Ponto Vermelho
Personagens interessantes-V
24 de Setembro de 2014
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Por EagleView

Com a publicação do último extracto da entrevista que o ex-árbitro António Garrido concedeu em 2012 ao "Jornal de Leiria"” e agora reeditada, estou convicto que todos ficámos melhor a perceber a personalidade e a forma de estar de um dos árbitros que marcaram a sua geração. Para além do que ficou expresso na entrevista, em anteriores artigos transmitimos um conjunto de retratos que ajudam a perceber quem foi e o que foi António Garrido. Cada um fará o seu juízo. Concluamos então:

Acha que a televisão complica muito o trabalho dos árbitros?
Antigamente havia televisão, mas muito menos câmaras. Agora vão analisar com minúcia o eventual erro do árbitro através dos vários ângulos disponíveis. Vê-se de um lado, de outro e só ao sétimo ou oitavo é que se consegue perceber se acertou, se errou. Como à comunicação social interessam sobretudo os erros, vão especular sobre o que esteve mal. Penso, por isso, que a televisão prejudica mais do que beneficia.

Concordaria se se utilizassem as novas tecnologias para auxiliar o trabalho do árbitro, de resto como se vê no basquetebol?
Sou contra. Apenas admitia o chip na bola para saber se entrou na baliza. Tudo que seja além disso é acabar com a modalidade, porque o futebol também vive dos erros dos árbitros. Imagine que paramos o jogo para ir ver as imagens. E depois, se não for grande penalidade, como reatamos a partida? Considero que está bem como está, as leis beneficiam o espectáculo.

Os árbitros estão a sofrer as maiores críticas de sempre?
Hoje o futebol é uma indústria que envolve milhões e milhões e normalmente as críticas negativas acabam por cair na pessoa mais indefesa. Os clubes não vão acusar os próprios jogadores e normalmente quando se perde é porque o árbitro errou. As críticas até podem ser justas, mas são empoladas.

Aqueles programas de debate também não ajudam nada...
Também vejo esses programas e quando são à mesma hora até os gravo. Por vezes debatem problemas de arbitragem que não estão abalizados para o poder fazer.

Concorda com o facto das nomeações terem passado a ser secretas?
Não. Não é por terem sido tornadas secretas que se vai dar mais garantias ou haver maior suspeição. O árbitro deve ser nomeado com antecedência, toda a gente deve saber quem é, acima de tudo não deve haver críticas dos dirigentes e treinadores antes dos jogos. Acredito que seja uma situação pontual, depois de todos estes problemas, mas para haver confiança deve ser tornada pública.

Os árbitros fizeram bem em faltar àquele jogo do Sporting devido às críticas?
Na minha altura também houve greves, mas era por outros motivos. Eu nunca faltaria a um jogo para ir contra um clube.

Há corrupção na arbitragem?
Até ser provada não existe.

Dados biográficos referidos pelo jornalista:
O homem do diálogo: António Garrido completa em Dezembro 80 anos e 30 que deixou a arbitragem. Nasceu em Vieira de Leiria e aos 12 anos mudou-se para a Marinha Grande. Detestava árbitros, mas acabou por ser o melhor deles. Começou como fiscal-de-linha num Peniche-Caldas de juvenis em 1964 e a estreia como árbitro foi num "Os Nazarenos"-Mirense no mesmo ano. Em quatro anos chegou ao topo da arbitragem portuguesa, mais três anos e chegou a internacional. "Foi uma carreira brilhante. Momentos bons foram incalculáveis, mas tenho de destacar as duas presenças nos Campeonatos do Mundo, em 1978 e 1982, o Europeu de 1980 e, para mim, um dos momentos altos foi a final da Taça dos Campeões Europeus de 1980, entre o Nottingham Forest e o Hamburgo", diz com indisfarçável orgulho. Também arbitrou uma Supertaça Europeia em 1977, entre o Liverpool e o Hamburgo. Cumpriu o sonho de dirigir uma partida em Wembley, a final do campeonato britânico entre a Inglaterra e a Escócia. "Como um tenor sonha cantar no Scala de Milão, eu sonhava arbitrar em Wembley e consegui-o. "Contabilista de profissão, procurava ter o jogador na mão." Às vezes dizia a um, que estava a perder, que faltavam três minutos e ainda tinha hipótese de marcar, e depois dizia ao adversário que faltavam três minutos e que tinha de aguentar. Sabia viver dentro do campo. Tinha grandes condições como árbitro, mas também como homem de diálogo."
















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