Ponto Vermelho
Divagações sobre Sistemas e Modelos de jogo-II
9 de Outubro de 2014
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Continuando a desenvolver o tema a que aludimos ontem, o modelo de jogo ou a ideia de jogo, são apenas um meio através de uma organização pré-determinada para atingir um certo fim estabelecido, que é no fundo conseguir marcar mais golos que o adversário e assim vencer os jogos. Que é, evidentemente, o objectivo primeiro a perseguir. Não devemos, portanto, esquecer o que realmente interessa e enveredar por argumentações fúteis e acessórias que a nada conduzem, distraíndo-nos com os ramos das árvores em vez de nos concentrarmos na floresta, por vezes densa.

As individualidades são, de facto, mais importantes do que os modelos, ideias ou organizações de jogo, não só porque permitem romper a teia adversária através do seu génio e criatividade, como também são essas mesmas individualidades que quanto melhor forem, mais aumentam as possibilidades de sucesso no modelo de jogo pré-estabelecido. Não considerar estas vertentes, é menosprezar a finalidade suprema de marcar golos e ganhar um jogo de futebol. Alguém ouviu algum técnico queixar-se ou criticar no fim de um desafio, um jogador que resolveu o jogo por se ter esquecido de seguir o guião pré- estabelecido? Só se forem muitos dos teóricos das redes sociais que adoram dissertar sobre tais matérias…

O modelo de jogo varia obviamente de equipa para equipa mas não se deve nem pode confundir com outra situação, como seja a atitude ou intensidade competitiva que esteve patente, por exemplo, na equipa do Bayer Leverkusen no jogo que disputou com o Benfica. Mas isso não se consegue passar ao papel, pois é uma questão do foro psicológico que ocupa as cabeças dos jogadores, sem prejuízo de outros factores que não vêm agora ao caso. A criação de um modelo de jogo é um passo natural no desenvolvimento do futebol, uma subida a um nível superior de abstração, uma tentativa de colocar alguma ordem e disciplina no caos que é o jogo, uma necessidade de conseguir uma melhor organização e esquematização dentro do campo. Uma situação que é, aliás, extensiva a todas as modalidades.

Tomemos como referência o Atlético de Madrid campeão espanhol. Esta época, mantendo o mesmo treinador e o mesmo modelo de jogo constata-se que até ao momento está aquém do rendimento da temporada pretérita. Porque será? Em termos teóricos o resultado não deveria ser o mesmo? Aqui entram outros factores que na nossa opinião são mais importantes; os jogadores, a sua qualidade individual (e psicológica), atitude competitiva e motivacional e a própria interacção (psicológica e física) entre os jogadores, os treinadores e a organização.

Existem, de facto, muito factores que podem conduzir ao sucesso. O modelo de jogo é apenas um, assaz relevante, mas apenas um. Aqui voltam a entrar as individualidades e acima de tudo a empatia entre as próprias e, entre elas e os treinadores. E por aqui ficamos para não entrarmos em níveis de abstração mais filosóficos. Uma coisa é certa: à medida que o futebol se vai desenvolvendo, os métodos de treino passam a ser mais conhecidos e esmiuçados, a mecanização e a importância dos modelos de jogo irão aumentar, à semelhança do que acontece no futebol americano. Mas o talento individual é insubstituível… Do nosso ponto de vista o modelo de jogo mais rentável, será sempre aquele que consegue sacar o melhor rendimento do talento dos jogadores. Como aconteceu com o Barcelona de Josep Guardiola que Julen Lopetegui está a tentar imitar no Dragão, aparentemente sem sucesso.

É realmente verdadeiro que a intensidade competitiva, a agressividade, podem ser trabalhadas e estão inseridas dentro do modelo de jogo. À agressividade, ou na gíria deixar a pele em campo ou passar a bola mas não o homem, preferimos apelidar de filosofia de jogo, porque não se pode representar na realidade embora deva ser introduzida no modelo de jogo durante os treinos, como é reconhecido. Todo e qualquer modelo, ou toda e qualquer filosofia, têm assinatura, que obviamente é a do treinador.

Parece totalmente lógico que um modelo de jogo só fará sentido se tiver aplicação prática. Mas nunca pode estar dissociado dos intérpretes que o irão executar. O desenvolvimento dos modelos de jogo ao longo dos tempos, e não só no futebol, são tentativas de standardização do jogo em si, simplificações da realidade, a que poderemos apelidar (com mais ou menos propriedade), de mecanização do jogo. Falamos de mecanização do modelo, não da mecanização dos jogadores. Todavia, o que se vai constatando é que os técnicos da área da formação estão a tentar gradualmente incutir nos miúdos desde cedo modelos de jogo, a tal standardização nos parâmetros do jogo, em vez de lhes conceder liberdade para a criação. Percebemos a ideia, mas é pena porque a criatividade é um dos bens mais valiosos que o ser humano pode ter.

O futebol é um desporto colectivo, mas no fim de contas vamos ter sempre ao mesmo ponto de encontro: são sempre as individualidades que estabelecem a diferença. Se não as houver à altura para interpretar o modelo de jogo pretendido, este, por mais simples ou sofisticado que seja está condenado a falhar, porque nunca pode estar dissociado da qualidade dos intérpretes. Um bom modelo de jogo é aquele que permite que as individualidades sobressaíam, dando o seu melhor, ao mesmo tempo que atingem o objectivo comum de crescerem competitivamente. Optando por um exemplo concreto, isso tem-se notado sobremaneira ao longo as várias épocas no Benfica com Jesus.




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