Ponto Vermelho
Pretextos para a confusão...
21 de Outubro de 2014
Partilhar no Facebook

A sucessão de acontecimentos na Liga que a conduziram a um estado de indigência, tem dado origem aos mais desencontrados comentários. A maior parte centrada nos aspectos lúdicos da questão e pouca voltada para aquilo que verdadeiramente interessa –, a resolução dos problemas numa perspectiva globalizante, estruturante e duradoura. Porque está em causa não só o poder, mas essencialmente o controlo dos acontecimentos que se apresentam sob uma nova capa que obriga a um novo tipo de gestão. Hoje em dia, o que verdadeiramente está em causa já ultrapassou esse cenário para se situar num patamar próximo da sobrevivência colectiva.

O que tem que ser rapidamente equacionado é o próprio futebol português dado que a fórmula actual de gestão atingiu um ponto de saturação, dado que as práticas de controlo e assumpção do poder foram ultrapassadas pela dinâmica evolutiva do processo. Do qual, é bom não esquecer, a Federação Portuguesa de Futebol e em particular o seu presidente Fernando Gomes não estão isentos de culpas. No fundo, o quase completo esvaziamento da Liga foi também potenciado pela inércia interesseira da Federação. Perante uma situação caótica, prolongar guerrinhas pessoais pode ser muito interessante do ponto de vista individual e da satisfação de egos, mas não o é seguramente para o interesse colectivo que urge defender.

Para qualquer observador que se situe à margem do recorrente modus operandi, é deveras complicado perceber como é que a Liga chegou ao actual estado de circunstâncias. Ninguém está isento de culpas por deixar arrastar um processo que há muito devia estar resolvido. Infelizmente, os buracos nos regulamentos e os alçapões na lei são o pão nosso de cada dia, o que tem permitido toda a espécie de expedientes e explica em grande parte o estado quase vegetativo a que chegou o nosso futebol. Continuar a prolongar esta agonia significaria chegar a um ponto sem retorno e sem perspectivas de evolução futura

Não vale a pena determo-nos sobre as razões que levaram a que a Liga esteja há largos meses paralisada. Se o passado é importante para compreender o presente e projectar o futuro, a realidade é que importa olhar para a frente sem hesitação, buscando novas soluções que invertam o rumo que o futebol em Portugal está a seguir. Mas são estes os agentes que temos e, enquanto não houver novas personagens, é com estes que temos que lidar, mesmo que saibamos que muitos deles não nos inspiram a mínima confiança. Estando muito longe da situação ideal, pelo menos tem a virtude de poder potenciar uma solução. Apesar de podermos não concordarmos com a dinâmica do processo ou com a personalidade escolhida para dirigir os destinos de uma Liga em estado caótico.

Havendo de certo modo uma perspectiva errada na concepção do edifício, mais vale uma solução que porventura possa ainda estar longe do desejável, do que o verbalismo inconsequente e o dolce far niente em que a palavra adiamento está sempre na ordem do dia. É que o estádio actual é de tal ordem problemático que não há tempo a perder mesmo que a decisão final não congregue todas as vontades. Teria que haver sempre desalinhados que na sua doce ilusão lírica, tinham na manga a solução para todos ao males, mesmo que o posicionamento das estrelas indiciasse um alinhamento diferente.

A figura encontrada –Luís Duque – é, em termos teóricos, uma solução assisada. O seu perfil enquanto dirigente clubista e associativo e o seu conhecimento dos meandros futebolísticos fazem dele uma figura adequada ao lugar. O facto de ser um sportinguista convicto não lhe retira competência e muito menos aptidões. Mas como é normal em Portugal, tudo isso foi relegado para 2.º plano para se previlegiar aspectos laterais que derivam do contencioso que a Direcção de Bruno de Carvalho mantem com ele. E isso, para os plumitivos e para alguns papagaios afectos ao universo leonino, foi tido como uma provocação patrocinada pelos outros dois grandes, num alinhamento contra-natura contra o actual presidente leonino que passou a vítima de todo o processo…

Não o entendemos assim. É certo que os benfiquistas ficam sempre desconfiados sempre que há uma comunhão de interesses com o FC Porto de Pinto da Costa, mas se pensarmos bem, o presente é de tal maneira problemático que a margem de manobra autónoma deixou de existir face à derrocada dos principais partners (BES, PT, etc), o que impede mais delongas numa inevitável aproximação estratégica que tinha que se desenhar, pois as alternativas não existem e o orgulhosamente sós nunca foi nem é solução. O pragmatismo recomenda-nos acção concertada por a questão ser demasiado grave e ameaçar mesmo a sobrevivência dos clubes.

Do ponto de vista dos portistas e benfiquistas, a condução do processo de afrontamento a antigos dirigentes incluindo Luís Duque por parte de Bruno de Carvalho é um factor positivo, pois para a grande maioria dos adeptos tudo o que concorra para a desestabilização dos rivais é sempre relevante. É claro que se fossemos adeptos leoninos e ponderados, condenaríamos o excesso de voluntarismo do presidente pois em primeiro lugar a resolução do assunto deveria ser tentada internamente, de forma a impedir fracturas que poderão vir a ser complicadas de solidificar. Mas assim não foi entendido e os 27 clubes presentes na reunião de Coimbra não tinham que ajustar a agenda aos interesses do presidente leonino. Que, ao dissociar-se da discussão, perdeu a legitimidade para se arvorar em vítima de uma alegada conspiração. Mas pelo vistos, as mesas, os leitões e os apertos de mão parecem ser mais importantes que tudo isso…




Bookmark and Share