Ponto Vermelho
É mesmo para valer?
25 de Setembro de 2014
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É tema incontornável do momento a nomeação de Fernando Santos para novo Seleccionador Nacional. Mas porque o presente e o futuro também se fazem do passado, importa debitar algumas considerações que levaram à sua nomeação. De uma forma geral, os Seleccionadores são substituídos devido aos maus resultados e a apuramentos falhados, sendo essa a regra decisiva que dita a lei nas substituições. Há sempre um timing na cabeça de cada um, competindo aos responsáveis federativos por deterem maior armazenamento de dados definir aquele que se configura como o mais exacto, oportuno e apropriado. Os dados apontam para que neste caso tenham falhado.

Fernando Gomes, já se percebeu, é um homem que desespera por consensos para se proteger. Não gerados e construídos, mas de retaguarda que atendem ao clamor da multidão e à tendência da moda para correr os menores riscos possíveis. Causou apesar de tudo alguma estranheza, o facto de ter sido renovado contrato com um dos melhores treinadores do Mundo para usarmos palavras do próprio presidente federativo, nas vésperas de um Mundial quando seria mais prudente e avisado aguardar pelo desenrolar da prova. Até porque o apuramento tinha sido suado e só a categoria-extra e a inspiração de Cristiano Ronaldo nos puseram em Terras de Vera Cruz.

As pessoas devem ser avaliadas por tudo o que realizaram e não apenas por aquilo que fizeram de menos bom, um dado objectivo e interesseiro para justificar afastamentos. Infelizmente, para justificar a nova opção, só o que de mal aconteceu foi enfatizado. Foram por isso esquecidos por completo os quatro anos que Paulo Bento passou à frente da Selecção e em particular a herança que recebeu, para além do magnífico comportamento que o Seleccionado português conseguiu no Campeonato da Europa de 2012. Tinha defeitos? Tinha! Teve decisões erradas? Teve! Foi demasiado teimoso e pouco flexível perante situações que requeriam outra análise e ponderação? Foi!

A sua seriedade, a sua intransigibilidade e a recusa em pactuar com os habituais lóbis instalados que estão habituados a mandar na Selecção, foram factores que terão que ser realçados por demonstrarem que estávamos na presença de um homem de espinha direita, um bem cada vez mais raro nesta sociedade de yes-men. Estava por isso condenado a partir do momento em que os bons resultados começassem a escassear, dado que os fruteiros desta terra valendo-se da fila ininterrupta de homenzinhos de cócoras de mão estendida à procura das migalhas, não costumam perdoar e desaproveitar as ocasiões que se lhe deparam em que a vítima apresenta sintomas de maior vulnerabilidade. A saída de Paulo Bento poderia por isso ter sido processada com maior transparência e não ficar a sensação que Fernando Gomes, mais uma vez, cedeu a pressões e a interesses internos e externos.

Chegados a esta situação irreversível, haveria que procurar uma pessoa que reunisse consensos e à partida não gerasse anti-corpos nos habituais agitadores do nosso futebol. Fernando Santos, sem sombra de dúvida, entronca fielmente nesse perfil e o seu passado recomenda-o para o cargo. Todavia, as dificuldades que a Selecção Nacional tem encontrado não desaparecem como que por milagre qualquer que seja o Seleccionador. Os males são mais profundos e não se circunscrevem à personalidade que ocupa o cargo ou ao tão badalado escasso campo de recrutamento. É preciso perceber como chegámos até aqui e não concentrarmos todas as explicações nesses campos. Que sendo uma realidade incontroversa não é tão profunda e determinante como muitos nos querem fazer crer.

O futebol português precisa urgentemente de ser repensado. Sobretudo em termos organizativos, para que se torne mais competitivo e com um maior aproveitamento. Temos jogadores veteranos que emprestam saber e experiência, temos uma formação a trabalhar em pleno, temos jovens talentos que se bem direccionados e acompanhados poderão explodir a curto/médio prazo, temos excelentes treinadores para potenciar toda essa simbiose teórica, mas que continua a funcionar de forma desgarrada e inconsequente. Cabe a todos e em particular à Federação dinamizar e congregar os esforços de todos para que o sucesso (mesmo com os imponderáveis do futebol) possa ser e forma definitiva e duradoura - estrutural.

Para isso há que trabalhar intensamente na organização reconstruíndo um edifício futebolístico com alicerces sólidos para que as sucessivas polémicas que vão surgindo para entretenimento da populaça deixem de acontecer com tanta frequência e sem justificações plausíveis. A actual estrutura está obsoleta e não resolve coisa nenhuma. O modelo e estrutura das I e II Liga estão inflacionados para o nível do nosso futebol, e há que introduzir, gradualmente, medidas tendentes a potenciar os jovens valores emergentes. As decisões e a coerência dos órgãos juridiscionais deverão ser agilizadas para que a credibilidade se torne mais efectiva, e o Sector da Arbitragem sempre em permanente agitação deve igualmente obedecer a mudanças por forma a esbater as constantes suspeições que imperam sobre os juízes de campo. Sem mudanças significativas em todos esses domínios, nem o mais laureado seleccionador do Mundo conseguiria sucesso. Esperamos pois, que apesar desse forte handicap, Fernando Santos possa contribuir para as melhorias possíveis e consiga o que se espera, tendo sempre presente que suas vitórias serão as nossas vitórias!






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