Ponto Vermelho
Tudo igual, mas…
10 de Outubro de 2014
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Quem tem vindo a acompanhar com atenção o futebol português nas últimas infindáveis décadas, de pronto conclui que as diferenças, tendo-as havido, não têm sido de molde a provocar rupturas. E se elas existiram fruto de circunstâncias ocasionais, a grande verdade é que em termos evolutivos nada de significativo se notou a não ser o sempre activo desejo de protagonismo. Seja ele recorrente e requentado ou com novas matizes de carácter pseudo-revolucionário com discursos cativantes e populistas. Faz-nos lembrar o antigo discurso do Estado Novo do: ou estás connosco ou estás contra nós. Sem alternativa.

Época após época temos assistido às mesmas tiradas ditas pelos mesmos protagonistas ou semelhantes, estribados num poder que através do silêncio e da resignação dos homens de boa vontade, foram paulatinamente construindo, não importando as armas utilizadas nem os atropelamentos que sofreram as sucessivas pessoas que, ou por estarem no caminho a servir de impecilhos que era preciso afastar ou por tentaram fazer frente, foram sendo sistematicamente eliminadas. A minoria não resignada que a nível da imprensa ou através de outros meios tentou denunciar os atropelos, foi sendo desacreditada e afastada sem dó nem piedade. Para poderes com tiques ditatoriais, todo e qualquer contravapor tem que ser neutralizado quanto antes.

As novas gerações não viveram de perto essa problemática e têm das situações que lhe deram origem uma noção vaga e imprecisa. O que é perfeitamente natural num mundo cada vez mais materialista. Mas se quiserem somar dois mais dois, rapidamente chegam à conclusão que o presente é uma consequência evidente dos males e atropelos do passado. Como irá ser o futuro se não for corrigida a tempo a trajectória. E isso conduz-nos aos alicerces do futebol português que nunca estando sólidos, têm vindo a ameaçar desmoronamento de forma sistemática, muito embora isso não pareça preocupar os seus mentores que se governam e vivem bem no caos em que tudo se transformou. Para iludir, projectam-se e enfatizam-se mais as questões laterais e os fait-divers, que os media por submissão ou por necessidade têm ajudado a propagar.

Assim temos penosamente vivido. A esperança de que a coisa melhore não sendo entusiasmante e credível, é todavia um ponto que nunca se pode deixar extinguir. Apesar dos velhos protagonistas se manterem no seu posto e os novos chegarem a abarrotar de promessas utópicas e frases atraentes e contrastantes, rapidamente se deixando envolver pela demagogia populista e caindo na tentação de perseguir a sua sombra, perdendo num ápice a credibilidade angariada. Não basta reconhecer que a situação está mal; é preciso angariar vontades sérias para, em conjunto, levar as pessoas a acreditar que a alteração da cadência dos acontecimentos não é uma tarefa inatingível. E isso é uma questão fulcral que nunca se deve deixar esmorecer.

Apesar da situação deprimente em que se encontra a Liga de Clubes e de ninguém encontrar razões sérias que justifiquem todo esse despautério que tem desfilado perante os nossos olhos. A despeito de alguns terem conduzido a Liga a um ponto de desconchavo e outros o terem permitido pelo desinteresse e pela inércia. Mesmo que os dirigentes dos clubes tenham vindo a defender interesses sectoriais esquecendo-se que aquele organismo deveria representar e defender os interesses de todos. Finalmente, mesmo que esses interesses obscuros ainda que poderosos continuem a determinar o tempo e o modo como a Liga deve funcionar e ser gerida. A despeito destas constatações, deve e tem que haver fortes convicções para inverter de vez o rumo.

O recente encontro de Coimbra dos presidentes dos clubes a que faltaram alguns sem justificação e outros de forma estratégica como foi o caso do presidente leonino, foi estranhamente enfatizada pela comunicação social na componente gastronómica com acontecimentos sem precedentes como seja os outros dois presidentes dos grandes a almoçarem no mesmo restaurante, em que só faltou mesmo dizer as partes do leitão com que cada um se tinha deliciado. Mas voltando à reunião, terá servido para definir a estratégia, em particular o estabelecimento do perfil de um candidato consensual que contribua para a resolução do impasse em que está neste momento a Liga.

Face à situação que começa a ser caótica, é evidente que a definição de um candidato que promova consensos, seja activo, diligente, tenha capacidade de trabalho e consiga atingir os objectivos fundamentais para a organização dos clubes e tenha ampla capacidade de diálogo com todas as partes incluindo a governamental, é uma acção prioritária. Compreende-se de algum modo que se comece por aí, ao invés de definir antecipadamente as tarefas organizativas e os alvos a atingir no futuro, equitativos para todos os clubes. Já se perdeu demasiado tempo com estas guerras estéreis do alecrim e da manjerona, pelo que face à conjuntura que atravessamos é preferível avançar já ainda que com alguns solavancos, do que continuar neste marasmo deveras perigoso. Por razões que saltam à vista não defendemos de modo algum que o candidato venha a ser o presidente de qualquer dos clubes pois a acontecer, isso não deixaria de causar constrangimentos difíceis de superar, como aliás se viu no passado. O futuro mal pode esperar, porque será que há alternativa?






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