Ponto Vermelho
Divagações sobre Sistemas e Modelos de jogo-I
8 de Outubro de 2014
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É normal nos tempos actuais até pelo desenvolvimento da disciplina do futebol e do incremento dos entendidos e dos críticos do futebol, a proliferação de artigos e opiniões nos media. Discute-se hoje publicamente com o maior à vontade, sistemas, tácticas de jogo, características de jogadores, etc, etc, em que cada um, com mais ou menos prática ou mais ou menos conhecimentos expõe os seus pontos de vista, num espaço de liberdade que só enriquece a discussão do tema. O seu juízo fica obviamente a cargo de cada um.

Por ser assim não resistamos a deixar aqui as nossas opiniões sem qualquer pretensão monopolista da verdade absoluta que, face aos imponderáveis do futebol ninguém acaba por ter por mais entendido que seja nesta matéria tão complexa e instável. Por vezes vemos opiniões apontando que algumas das vitórias do Benfica e também de outras equipas, só se concretizaram devido à qualidade individual deste ou daquele jogador. É de facto uma assumpção intuitiva e lógica, mas … não serão quase todas as vitórias de quase todas as equipas baseadas nisso mesmo? Por alguma razão as equipas tentam sempre contratar os melhores jogadores justamente para tentarem fazer a diferença. Tais opiniões, por serem recorrentes, passam a ser vistas como clichés, que acabam por não ter significado se as analisarmos sob um prisma analítico.

É evidente que há equipas que ganham mais do que as outras porque têm jogadores que podem fazer a diferença. Não tem sido assim sempre ao longo dos tempos? Não é desse modo na actualidade? Se fizermos uma retrospectiva não foi assim, por exemplo, com Eusébio? Se olharmos para os actuais expoentes mundiais (Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, etc) não são eles que resolvem as mais intrincadas situações e fazem a diferença nas suas equipas? Ouvem-se também justificações de resultados em que a equipa A só ganhou porque o seu keeper foi insuperável na baliza; ou, então, porque o avançado falhou vários golos de baliza aberta. Sendo de facto tudo isso uma realidade, é todavia necessário enquadrá-la numa realidade mais vasta que não se esgota nesses índices exibicionais positivos ou negativos.

Quem percebe de organizações sabe que qualquer uma obedece sempre a um determinado modelo de jogo ou como lhe queiram chamar. Seja essa organização um país, uma empresa, um clube ou uma equipa de futebol. Sendo que até o corpo humano tem necessariamente essa matriz obrigatória e vinculativa ao seu normal funcionamento. Pretendemos com isso significar que são as individualidades que estabelecem a diferença e que saindo as melhores as equipas por norma sofrem abalos, por melhor modelo de jogo que tenham. Somos pois de opinião que aquilo a que se chama modelo de jogo é apenas a base, importante sem dúvida, mas a diferença só é conseguida através das individualidades que criam os desequilíbrios fundamentais. E isto, como atrás já se disse, aplica-se a todo o tipo de organizações sejam elas quais forem. Sobretudo das que estão mais dependentes do factor criatividade e consequentemente da capacidade inventiva dos seus intérpretes.

Enquanto que numa empresa que assenta a sua actividade no factor produtivo em massa essa situação não se coloca com tanta acuidade, já no sector de marketing está totalmente dependente da criatividade das individualidades que a compõem e lhe dão vida. Nesse contexto, dizer que uma equipa de futebol ganhou graças às suas individualidades não faz, do nosso ponto de vista, grande sentido, já que elas são parte intrínseca do modelo de jogo. Este poderá ser inovador, consequente e afirmativo, mas não terá sucesso sem as individualidades…

No entanto podemos afirmar que uma equipa de futebol venceu pelo seu modelo de jogo, apesar das individualidades que possui. Estamos apenas a constatar factos e a dar exemplos para melhor compreensão do que queremos e pretendemos transmitir. Nem sempre isso é todavia assimilável, na medida em que há pessoas que estão agarradas a conceitos que nunca abandonam mesmo que eles na prática se revelem desajustados da realidade actual. Aquilo a que chamam de modelo de jogo é uma forma de organização como outra qualquer e pode aplicar-se a tudo. Neste caso a uma equipa de futebol.

O Benfica tem evidentemente um modelo de jogo instituído, ao qual se ouve Jesus chamar-lhe com frequência ideia de jogo. Aqui o nome não importa mas terá menor ou maior sucesso quanto melhor as diversas individualidades o perceberem e executarem. As individualidades são sempre mais importantes do que as ideias de jogo pois são aquelas que as aplicam e executam. Os modelos de jogo poderão até ser eliminados através das estratégias dos adversários, enquanto as individualidades são muito mais difíceis de neutralizar sobretudo se estiveram em dia inspirado.

Tal como uma orquestra, o ideal será haver um modelo de jogo bem assimilado e interpretado pelas individualidades, em particular quando é contrariado e se revela disfuncional. Ao fim e ao cabo, todas as partidas são resolvidas pelas individualidades. Tivémos o jogo de Leverkusen em que o modelo de jogo do Benfica foi aplicado mas não teve o êxito esperado, porque o adversário o contrariou servindo-se de um modelo de jogo distinto baseado numa pressão constante e asfixiante, e numa motivação originada pelo natural desejo de vingar a derrota sofrida para a Liga Europa, para além da enorme capacidade física das individualidades que permitiram a concretização dessa estratégia.

Ficamos com a sensação que os jogadores do Benfica não estariam preparados psicologicamente para isso nem terão sido porventura alertados para esse facto. Houve um gap na estratégia de antecipação, mas não é a primeira vez que sucede. O modelo existia mas não conseguiu ser aplicado, justamente porque as individualidades ao não aparecerem, não conseguiram libertar a equipa do colete de forças. Uma individualidade, no entanto, tentou dar um safanão no jogo e colocar o Benfica dentro do mesmo; Salvio, que marcou o golo num ataque em que foi adoptada e seguida a ideia de jogo do Benfica, mas, contingências do próprio futebol, uma asneira do árbitro-auxiliar não permitiu que o Benfica voltasse ao mesmo. Se o conseguiria ou não, nunca o iremos saber. (…)


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