Ponto Vermelho
Curem-se as feridas
28 de Novembro de 2014
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Como seria expectável, o afastamento do Benfica da Europa permitiu aos inúmeros palradores da nossa praça debitarem as suas teses absolutistas que já tinham previsto desde o início que aos encarnados iria acontecer esse inevitável destino. Apenas o intenso mediatismo de outros acontecimentos marcantes nesta semana distraiu as atenções, fazendo com que a relevância das notícias e dos comentários se desviasse de alguma forma do foco encarnado. Nada surpreendente atendendo a que a equipa encarnada se pôs mesmo a jeito…

Num período negro da democracia portuguesa em que nada nem ninguém é respeitado e boa parte dos media sem critério, sem freio e sem bom senso se entretem a lançar para a já de si agitada opinião pública uma torrente de notícias e factos sensacionalistas e demolidores, os juízos ponderados andam pelas ruas da amargura e, a continuar assim, tememos que se entre num despautério noticioso sem precedentes em que o mais difícil passará a ser distinguir o que resta da verdade entre um intenso rol de mentiras e patranhadas. A bandalheira já existente em muitos sectores está finalmente a atingir o clímax, denotando a impreparação, a inexperiência e a fragilidade intelectual que caracteriza muitos dos que se encontram acidentalmente na esfera dos vários poderes.

No panorama futebolístico em que estamos inseridos, seria estultícia pretendermos ignorar a relevância da saída prematura do Benfica do quadro do futebol europeu, até porque estava integrado no grupo dos cabeças-de-série da Liga dos Campeões o que, por si só, já seria significativo. Mas a uma jornada do fim ser lanterna-vermelha em definitivo passa a ser ainda mais pertinente. Mas acabou de acontecer e mais do que procurar culpados pelo fracasso, importa sobretudo fazer uma introspectiva e avaliar os erros, tomando em seguida de forma ponderada, medidas condizentes e rápidas para rectificar o que terá falhado, antecipando igualmente os problemas que não deixarão de aportar à costa.

Continuamos, no entanto, a não gostar de partes do discurso. Repetir até à exaustão que o campeonato é a grande prioridade afigura-se-nos ser chover no molhado. Aliás, continuamos a considerar que a insistente hierarquização das prioridades levou a opções incorrectas e influenciou psicologicamente os jogadores e os adeptos. Em rigor, antecipando-se maiores ou menores dificuldades nas várias provas que o Benfica iria disputar, teria sido de bom tom considerá-las (por omissão) em igualdade de circunstâncias lutando para atingir o último patamar em todas elas, ainda que internamente a estrutura tivesse em mente graus de prioridade diversos sempre que a conjuntura viesse a forçar uma opção.

Ao repetir-se o argumento pela enésima vez justamente quando o Benfica acaba de sair da Europa e nas vésperas de um ciclo que se prevê terrível do ponto de vista de desgaste físico e anímico que pode vir a determinar muito do futuro próximo da equipa, parece-nos estar a elevar ainda mais o nível de pressão que é real, dado que neste momento qualquer deslize que possa eventualmente acontecer, pode vir a tornar-se num factor contundente dada a componente psicológica associada. Na realidade, num clube como o Benfica, não se pode entregar uma parte importante da comunicação a quem não nada nessa praia

Quem se entretiver a analisar todo o percurso do Benfica esta época e quiser ser justo, não pode deixar de reconhecer que aparte a saída de jogadores que tinham sido nucleares nas conquistas anteriores, o plantel foi fustigado por um conjunto muito alargado de lesões prolongadas em zonas nevrálgicas, situação que se agravou com a partida de jogadores desses sectores. Mas isso não invalida que algumas das opções tenham levantado dúvidas (e não está sequer em causa o potencial dos jogadores adquiridos) se atendermos a que o mercado nacional oferecia, parcialmente, soluções equilibradas e capazes que, à partida, não requeriam tempo de adaptação.

Mas tudo isso é agora passado e já não pode ser remediado. São com as opções que neste momento existem (pelo menos até Janeiro) que o Benfica tem de atacar (e lutar para vencer) as várias frentes internas. Sem cair outra vez na repetição da hierarquização, considerando que todas elas, sem excepção, são para ganhar. Até porque pensam muitos adeptos, se na temporada anterior venceu todas estando na Europa até final, nesta, por maioria da razão, deve perseguir sem hesitação o mesmo desiderato interno.

O plantel era diferente e mais categorizado? Ah pois era, mas Matic saiu em Janeiro e Garay, Rodrigo e até Cardozo só sairam no fim da época. Mesmo admitindo saídas na próxima janela do mercado, vai haver a recuperação dos lesionados o que vai equilibrar a equipa. Sendo um cenário ainda a alguma distância, podemos pensar todavia nessa equação e acreditar que poderemos vir a ter um cenário próximo do registado na última temporada. Contudo, a saída da Europa nas circunstâncias em que aconteceu será sempre um marco indelével a pesar na carreira do Benfica em toda a época presente. Por mais que se tente esquecer!




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