Ponto Vermelho
Egos
18 de Setembro de 2014
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Por Bolandas

1. Os últimos anos de Luis Felipe Scolari faziam antever uma revolução inevitável na Selecção, anunciavam dificuldades nas convocatórias e levantavam preocupações quanto ao êxito a curto prazo - fundamental para o equilíbrio das contas federativas. Ciclicamente selecções e equipas passam por processos e estádios semelhantes, seja pelo efeito imensurável do tempo no primeiro caso, ou em função do sucesso que conduz a apetites vorazes dos mais endinheirados, no segundo.

2. Na linha do que a nossa Comunicação Social nos vem habituando, discutindo superficialidades como a semântica em torno da «incompetência» quando ao fim ao cabo nunca houve coragem para dizer quem era Fernando Gomes e como chegou a presidente da Liga - interesses a quanto obrigam… -, subentendido ficava que a culpa do naufrágio no Brasil havia morrido, mais uma vez, solteira. Dos médicos à falta de qualidade dos seleccionados, da baixa de forma de jogadores aos equívocos de Paulo Bento, com as suas saídas apenas o tempo dirá se o novo escolhido conseguirá alcançar os objectivos propostos e o futuro será risonho.

3. Discutindo-se eventuais deméritos de, primeiro Scolari e por último Paulo Bento, em torno da revolução pós-'Geração de Ouro', antes de se discutir a falta de aposta dos clubes portugueses no jogador nacional - quantos jogadores da selecção teriam lugar no onze de Jorge Jesus, e desses, quantos realisticamente poderiam encaixar nos tectos salariais praticados por cá? - seria porventura conveniente olhar para os valores emergentes na selecção de sub-21, em que apesar da ausência de astros e individualidades com egos desmedidos, se consegue jogar encarando olhos nos olhos qualquer equipa.

4. Esforçam-se muitas famílias sabe-se lá com que interesses, por atribuir aos médicos responsabilidades pelo fraco rendimento de A, B ou C, ou nas convocatórias do seleccionador pelo fraco rendimento colectivo - ambos já arredados - questões de somenos como o planeamento que estiveram a cargo de dirigentes federativos principescamente pagos, continuarão a pairar, desde e até que a selecção continue a deixar uma pálida imagem dentro das quatro linhas. Que diga-se, contou com a presença do astro português Cristiano Ronaldo - melhor jogador do mundo e figura máxima de cartaz no Brasil - que lá nos colocou e ajudou a suprir dificuldades colectivas numa primeira fase, mas mais uma vez se eclipsou apesar das eternas promessas de que desta era de vez.

5. No diapasão do que sempre foi dito e escrito, e admita-se que CR ufrui de benesses que por exemplo Messi não tem ao serviço da alviceleste na qual por norma acarreta com todas as responsabilidades, sucederam-se justificações em torno da sua débil condição física, pagaram a fava os médicos, e não se hesitou em apupar a fraca qualidade dos restantes convocados, com a anuência do próprio capitão das Quinas, que não hesitou em sacudir a água do capote.

6. Para melhor compreensão, citemos, um extracto do que está escrito na autobiografia do defesa do Man United, Rio Fernando: «Quando jogámos frente ao Benfica, em Lisboa, ele [Ronaldo] pensou que tinha de provar aos compatriotas porque é que o United o tinha contratado. O jogo tornou-se no show Ronaldo, ele queria mostrar as suas habilidades, mas sem sucesso. Perdemos e foi arrasado pelo treinador: - Mas quem é que pensas que és? (…) Ferguson foi corajoso ao fazer isso. Ele sabia que, naquela altura, o Ronaldo era a chave para a equipa ganhar tudo. Muitos treinadores teriam tido medo de o enfrentar, mas Ferguson enfrentava quem quer que fosse».

7. Nesse contexto, um dos grandes desafios do novo seleccionador será porventura encaixar Cristiano Ronaldo, cujo narcisismo é inequivocamente contraproducente para os interesses nacionais e invariavelmente pouco confrontado. Uma tarefa que não deve ser somente incumbida ao novo técnico, isto porque, ao fim ao cabo, o facto de qualquer recém-chegado ter de dizer publicamente por decreto que CR é o melhor jogador do mundo enquando outros se repetem até à nossa e sua própria exaustão, parte de terceiros. E isso, para além de revelar sintomas de menoridade intelectual e características de yes-men tão ao gosto Tuga, é contraditório com os macro-objectivos que se pretendem alcançar, para além de serem prejudiciais ao próprio jogador. Não é por se estar constantemente a repetir o mesmo refrão que se altera seja o que for…






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