Ponto Vermelho
Quotas vs Formação
18 de Outubro de 2014
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A campanha imaculada da Selecção Nacional de futebol Sub-21 na fase de apuramento para o Europeu da categoria onde registou o pleno de vitórias incluindo o play-off contra a poderosa Holanda, bem como a confirmação e o surgimento de novos valores, veio relançar um tema que tem sido objecto das mais desencontradas análises nos últimos tempos, considerando que cada vez há mais cabeças-pensantes no futebol português que vão expondo os seus pontos de vista através de debates televisivos, de artigos de fundo na imprensa e nas redes sociais.

Considerando que a razão assiste um pouco a cada um, diríamos que é não é fácil encontrar um ponto de equilíbrio dado que a uma questão coerente, lógica e até nacionalista (aproveitamento racional dos valores portugueses emergentes), sobrepõe-se a objectividade e a forma que os principais clubes têm encontrado para resolver as necessidades dos seus plantéis, salvo algumas intermitências do Sporting devido a circunstâncias conjunturais. Muito embora a questão pareça ser lógica e de fácil resolução, a verdade é que é muito mais complexa, logo de aplicação mais difícil dadas as condicionantes que encerra.

Ouve-se, por todo o lado, jornalistas, comentadores, cronistas e demais sem esquecer a massa de adeptos multicolor, dissertar sobre a necessidade imediata e urgente de dar seguimento ao trabalho excelente que nos últimos anos as formações dos clubes têm produzido. E não estamos apenas a falar dos três grandes mas também de muitos outros que têm vindo a sobressair na área da Formação, de que são exemplos, o SC Braga, o V. Guimarães ou o V. Setúbal para só falar nestes. Que aproveitamento nacional tem sido feito dos jovens talentos que têm despontado nestas Formações? Se excluirmos o Sporting de forma parcial, o panorama é sombrio porque a raridade faz a regra.

Outro dos temas abordados tem sido, a exemplo do que se faz noutros países, a introdução de quotas de jogadores nacionais vs Formação. Em termos teóricos esse objectivo seria pacífico e inquestionável porque não só permitiria potenciar os talentos emergentes que vão surgindo, como evitar algumas aquisições deveras dispendiosas com jogadores estrangeiros do mesmo nível e até de potencial inferior. Para além de que, numa visão nacionalista um pouco mais ortodoxa, impediria o despautério e até a vergonha que tem constituído, por hipótese, as duas principais equipas portuguesas iniciarem os seus jogos sem um único atleta português para amostra.

Contudo a própria evolução trouxe como consequência o desejo e o objectivo de ganhar não importando os jogadores e as suas nacionalidades. Hoje em dia, os adeptos dos clubes assumem esse desiderato sem qualquer rebuço e relegam para segundo plano tudo o resto. A questão dos jovens portugueses é apenas evocado como rebate de consciência e em assomos agudos e repentinos de nacionalismo. Ninguém perdoaria ao treinador se porventura incluisse um atleta oriundo das camadas jovens e o mesmo viesse a falhar num momento capital. Corria-se o risco de para além de afastar a equipa de um objectivo importante, de complicar quiçá de forma irreversível, a natural evolução e afirmação do próprio jogador.

Dirão alguns que não tem que ser necessariamente assim. Qualquer jogador da formação que tenha talento e esteja disposto a fazer tudo para se integrar em patamares competitivos mais exigentes deveria merecer a sua oportunidade. Mas aí entramos outra vez no mundo da complexidade, dado que isso está sujeito a um conjunto de variáveis importantes e mesmo decisivas, como seja o momento, a componente psicológica do jogador e a forma como consegue resistir sem se deixar afectar, à pressão de todo um mundo novo. A realidade é que há jogadores que passam por esse teste deixando desde logo indicações preciosas quanto à sua afirmação e ao seu futuro num estádio superior, enquanto outros de igual talento mas sem essa resistência psicológica acabam por demorar a afirmar-se ou mesmo a ficar pelo caminho.

Jorge Jesus fustigado por alguns que o acusam de não apostar em jogadores portugueses da formação, abordou em recente entrevista esta temática. Vetou a introdução da chamada quota de jogadores que, segundo ele, iria reduzir drasticamente o nível competitivo das principais equipas portuguesas. Respeitando a opinião de um técnico que já deu sobejas provas na área, não comungamos, todavia, inteiramente da sua opinião. Compreendemos que o espaço de recrutamento é exíguo e que os talentos que emergem ficam desde muito cedo na mira de potentados europeus que nem sequer se dão ao luxo de ter equipas de formação. Nessas circunstâncias, as ofertas são financeiramente tentadoras, ao mesmo tempo que os jogadores ficam desde logo inebriados pela possibilidade de virem a ter uma carreira ao mais alto nível. Segurá-los, pois, é complicado.

Todavia, se feito sem pressas e com ponderação mesmo sabendo que o tempo e as oportunidades não abundam ao nível do futebol profissional, continuamos a achar que, para além de ser desejável, seria igualmente viável a introdução de quotas mínimas (sem cairmos no exagero) de jogadores formados em Portugal em linha com a actual conjuntura do futebol português. Ao mesmo tempo que os jogadores deveriam obedecer a um conjunto de requisitos por forma a não reduzir no imediato o nível competitivo das equipas. Não se perdia nada em experimentar uma solução desse tipo, porque as circunstâncias aquisitivas no mercado estrangeiro (até por causa da futura proibição dos Fundos) podem vir a alterar-se drasticamente e tornar-se incomportáveis para os cofres dos clubes portugueses. Escusado será dizer que para isto funcionar teriam que ser introduzidas alterações profundas na organização e no funcionamento das provas do calendário nacional.




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