Ponto Vermelho
Fait-divers do Futebol Português
11 de Outubro de 2014
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1. Nota-se que grande parte da comunicação social anda excitada com as contínuas e repetidas cruzadas do presidente do Sporting, Bruno de Carvalho (BC). O que é natural pois as notícias atractivas são escassas, atendendo a que os temas susceptíveis de atrairem a atenção dos adeptos estão requentados e não estão a produzir nada de substancialmente novo. Logo, é fundamental aproveitar a onda que acaba por satisfazer ambas as partes; BC vai colocando o seu produto no mercado e divulgando as suas mensagens, e os media aproveitam a maré para aumentar as audiências e as tiragens. É, verdadeiramente, o 2 em 1 de vantagens mútuas.

2. Pelos vistos BC não se importa nada de monologar. Quando desde cedo lançou os seus ataques contra o seu principal adversário nortenho, vimos este ripostar da pior maneira possível. Que face à textura do opositor foi considerado um erro de natureza estratégica o qual, com o evoluir do tempo, acabou por ser rectificado. Não contente com isso e num desejo frenético de auto-afirmação, BC passou a lançar farpas ao seu vizinho do lado a propósito de tudo e de nada, que também caiu na tentação inicial de responder ainda que numa outra perspectiva. Foi no entanto apanhado em falso e acabou por recuar.

3. Foi, no entanto, sol de pouquíssima dura. No seu estilo falsamente pausado e truculento, pressentiu que a imprensa está sempre pronta para divulgar e ampliar as suas mensagens não importando sobre que assunto. E, a somar, sentiu igualmente o conforto de boa parte dos adeptos leoninos, pelo que, cada vez mais, se sentiu incentivado a adquirir protagonismo mesmo através de tiradas anacrónicas que revelam, imaturidade, bem como uma profunda insensatez.

4. Dir-nos-ão que outros, a começar pelo seu principal alvo de momento – Pinto da Costa – o merecem amplamente pois têm protagonizado uma história longa, repleta de esquemas e de golpadas, para além de sempre terem usado uma linguagem desbragada e imprópria de pessoas com pública relevância. Mas desde quando a eficácia em acções de guerrilha se traduz no desenvolvimento das mesmas práticas e da utilização das mesmas armas quando o objectivo final é precisamente combatê-las? Não é o cidadão BC que o está a fazer mas sim o Presidente do Sporting e isso, deveria obrigar a outros comportamentos, sem que com isso se desviasse do rumo e da estratégia que, bem ou mal, previamente traçou.

5. É verdade que no vasto pacote de propostas e sugestões que apresentou à opinião pública e que o conduziu a tudo o que é sítio, algumas comportariam algum mérito e poderiam ser aplicáveis. Mas, conforme tivémos ensejo na altura de escrever, a estratégia estanque e individualizada seguida, levou, gradualmente, ao seu isolamento. Neste momento, ninguém por mais peso que tenha (o que não é manifestamente o caso de BC), consegue trilhar esse caminho e obter sucesso. A conclusão a extrair é a de que pretendia atenção e protagonismo para além de reclamar integralmente os méritos. Se tivesse vingado o sucesso pessoal estava garantido, e se falhasse conforme aconteceu, a culpa seria sempre dos outros que o tinham impedido.

6. Mas os resultados da equipa de futebol surpreenderam positivamente no fim da época e não têm deslustrado na actual onde pela primeira vez em vários anos o Sporting empatou na Luz e até conseguiu marcar um golo. Animado por isso, BC tem prosseguido na mesma linha mas de forma mais diversificada, pois declarou guerra a tudo o que considera prejudicial à definição de uma verdade de que pretende ser detentor único. É nesse contexto que se inserem os seus ataques a figuras gradas do universo leonino as quais, por muito que esperneie, continuam e continuarão a merecer a consideração e o respeito da esmagadora maioria da nação sportinguista.

7. Situação algo diferente é a questão da auditoria que estava englobada no seu caderno eleitoral. Nem sempre os presidentes depois de chegarem ao poder enveredam por esse caminho, mas é inatacável a sua posição de a mandar avançar pois poderá acabar de vez com as especulações e as acusações veladas que se têm feito sentir. Já a forma rápida como se apressou a julgar os culpados publicamente preparando desde logo o terreno para aquilo que viria a ser a AG é que nos merece críticas, pois o Estado de Direito que ainda temos no papel, não pode pactuar com essas acções de linchamento popular e clubista. Também a análise a que Conselho Fiscal está a proceder e em caso de ser aplicada a sanção preconizada nos deixa uma interrogação: e se os já condenados vierem a ser ilibados em tribunal?

8. É indiscutível que BC tem vindo a lancer várias incursões em terrenos extremamente resvaladiços e por isso perigosos. Se por um lado é de sublinhar a sua coragem (ou será antes imprudência?), por outro é que tem conseguido criar e aumentar os inimigos que estão à espera que cometa o seu primeiro grande deslize para dizerem que existem. A começar pelo interior do Sporting em que cada vez mais se vão sentido incomodidades. Pode ser muito interessante cavalgar na crista da onda e sentir que a imprensa está sempre pronta e disponível a enfatizar a sua última batalha, mas a cobrança pode chegar muito mais cedo do que espera. Assim os resultados do futebol deixem de ajudar…




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