Ponto Vermelho
Personagens interessantes-I
14 de Setembro de 2014
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Por EagleView

Vítima de doença prolongada, morreu aos 81 anos António Garrido um ex-árbitro com uma carreira internacional recheada de êxitos e por isso de grande relevância para a arbitragem lusa. Com especial apetência para a profissão, Garrido terá ocupado, porventura, o lugar mais destacado de sempre no pódio da arbitragem portuguesa. É certo que na sua época os lances não eram tão intensamente escrutinados como o são agora pelas televisões, mas seja como tenha sido, ninguém lhe pode retirar o grande mérito de ter brilhado intensamente na sua profissão. Nem o facto de na declaração de princípios quando aderiu à arbitragem se ter declarado sportinguista o prejudicou, e a prova disso é que, por exemplo, no final da década de 70 foi escolhido por sugestão dos dois clubes para apitar um decisivo FC Porto-Sporting que acabaria por terminar empatado . Neste momento em que deixou o mundo dos vivos, paz à sua alma.

Mas quem foi, afinal, António Garrido? Começou por ter a honra e o mérito de ter sido o primeiro árbitro português escolhido para apitar a fase final de um Campeonato do Mundo (Argentina 78). Esteve também no Europeu de 80 (Itália) e no Europeu de 82 (Espanha). Para contrabalançar, um pequeno desvio em termos internos; a 1 de Abril (que coincidência!) de 1973, quando faltavam disputar escassos 6 minutos para o final do clássico FC Porto-Benfica nas Antas com o resultado em 1-2 a favor dos encarnados, inventou uma grande penalidade após simulação do portista Flávio na área das águias. O jogo acabaria por terminar empatado e o Benfica ficou assim impedido de conquistar o campeonato 100% vitorioso (levava 23 vitórias em igual número de jornadas.

Após ter deixado o activo continuou ligado ao mundo da arbitragem ao mais alto nível. Desempenhou funções de instructor de cursos na UEFA ao longo de mais de duas décadas e foi igualmente observador de árbitros. Em 1982 (certamente por sugestão de JM Pedroto e coincindindo com a ascensão de Pinto da Costa), foi recrutado estrategicamente pelo FC Porto que passou então a ser um dos raros clubes do mundo a integrar um ex-árbitro na sua estrutura. Evidentemente por uma questão de conhecimento e transparência... Essa situação despoletou de pronto a seguinte questão: Quais seriam as funções do ex-árbitro Garrido na estrutura do FC Porto? Seriam restrictas ou abrangentes? Ao longo dos anos, para além dos rumores, fomos tendo acesso a alguma informação (pouca) reveladora que Garrido era o verdadeiro homem-sombra, pois mal terminou a carreira e foi contratado pelos azuis e brancos, pouco se ouviu falar dele.

Mas essa sua discrição não impediu que se começasse a conhecer o seu lado controverso. Talvez influenciado pelo desejo de agradar à estrutura de sonho que caminhava então para o auge das suas potencialidades e domínio, Garrido provou pela primeira vez ao Mundo, que todos aqueles que dizem que se pode mudar de tudo menos de clube estavam redondamente enganados, pois acabaria por tornar-se adepto fervoroso dos azuis e brancos. Por essa altura, face aos roubos de igreja usando a velha expressão pedroteana a favorecer descaradamente os portistas em detrimento dos dois clubes de Lisboa especialmente o Benfica, começaram a circular amiúde estórias nos bastidores que o colocavam no epicentro da corrupção na arbitragem reconhecida que era a sua influência no sector.

Que vieram a ser confirmadas no âmbito do processo "Apito Dourado". Garrido andou também nas bocas do mundo por ter sido nomeado pela Federação a pedido do FC Porto para acompanhar os árbitros do FC Porto-Villarreal. Até então apenas as conquistas nacionais tinham sido postas em causa publicamente com aquele processo. Agora também as internacionais começariam a ser alvo de suspeitas. Foi uma das pessoas que jantou com o árbitro do FC Porto-Villarreal. E foi igualmente uma das pessoas que esteve presente quando Jacinto Paixão, um dos árbitros da fruta, foi coagido por elementos ligados ao FC Porto na mesma marisqueira de Matosinhos. Foi apanhado nas escutas do "Apito Dourado" a falar com Valentim Loureiro e Pinto de Sousa e foi identificado pela PJ, no âmbito do mesmo processo, como contacto preferencial dos portistas para exercer pressão junto do órgão que procedia à nomeação dos árbitros. (…)










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