Ponto Vermelho
Necessidade constante de inventar 'génios'…
15 de Setembro de 2014
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A constante procura de notícias que atraiam a atenção das pessoas e dos amantes do desporto e do futebol se quisermos particularizar, leva a que os media empolem e especulem temas e episódios que vão acontecendo para gáudio dos adeptos e de todos aqueles que rejubilam com factos e situações que sendo raríssimas, causam por isso mesmo algum furor pelo teor e destaque da notícia em si. O ser humano sente a necessidade regular de encontrar referências inspiradoras muitas vezes antes de haver justificação plausível, ou então numa primeira e única vez, ter acontecido um dia, uma tarde ou uma noite, momentos de rara inspiração que eternizaram os protagonistas.

Na década de 70, por exemplo, houve um jogador que militou nos quadros do FC Porto chamado António Lemos. Era um jogador sem grande registo, considerado mediano e que jogava na posição de avançado onde nunca se destacou sobremaneira na função para que estava destinado – a marcação de golos. De acordo com os registos que ficaram para a história do futebol, Lemos disputou 10 clássicos dos quais apenas e só logrou levar um de vencida mas que certamente nunca mais esquecerá, tendo compensado largamente todos os restantes 9 que não logrou vencer.

Com efeito, na tarde do último dia do primeiro mês de 1971, muito antes da rivalidade doentia que passou a existir a partir da década de oitenta com a chegada da dupla JM Pedroto-JN Pinto da Costa, realizou-se nas antigas Antas um FC Porto-Benfica, que se tornou memorável para Lemos, pois conseguiu um póquer de golos contra os encarnados. Na altura, como será fácil de imaginar, Lemos foi elevado aos píncaros da fama e da glória. Foi um momento pessoal marcante e excepcional, não tardando que o jogador que não voltou a sobressair, fosse decaindo até ao limite último do esquecimento. Foi herói por uma tarde.

Sem forçar qualquer tipo de comparações, veio-nos essa questão à memória, conjugando o sucedido com o jogador Talisca ao assinar, pela primeira vez, um hat-trick na sua ainda curta carreira breves meses depois de ter chegado a Portugal e ao Benfica. Como agora está muito em voga, fala-se nas chamadas posições 6, 8, 9,5 etc, questão que Jorge Jesus também gosta de abordar publicamente nas suas conferências de imprensa. Essa vertente tem vindo a ser escalpelizada pelos jornalistas, comentadores e adeptos, sendo que está na berra discutir qual a melhor posição para Talisca. Isto há poucas semanas, porque antes era considerado como mais um flop por todos aqueles que mal vêem jogar um atleta logo dão o seu veredicto definitivo sem direito ao contraditório.

É obviamente muito cedo e precipitado para assumir posições peremptórias. Seja no capítulo das dúvidas que existem sobre a sua evolução e possível sucesso, seja na potencial venda por muitos milhões antecipada por Jorge Jesus que (mesmo respeitando o seu olho clínico) se nos afigura a destempo para um jovem de 20 anos a enfrentar uma realidade diferente, que necessita antes do mais de paz e de tranquilidade e não de pressão acrescida motivada por elogios porventura merecidos mas temporões, que deveriam ser mais comedidos para evitar a exposição prematura do jovem jogador.

Setúbal deu início a um novo capítulo mais exigente e por isso mesmo a requerer alguma protecção e sobretudo prudência. Talisca, do nosso ponto de vista, tem vindo a dar indicações consistentes de grande margem de progressão. Mas, neste momento, não passa disso; é muito jovem, chegou há pouco tempo a um futebol em tudo diferente, necessita de adquirir maior consistência física para poder resistir ao choque e ao desgaste que são constantes do futebol europeu, em suma, ainda lhe falta percorrer um longo caminho, isto partindo do princípio que a sua evolução se processa a um ritmo crescente e não é atraiçoada por um daqueles imprevistos tão férteis no futebol.

Ter atingido rapidamente a titularidade mesmo beneficiando de uma conjuntura favorável, é um crédito que tem que lhe ser firmado. Mas com a manutenção de Enzo Pérez na pior das hipóteses até Janeiro (embora as suas características não coincidam), a entrada de Samaris e a chegada de Jonas um avançado móvel e com muito mais tarimba no futebol (especialmente o europeu), ver-se-á como será a sua evolução no futuro. Para já é demasiado cedo para opiniões definitivas, embora se notem imensas potencialidades no jogador complementadas com uma postura humilde e uma personalidade que parece ser sólida e forte.

Bem sabemos que não é todos os dias que um jogador marca três golos ainda por cima num jogo fora. Só isso seria motivo suficiente para destaque, mas isso já foi ontem e a felicidade de um dia nem sempre volta a acontecer. As provas são constantes e já amanhã configura-se um teste de enorme dificuldade porque estamos a falar da Champions perante uma equipa que alberga uma constelação de estrelas e que vai exigir o máximo de todos os jogadores. Será a primeira grande oportunidade para Talisca demonstrar que as potencialidades que tem revelado e os elogios de que tem sido alvo se justificam e são merecidos. Mas deve ser o primeiro a perceber que quando as coisas correm bem logo surgem multidões a aplaudir, enquanto que quando falhar se transformam nos seus piores adversários. Concedamos pois tempo ao tempo que nem sempre há, permitindo que Talisca esgote etapas sem precipitações.




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