Ponto Vermelho
Estranhos critérios...
19 de Novembro de 2014
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A Selecção Nacional cumpriu ontem frente à Argentina mais uma etapa do percurso com o novo Seleccionador Fernando Santos. Tal como nas duas partidas anteriores, a equipa nacional só marcou um golo mas também não sofreu nenhum. Depois da derrota tangencial no 1.º jogo a feijões contra a França em que a excepção foi sofrer dois golos, todos os jogos posteriores saldaram-se por um nulo na nossa baliza. Numa análise simplista, poder-se-ia dizer que baixámos o bloco, fomos calculistas e melhorámos os aspectos defensivos o que, sendo um facto iniludível não corresponde inteiramente à verdade.

Contudo, por muito estranho que pareça, os críticos de todas as horas depois de um período de pausa regressaram à liça e com eles o tom agitado depois de consumado o êxito com a equipa vice-campeã mundial. Há que reconhecer que a vitória foi lisonjeira pois correspondeu ao único remate direccionado à baliza, dado que apenas mais um surgiu por Cristiano Ronaldo ainda que por cima do travessão. De facto muito pouco para uma Selecção que ocupa actualmente o 9.º lugar no ranking FIFA.

Há no entanto que considerar que do outro lado estava apenas uma das maiores potências mundiais do futebol, mas aquilo que Portugal produziu foi escasso para uma equipa que pese embora as limitações conhecidas tem obrigação de produzir muito mais. Então os primeiros 25 minutos foram absolutamente deprimentes e valeu o acerto da defesa para que os danos não fossem irreversíveis. Mas mesmo passado esse período em que a avalanche do ataque argentino passou a ser menos intensa, a equipa portuguesa nunca se encontrou deixando no mítico Old Trafford um rasto de subalternidade desnecessário.

O encontro, por motivos de estratégia comercial, centrou-se na rivalidade fabricada em torno de Cristiano Ronaldo e Messi que os critérios na atribuição de prémios têm ajudado a enfatizar, por ninguém perceber em que assenta essa definição. A saída de ambos ao intervalo apenas veio confirmar os interesses envolvidos e demonstrar a falta de respeito por um público apreciador de futebol que, pagando bom dinheiro pelos ingressos, se sentiu defraudado por pagar bilhete para ver meio-espectáculo. São alguns interesses poderosos a sobreporem-se à vontade e ao desejo de uma parte importante que alimenta o futebol, pois sem público não há futebol na verdadeira acepção do termo, como aliás se tem visto nos jogos à porta fechada de que o Sérvia-Dinamarca foi apenas mais um triste exemplo.

A natureza do desafio potenciou abordagens diferentes por parte dos seleccionadores o que se compreende. Mas as alterações introduzidas no meio-campo português e o sistema táctico inicialmente utilizado não se ajustaram ao adversário que dominou a seu bel-prazer fruto de possuir mais e melhores jogadores, mas também da desordem que grassou na zona intermédia onde os jogadores lusos pareceram andar perdidos durante mais de metade da 1.ª parte. Esse facto aliado à falta de pressão, teve como consequência um intenso domínio argentino ainda que sem ter construído flagrantes oportunidades de golo.

Continuamos a considerar que Portugal tem jogadores para construir uma boa Selecção. Mas para isso há que mudar de atitude quanto à forma de abordagem dos desafios, pois alia-se a uma gritante falta de pressão sobre o jogador que tem a bola permitindo ao adversário organizar-se, uma deficiente abordagem dos lances através de uma lentidão e de uma falta de definição e critério no passe que aborta grande parte das saídas para o ataque dando azo a que o adversário pressione e ganhe na antecipação mantendo a posse da bola, restringindo assim as nossas possibilidades. Velho hábito enraízado que urge corrigir.

Portugal tem opções suficientes aparte os critérios que presidam às opções do Selecionador seja ele qual for. Há no entanto que ponderar, definir um caminho e segui-lo sem hesitações, mesmo sabendo que a legião de críticos nunca está satisfeita. Fernando Santos fez bem em considerar seleccionáveis todos os jogadores independentemente do seu passado e idade, pois agora é o momento em que se define o futuro. Novas opções têm sido consideradas e é legítimo pensar o todo como uma renovação, ainda que a dinâmica evolutiva se deva manter em permanência.

Nota para aspectos negativos é a continuação do culto de personalidade exagerado de Ronaldo e que acaba por se revelar prejudicial para a equipa, sendo que o jogador raras vezes conseguir explanar todo o elevado potencial que todos lhe reconhecemos. Depois, são as doses acentuadas de parcialismo exprimidas pela grande maioria da comunicação social que oferece boa imprensa a alguns e ignora outros. Por exemplo, o peditório nacional a favor de Adrien Silva e da repescagem de Ricardo Quaresma que acabou por dar os seus frutos enfatizando situações em que intervenham, em detrimento das protagonizadas por outros tão ou mais importantes.

Mas de todas, a que pareceu mais bizarra foi o caso de Raphael Guerreiro; tendo ascendido a internacional no jogo com a Arménia estranhou-se a sua ausência na flash-interview. Esperámos por ontem em que pelo simples facto de ter marcado o golo da vitória portuguesa justificava por si só a presença. Debalde. Surgiu naturalmente o tão desejado Adrien, mas de Raphael Guerreiro… nada. Constou que o jogador apenas pode prestar declarações aos órgãos informativos da FPF que depois os cede à imprensa. Pergunta pertinente: Será por o jogador estar nervoso? Será por jogar no modesto Lorient? Será por o jogador não dominar bem a língua portuguesa? Será por os repórteres não serem fluentes em francês? Estranhos critérios…


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