Ponto Vermelho
Típico e recorrente
9 de Setembro de 2014
Partilhar no Facebook

1. A algazarra mediática que se seguiu à humilhante derrota com a Albânia uma equipa da 3.ª divisão europeia, não trouxe nada de novo nem surpreendeu minimamente sabendo-se como funcionam muitas mentes iluminadas que têm sempre uma varinha mágica na mão que resolve todos os problemas mesmo aqueles que nunca têm solução. É uma questão de sempre e isso talvez justifique em grande parte a razão para que nada nem ninguém consiga alcançar a estabilização e a paz de espírito necessárias para a prossecução de um trabalho com eficácia e tranquilidade duradouras.

2. Colocar em cima da mesa, na actual conjuntura, o afastamento de Paulo Bento como solução milagrosa para a resolução de todos os problemas que afectam a Selecção seria sempre uma solução curta, na medida em que isso seria considerá-lo culpado de todos os fracassos na linha do que foi feito com uma lógica inconsequente com a anterior equipa médica da Selecção que passou para a opinião pública como a culpada dos erros de todos. Quando os males existem e estão identificados devem ser procuradas soluções para os tentar minorar e resolver, e não empurrá-los com a barriga para a frente, porque é dos livros que mais tarde ou mais cedo eles reaparecem com muito maior dimensão…

3. Quando a actual Direcção federativa convidou Paulo Bento para seleccionador certamente que o mesmo obedeceu à definição de um perfil considerado o mais adequado ao preenchimento do cargo. Bento não tem agora mais ou menos virtudes ou defeitos dos que tinha quando assumiu o cargo, sendo que as suas principais características são conhecidas. Logo, tudo isso terá sido ponderado pelos responsáveis federativos e a partir do momento em que foi escolhido e nomeado, terá sido porque foi considerado como o mais ajustado para o lugar. E, aparte a opinião que cada um de nós tem sobre a sua competência e personalidade, seria nosso dever já não dizemos apoiar entusiasticamente, mas pelo menos não fazer oposição declarada porque isso em nada contribuiria para o fim em vista – bons desempenhos da Selecção.

4. Sabendo-se como os treinadores de futebol até mesmo as vacas sagradas estão sempre em contínua avaliação e altamente dependentes dos resultados obtidos, não fez por isso grande sentido e revelou precipitação a renovação do contrato de Paulo Bento nas vésperas da partida para o Mundial do Brasil. Mesmo antes de se poder sequer imaginar quão desastrosa viria a ser a nossa participação, não tanto nos resultados mas no descalabro exibicional e na péssima imagem transmitida. Que se seguiu, convém recordar, a um apuramento sofrido com derrotas comprometedoras perante adversários de fraca qualidade. Valeu em mais um play-off, para variar, ter emergido a classe e a eficácia do nosso melhor jogador para salvar a honra do convento ameaçado.

5. Numa conclusão quiçá apressada em face das conclusões de Fernando Gomes, poderíamos especular que no desastre brasileiro as culpas foram unicamente do corpo médico, atendendo a que Bento até foi promovido e viu reforçada a sua influência, sinónimo de que Gomes nele confia e espera que leve a sua tarefa a bom destino. Novo e aparente tiro no pé porque a expectativa aumentou e depois do dilúvio era aguardada com lógica a bonança tendo em conta três aspectos que se revelavam desde logo favoráveis: – a premente necessidade de desfazer a má imagem deixada no Mundial, os caprichos bem favoráveis de um sorteio que fazia antever um amplo leque de possibilidades de apuramento e, por último, como se os deuses se tivessem conluiado para nos beneficiar, a chance de iniciar a fase de apuramento em casa com uma equipa que ocupava o 70.º lugar no ranking FIFA.

6. Sabe-se o que aconteceu. Todos os dados previsíveis da conjuntura falharam e o resultado não poderia ter sido pior. Contudo, Paulo Bento não passou a ser de repente o catalisador das desgraças que impendem sobre a Selecção, independentemente das culpas que não deixará certamente de ter. Todavia, é por demais evidente que com ou sem renovação, com mais ou menos erros individuais, com maior ou menor classe e mesmo sem Cristiano Ronaldo, os jogadores que estiveram em campo deveriam ter feito muito mais e melhor porque é inadmissível que salvo raríssimas excepções, a imagem transmitida tenha sido a de uma pobreza franciscana.

7. E não foi por não ter jogado o ou o António como logo afiançaram alguns, que mudaria o péssimo estado de coisas. A questão, vista do exterior, afigura-se muito mais vasta e complexa e não se extingue no seleccionador ou nos jogadores. Sem desencadear uma caça às bruxas, torna-se necessário cavar mais fundo e inventariar e extirpar os males que continuam a afligir uma Selecção aparentemente desmotivada. Mesmo com a falta constatada e reconhecida de jogadores de eleição. Porque, é inegável, teremos sempre bons jogadores para formar uma equipa que não estando no topo da Europa e do Mundo, pode e deve fazer sempre boa figura!






Bookmark and Share