Ponto Vermelho
Não hipotequemos a esperança
8 de Novembro de 2014
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1. Temos que reconhecer que uma das características marcantes dos portugueses é a tendência para o fatalismo e para a inevitabilidade, e em muitos casos para a subserviência. Não sabemos até que ponto essa influência no nosso dia a dia deriva dos resquícios nefastos da nossa herança secular, mas a verdade é que duvidamos sempre da qualidade do produto nacional em favor do que se produz na estranja que é sempre melhor e mais completo, mesmo que em várias circunstâncias não o seja. Já Luíz de Camões, no seu tempo, o comprovava.

2. Sendo portanto uma constatação comum a todas as gerações e a despeito de já termos a experiência negativa de nos submetermos a outros interesses que não os nossos, acabou por não se estranhar a hipoteca a favor de uma troika de interesses para se apropriar do que de bom ainda havia em solo nacional. Em termos simplistas, tivémos que uns porque não puderam e não conseguiram e outros porque precisavam de legitimação para impôr políticas de matriz ultra liberal muito em voga na Europa, concorreram para um novo desastre em terras lusas, cujas consequências só serão correctamente avaliadas quando o indispensável relógio do tempo marcar o distanciamento necessário para que seja feito um balanço correcto do ocorrido.

3. Parece por demais evidente que a razão objectiva para todos estes despautérios não se circunscreve apenas e só a quem ordena ou executa em patamares mais elevados; também os que assumem o papel de faxineiros, e os que por indiferença, inércia ou simples acomodação o permitem, acabam por ser tão culpados como os decisores. Vivemos hoje num país subserviente, acomodado e sem fumo de esperança, porque deixámos que isso acontecesse quando ardilosamente nos quiseram fazer crer que não havia alternativa à canga que nos colocaram e que nos tem conduzido à indigência colectiva ao longo dos anos, com particular destaque para os últimos três.

4. Ainda não contentes com o saque dos parcos mas interessantes activos que ainda nos restavam, essa pandilha de burocratas de gabinetes totalmente desfazados da vida real dos povos, com o beneplácito e o apoio de um executivo que enfileira sem qualquer favor no ranking dos piores da democracia portuguesa, continua a enviar-nos recados do como devemos fazer e nos devemos comportar, sem que algum poder deste país tenha voz activa para reagir com voz grossa a esta vergonha que há muito deixou de ser mero atrevimento de colonizador. É dos livros que quando se faz por muito pior que seja, se não houver reacção condizente, a tendência será sempre para aumentar a parada.

5. Para este estado de circunstâncias deprimentes muito tem contribuído também a imprensa na sua grande maioria que vive, ela própria, um caminho tortuoso de que não se tem conseguido libertar, salvo as honrosas excepções do costume que não se vergam seja qual for a situação ou as circunstâncias. A omissão ou o enfeudamento aos vários poderes tem sido a sua pedra de toque e isso tem-se reflectido na forma como tem reagido aos sucessivos atropelos à soberania nacional. O mau funcionamento de todas as plataformas é pois uma consequência de ausência de criticismo útil e consequente, e as aleivosias ao abrigo da liberdade de expressão por serem recorrentes, tendem a ser desvalorizadas e a passar despercebidas.

6. Se calhar por tudo isso, a sociedade portuguesa tornou-se ao mesmo tempo desconfiada e sem capacidade reactiva, pelo que qualquer alternativa que surja no horizonte é tomada como uma afronta e por isso desde logo vilipendiada antes de poder dizer ao que vem. Se manifestamente se compreende o desencanto e a desilusão, consideramos que estamos a ir depressa de mais na direcção do abismo. O estado caótico em que o país se encontra e o crédito de que não beneficiamos, deviam aconselhar-nos a fazer uma pausa na nossa tendência auto-suicidária e olhar firme e convictamente para o futuro.

7. É preciso, urgentemente, obstar a este estado de pessimismo generalizado e acreditar que possa haver amanhã. É certo que grosso modo as opções que nos são apresentadas não são de molde a impedir os nossos receios mas, pensando bem, quais são as alternativas? Se não fizermos por isso e nos entregarmos ao inevitável desenlace do pessimismo, certamente estaremos ainda piores no futuro imediato. Urge pois seguir em frente porque o que aconteceu sendo lamentável é imutável, e só o trabalhando o presente nos pode assegurar melhores perspectivas futuras. Mesmo que olhemos cheios de desconfiança…






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