Ponto Vermelho
Oportunidade perdida
27 de Outubro de 2014
Partilhar no Facebook

Inúmeras pessoas ao longo dos tempos têm afirmado com toda a oportunidade que no desporto e no futebol em particular, a paixão dos adeptos sobrepõe-se à racionalidade, significando grosso modo que quase nunca uma determinada situação ou um facto específico são vistos com o mínimo de rigor indispensável ou com a objectividade requerida. De tal modo esse sentimento assola e exerce influência no espírito dos adeptos que na hora e no momento, todos sem excepção – do mais desenvolvido intelectualmente ao mais tacanho de ideias -, afinam pelo mesmo objectivo – defender as suas cores.

Tudo isso é incontestável e ao fim e ao cabo se não fosse assim, não havia paixão e o futebol não teria atingido o estádio de desenvolvimento e a projecção que tem hoje. Evidentemente que num mundo tão materialista como é o actual, não faltam aqueles que por puro oportunismo ou interesses inconfessáveis vão mudando de paixões, contrariando a lógica secular que determina que mudar de clube é a única coisa que o ser humano não consegue fazer. A menos que haja alguma insegurança ou a paixão não seja assim tão forte…

Mas essas são as excepções, porque o adepto normal nasce, cresce e morre arreigado aos seus firmes princípios clubistas, significando que quase nunca consegue ser rigoroso nas suas análises. E nem sequer vamos falar em casos de fundamentalismo como por exemplo o perfilhado pelo leonino Eduardo Barroso. Nesse sentido, as análises e as opiniões tendem a ser desculpalizadoras quando algo não corre bem, e exageradamente eufóricas quando o êxito bate à porta e entra. Não incluímos aqui aqueles – e alguns há –, que por despeito ou por antipatias pessoais enfileiram na categoria dos Velhos do Restelo.

Há contudo momentos em que na vida de um adepto a melhor maneira de defender o seu clube é fazer um esforço para ser objectivo e pragmático. Sempre que o clube ou o seu barómetro representado pela equipa de futebol não esteja a atingir os objectivos delineados, deverá contribuir com críticas, ideias ou sugestões, não para criar qualquer foco de instabilidade que deve ser evitado a todo o custo, mas sim para chamar a atenção que algo não vai bem e urge corrigir. Porque por vezes, deixar arrastar uma situação por demasiado tempo pode vir a significar um fim sem retorno.

Bem sabemos que o futebol vive em paredes meias com a surpresa e a volatilidade. Também não ignoramos que a lógica é inúmeras vezes desvirtuada e que uma multiplicidade de factores influi no desfecho de um jogo de futebol. Se assim não fosse jamais o futebol seria tão popular e atractivo e arrastaria pessoas de todos os extractos sociais de qualquer sociedade. Mas sabendo tudo isso, é fundamental quando chegam esses momentos parar, pensar e reflectir sobre o que será melhor para a equipa. Porque se ela estiver bem e a cumprir os objectivos dentro do grau de aleatoriedade que sempre existe no futebol, os adeptos, todos nós, também estaremos bem e tenderemos a enfrentar com um sorriso nos lábios as agruras de toda uma vida que nunca é justa.

Ontem à noite, enquanto presenciávamos o SC Braga-Benfica demos connosco a pensar em toda essa problemática. E confessamos que sentimos alguma preocupação por, a despeito das promessas e palavras de circunstância, a fria lógica da maioria das épocas anteriores acabar por prevalecer, transformando um caminho difícil mas com alguma folga, numa vereda apertada recheada de escolhos e precipícios. Com todos os antecedentes a serem escalpelizados, para afastar as dúvidas que iam engrossando em várias latitudes incluindo no próprio universo benfiquista a alternativa era só uma, sob pena dessas mesmas dúvidas se adensarem caso o horizonte não ficasse tingido de vermelho da águia. Ironicamente cumpriu-se, afinal, uma tese amiúde expressa por Jesus: que interessa começar no pedestal quando no fim se fica sentado no chão?

Na trajectória global existem evidentemente atenuantes que todavia não explicam algumas hesitações e opções tomadas. Legítimas mas algo controversas. Mau grado os handicaps, a equipa pode e deve fazer mais, a começar pela consistência que raramente revela e que leva a que nenhum resultado, por mais favorável que seja, tranquilize os adeptos. Se não existem neste momento jogadores com as características adequadas para desempenhar certas funções ao abrigo das ideias do treinador, então se calhar seria de tentar adoptar um sistema mais favorável que evite, por exemplo, as dificuldades crónicas sentidas quando se defrontam adversários mais categorizados. Ontem foi esbanjada uma soberana oportunidade de afastar os fantasmas que teimam em pairar sobre o céu da Luz. Pior do que falhar é insistir na mesma receita que, pelo que já se viu, está expirada.






Bookmark and Share