja-se por exemplo quantos campeões em Riade tiveram posterior protagonismo. Não dispondo nós de recursos e capacidade financeira para ombrear num domínio cada vez mais distante de nós, uma das vias é aproveitarmos jovens com potencial que vão surgindo por aí, dado que para além dos grandes, várias equipas trabalham muito bem a componente formativa. Sabemos que não é, nunca foi, tarefa fácil. Porque os principais clubes não têm tempo para formatar jovens na equipa principal, porque os adeptos não conseguem esperar e exigem vitórias no imediato, e porque no percurso formativo quando fazem a transição para o mundo sénior, muitos jovens, sem ainda terem provado coisa nenhuma a não ser a habilidade inata, não conseguem ser humildes e esperar, sendo que as próprias equipas B já não são suficientemente motivantes…

Tudo porque desde muito cedo aderem a empresários que rapidamente os convencem a mudar de ares para daí retirarem os competentes dividendos. Exemplos não faltam. Uma equipa, seja de clube seja a Selecção, deve estar sempre em processo de renovação. Porque nenhum jogador é eterno e porque existe todo um conjunto de factores aleatórios que deve ser levado em conta para que a motivação e o permanente desejo de vencer seja perene. A Selecção, por deficiente interpretação dos sinais por parte dos responsáveis, há muito que estagnou no tempo. E isso prolongou a agonia da inevitabilidade. Uma renovação, todavia, deve obedecer a uma filosofia gradual e tem que ser implementada face a necessidades identificadas mas longe de pressões imediatas. Não foi o caso. Não se renovou mas pura e simplesmente mudaram-se algumas pedras do xadrez que longe de aproveitarem a oportunidade mostraram uma bitola nada condizente com os padrões de exigência de uma equipa nacional.

Assumimos que há muitos anos que não víamos tão grande descalabro táctico e exibicional, onde não existiu uma equipa mas apenas jogadores dispersos no campo sem chama nem motivação. E isso foi grave porque pode indiciar outras coisas. Mantemos que Portugal tem capacidade para formar uma Selecção equilibrada capaz de conseguir bons desempenhos. Não chega para ser campeão da Europa e do Mundo? É claro que não. Há dificuldades nos pontas-de-lança? É evidente que sim. Mas então que se jogue com atacantes móveis e não com jogadores a fazerem figura de corpo presente. Mau grado todos os problemas, a Selecção pode e tem de ser capaz de fazer muito melhor. Mas para isso é preciso que os responsáveis federativos eliminem de vez a incompetência. A começar no interior da Federação…




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