Ponto Vermelho
Excessos de vulgaridade…
19 de Setembro de 2014
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Por norma nunca fomos atingidos pelos excessos de nacionalismo ao ponto de não saber reconhecer virtudes e defeitos em portugueses que nas mais distintas profissões se têm destacado e continuam a sobressair em Portugal e no estrangeiro. É evidente que face aos parcos recursos e às limitações do País a que está por vezes aliada uma mentalidade de aldeia em todos os extractos sociais, obriga a que muitos sejam forçados a demandar outras paragens para satisfação das suas necessidades básicas, em particular os mais capazes para poderem explanar as suas potencialidades. É assim que encontramos cada vez com maior frequência portugueses de todas as profissões e em todos os países a darem cartas e a prestigiarem-se a si próprios e ao país que os viu nascer.

O futebol não podia por isso fugir a essa regra e são cada vez mais os protagonistas que têm alcançado o sucesso e visto reconhecido o mérito além-fronteiras. Sendo que a designação de ”Melhor” poderá em si mesma ser controversa, a realidade é que no nosso bornal já ostentamos o Troféu máximo Mundial de Melhor Jogador, Melhor Treinador e Melhor Empresário, com a particularidade de todos serem contemporâneos. Um verdadeiro luxo para este pequeno e pobre país periférico! E, a título de exemplo, a actual Fase de Grupos da Champions presentemente a decorrer, só no Grupo C (o do Benfica), estão presentes nada mais nada menos do que 75% de treinadores lusos, a que acresce no Grupo G (o do Sporting), 50% considerando o mais laureado de todos – José Mourinho.

Existindo uma forte componente clubística associada por vezes a roçar o fanatismo exacerbado que praticamente nunca aprecia com a clareza, isenção e o distanciamento indispensáveis à formulação de análises mais rigorosas e equilibradas, é ainda assim interessante observar a forma como são vistos os nossos “Mais”. Tentando pôr de lado aqueles que só o simples sucesso dos outros os incomoda e os deixa impacientes, temos que qualquer deles, por serem figuras públicas cuja aparição diária nos media é uma constante, são motivo de elogios mas também de críticas pelas mais diversas razões. Até mesmo quando não existe motivo, dado que a inveja sempre foi má conselheira e o desejo de protagonismo (nem que seja a nível de café...) são expoentes do pensamento de muitos.

Com personalidades muito distintas, o seu comportamento público como é normal está longe de recolher consensos, sendo que Jorge Mendes sempre adoptou uma postura low-profile muito própria do que deve ser um homem de negócios de milhões, e Cristiano Ronaldo e José Mourinho apesar do sucesso que os tem acompanhado ao longo da carreira sempre necessitaram de contínuas tiradas de auto-afirmação o que os tem tornado polémicos e mais expostos ao constante e voraz apetite da comunicação social em todo o Mundo. Em ambos os casos parecem estar a dar-se bem, particularmente Mourinho sempre à procura de uma boa polémica por todos os países por onde tem passado.

Não somos nem nunca fomos adeptos fervorosos do estilo do seu futebol, nem do seu estilo truculento que acontece devido à personalidade forte e controversa, e porque tem conseguido provar ao mundo do futebol que é possível ter êxito praticamente em todos os clubes dos vários países por onde tem passado o que lhe transmite outra legitimidade. Isso tem-lhe permitido exceder-se com frequência criando polémicas com companheiros de profissão e demais agentes, sem que daí tenham resultados danos irreversíveis para a sua pessoa enquanto profissional de futebol. A forma agreste que faz lembrar a escola das Antas em todo o seu esplendor, inibe e circunscreve os profissionais da comunicação social que, salvo excepções, mantêm sempre algum retraimento e reserva na altura de o questionar ou criticar.

Como voz autorizada na matéria, é frequente ser questionado sobre aspectos do futebol português. É chamado a pronunciar-se sobre o campeonato, sobre jogadores, treinadores e até a dar palpites sobre quem deverá ser o próximo seleccionador, questões a que nunca se fez rogado. O hat trick de Talisca ao principal clube da sua terra natal foi por isso tema obrigatório, avançando Mourinho que vários clubes da Premier League o andavam a seguir, embora confrontados com o obstáculo intransponível de não ter estatuto de internacional. As suas referências seriam por isso tema obrigatório nas questões a colocar a Jorge Jesus, que numa das suas frequentes respostas à Amadora citou uma personagem de um romance de Alexandre Dumas como sinónimo de um desconhecimento que entendia que os clubes ingleses tinham do jogador.

Até porque, sabendo-se do seu poderio financeiro, se o conhecimento fosse assim tão vasto o jogador poderia desde logo ser adquirido e colocado a rodar num outro clube europeu o que como sabemos não aconteceu. Mas vamos até admitir alguma veracidade nisso. As palavras de Jesus, sabendo-se a sua forma de ser e de estar, foram de algum modo ofensivas para a dignidade e para o ego supremo de José Mourinho? Não. E se assim foi o que levou o treinador do Chelsea a invadir a esfera pessoal e a escarnecer de Jesus como aliás já tinha feito com Jaime Pacheco com a estória dos neurónios? Mourinho pode ter toda a razão do Mundo que não lhe assiste o direito de atingir as raias da ordinarice e da vulgaridade que parecem de alguma forma e cada vez mais ser a sua imagem de marca. Sugerimos-lhe que siga o exemplo de um tal Mourinho Félix antigo guarda-redes do Vitória de Setúbal…






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