Ponto Vermelho
Factos & protagonistas
26 de Setembro de 2014
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1. A tarde invernosa do dia 14 de Dezembro de 1986 no antigo Estádio de Alvalade ficou, para sempre, gravada na memória dos derbies. O Benfica haveria de baquear estrondosamente por uns impensáveis 7-1 perante o seu eterno rival, o que no entanto não o impediu de conquistar brilhantemente o 27.º título nacional do seu longo e extenso palmarés. Nessa tarde chuvosa em que os sportinguistas sairam exultantes e nós benfiquistas cabisbaixos, brilhou a grande altura o avançado Manuel Fernandes que à sua conta conseguiu um póquer. Por essa altura ainda prevalecia a rivalidade pura e sadia, a despeito de atritos pontuais e dos habituais remoques e bitaites que os adeptos que estão momentaneamente por cima não desprezam face aos rivais.

2. Quase sempre foi assim até ao fim do século, acabando as coisas por descambar de forma definitiva a partir do momento em que o ex-banqueiro José Roquete estabeleceu o célebre pacto com o FC Porto de Pinto da Costa para tentar varrer de forma irreversível o Benfica do domínio do futebol português. A partir desse momento era inevitável que nunca mais as coisas ficariam como dantes. Ficaram a perder os dois clubes da capital e concomitantemente o futebol português que já de si atravessava uma fase de acentuado descalabro da verdade desportiva com a constante adulteração dos factos como anos mais tarde ficou provado e passou a ser do conhecimento público.

3. O facto de se perfilhar um ideal clubista por vezes até de forma exagerada como são afinal todas as paixões, não implica necessariamente que se deixe de reconhecer os méritos de todos aqueles que não sendo da nossa cor, de uma forma escorreita e transparente demonstram as suas potencialidades e expressam as suas virtudes em momentos particularmente inspirados. Por muito que nos custe foi isso que aconteceu então com Manuel Fernandes que para além do mérito e do oportunismo (no sentido positivo) que o caracterizava, tinha como característica muito peculiar cair demasiadas vezes na área… Mas consegui-lo e continuar a ludibriar as equipas de arbitragem é, mau grado a forma enviezada como se atinge o objectivo, um mérito que tem de ser creditado a quem o consegue.

4. À data do jogo atrás referenciado, o actual presidente leonino Bruno de Carvalho era um jovem de 14 anos. Desconhecemos se presenciou o jogo, mas se o fez ou pelo menos o acompanhou partindo do princípio de que já era apoiante da causa leonina, deve ter rejubilado com o resultado e com a exibição de Manuel Fernandes. Não deve ter decorrido muito tempo sem se ter apercebido o que jogador representava para clube, a par de outros atletas que ao longo dos tempos foram ganhando espaço e ficaram para sempre como figuras incontornáveis da história leonina, ao contrário de alguns dirigentes cuja passagem pelo clube apenas ficou registada no livro de actas…

5. Pode parecer algo estranho que na nossa qualidade de adversários tenhamos chamado este assunto à colação mas, a despeito de sabermos que isso é uma consequência de todos os tempos, continuamos a não nos conformar (com alguma dose de lirismo bem o sabemos) com a possibilidade de um clube ou empresa poder espezinhar um seu ex-atleta ou ex-colaborador sem aparente razão de ser, embora a memória e os seus feitos ou trabalho profíquo continuem a nunca poderem ser apagados. E já não falamos do reconhecimento que cada vez mais é ignorado, tendo em conta sobretudo a dinâmica actual em que a necessidade de afirmação de egos próprios prevalece sobre tudo o resto.

6. Uma simples crítica de Manuel Fernandes sobre uma particularidade de uma exibição leonina provocou azia e mau estar em Bruno de Carvalho que parece conviver pessimamente com todos aqueles que não comungam do seu ideal absolutista em que existe uma verdade oficial (a dele) e em que todas as outras verdades, por mais justas e equilibradas que possam ser, constituem focos de agitação que visam desestabilizar a santa paz do cardápio oficial. Pelos vistos, agora que tem ao seu dispôr em permanência um veículo propandístico para debitar as suas teses idealistas e irrefutáveis, qualquer um que não siga cegamente a verdade única e chancelada mesmo que se trate de uma figura de proa no universo leonino, é tido como um agitador e inimigo dos interesses do Sporting, leia-se de Bruno de Carvalho.

7. Não temos obviamente procuração de Manuel Fernandes nem ele necessita que estejamos a interceder. Para além de serem situações que aconteceram fora da nossa esfera benfiquista. Mas custa-nos observar tamanha leveza e irresponsabilidade não tanto da personagem Bruno de Carvalho que já nos habituou a estas tiradas disparatadas, mas da figura que representa o presidente do Sporting que deveria ser o primeiro a dar o exemplo e respeitar a história do próprio clube a que preside. E estamos à vontade para falar porque já houve um tempo no Benfica em que algumas das suas figuras míticas foram algo menosprezadas. Felizmente que isso foi ultrapassado e hoje em dia os atletas que se destacaram têm o devido e merecido realce por tudo o que deram ao clube. Instituição que não sabe honrar de forma perene a sua história, vai fazendo perder a memória aos seus adeptos. Talvez fosse bom Bruno de Carvalho deixar-se de insultos gratuitos aos seus mais destacados e olhar para o lado e reflectir. A sugestão fica de graça…






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