Ponto Vermelho
Uma 'morte' anunciada
12 de Setembro de 2014
Partilhar no Facebook

Os indícios continuavam a acumular-se e perfilava-se no horizonte a inevitável possibilidade de um divórcio rápido. Paulo Bento, a exemplo do que lhe tinha sucedido no Sporting, foi criando muitos e perigosos anti-corpos que encontram no silêncio dos bastidores o estádio ideal para desenvolverem as suas teorias conspirativas sempre que alguém, seja quem for, tenha a coragem de os afrontar e dizer não. A partir daí, o séquito de yes-men que os acompanha começa a desenvolver acções de desgaste que, mais tarde ou mais cedo, começam a dar frutos. Sobretudo, quando as pessoas ficam isoladas sem poder contar com a solidariedade de quem devia defendê-las.

Dir-se-á que foi a anterior Direcção federativa que escolheu o mais recente ex-seleccionador. É verdade! Mas não foi a actual que lhe renovou antes da partida para o Mundial a destempo e de forma precipitada, o contrato até 2016? Na altura, não ouvimos dizer da boca do seu Presidente que Paulo Bento era um dos melhores treinadores do Mundo? Não terá sido a mesma Direcção que depois do descalabro brasileiro levou mais de 2 meses até concluir que a incompetência era… do corpo médico, e ainda atribuiu funções mais abrangentes ao Seleccionador? Em que ficamos afinal?

À boa maneira da desresponsabilização que é nosso apanágio, nestas como noutras situações mais ou menos semelhantes importa sempre encontrar um bode expiatório para que todos os outros responsáveis possam sair da chuva diluviana apenas molhados com uns pingos ligeiros. Custa a crer que numa organização como a FPF supostamente profissionalizada a todos os níveis e que engloba pessoas com profundos conhecimentos de futebol, de selecções e de Campeonatos Europeus e Mundiais, as razões para um fracasso indiscutível sejam atribuíveis unicamente aos médicos e, agora, ao Seleccionador.

Numa organização estabelecida em pirâmide e solidária, todos devem recolher os louros nos momentos dos êxitos e todos de igual modo devem ser responsabilizados quando os fracassos batem à porta. Obviamente de acordo com o nível e padrão de responsabilidades de cada um. A grande lição que se extrai e que infelizmente não constitui a mínima surpresa para ninguém, é que a equipa não se comportou enquanto tal, mas apenas pela soma de elementos dispersos em que a palavra solidariedade na hora do infortúnio foi banida para dar lugar ao salve-se quem… tiver mais possibilidades de o fazer.

Depois dos peditórios e abaixo assinados primeiro com Quaresma e depois com Adrien terem esbarrado na intransigência do Seleccionador que se manteve fiel às suas ideias, depois da troca pública de palavras com o principal rosto do Sistema há muito habituado a que lhe prestem vassalagem e não o questionem quando se trata de defender interesses pessoais e do seu clube, estava-se mesmo a ver que Paulo Bento teria os dias contados a breve trecho se porventura as coisas não começassem a inverter o rumo de acentuado declive em que se encontravam. Tal não aconteceu e a derrota com a Albânia apenas veio antecipar uma situação que se afigurava como inevitável.

Não ignoramos e muito menos desvalorizamos os erros cometidos por Paulo Bento ao longo do percurso. Alguns conflitos com jogadores de selecção poderiam ter sido resolvidos com a intermediação da Federação e sem que tivesse que haver vencedores e vencidos, tendo em conta que o campo de recrutamento se tem estreitado e todos não são demais para dar o seu contributo à luz do interesse da Selecção. Sendo que as opções tomadas por qualquer Seleccionador são sempre discutíveis dada a forte incidência clubística que prevalece em Portugal, ainda assim a rigidez das escolhas foi, para muita gente, uma teimosia e uma obstinação que, sendo legítimas, só seriam aceitáveis se porventura os resultados fossem a condizer. E não o foram. Ao contrário do Euro’12 onde não ouvimos os contestatários.

Segue-se um novo ciclo. Para além de um novo Seleccionador e da lamúria sobre a inexistência de valores condizentes com os padrões de exigência da Selecção, importa antes de tudo olhar para o futuro. É indispensável que toda a estrutura da FPF reflicta, planeie, conclua, reestruture, organize, defina a construção de alicerces sólidos, estabelecendo objectivos coerentes e exequíveis. Dado que os clubes estão a trabalhar bem nos escalões formativos (o mesmo não poderemos dizer do seu aproveitamento), a FPF deverá começar por aí estabelecendo pontes duradouras com os clubes, acompanhando e introduzindo legislação que longe de fechar a porta aos estrangeiros, imponha limites que permitam maior utilização de jogadores portugueses. É preciso arquitectar um edifício global e multi-funções que sirva os interesses de todas partes envolvidas e contribua para o progresso sustentado do nosso futebol. Se tal não vier a acontecer rapidamente, correremos o risco sério de uma longa travessia no deserto. Como no passado!






Bookmark and Share