Ponto Vermelho
Contradições nostálgicas
30 de Novembro de 2014
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Grande foi a evolução registada em todos os aspectos associados ao futebol. Nuns casos de franca melhoria como por hipótese as condições oferecidas nos estádios, mas noutros de flagrante agravamento como o aumento exponencial da bilhética em grande parte fruto da sanha fiscal persecutória governamental que não hesita um segundo para tentar arrecadar receitas para diluir um défice cujas metas duvidamos que alguma vez possam ser alcançadas, não se importando minimamente com as necessidades e vontade dos cidadãos que os elegeram. E dentro dessas necessidades estão, como sempre foi tradição, as idas aos pavilhões e em particular aos estádios de futebol.

Começa aí o grande problema e a grande aventura. Até não há ainda muitos anos, o futebol mantinha os traços e as características originais que o consagraram como o maior fenómeno mundial de massas. A ele podiam assistir ao vivo, todas as pessoas contagiadas pela imprevisibilidade do mesmo e pela paixão, independentemente da condição social, do côr da pele ou do credo religioso. O que era diferente eram as condições de visionamento do mesmo. O luxo e as mordomias dos camarotes, a comodidade das cadeiras ou as abas protetoras da chuva ou do sol tão vulgares nos dias de hoje, eram substituídas pelo cimento frio onde bastas vezes era obrigatório ver os jogos de pé e a céu aberto, desprotegidos de todo. Mas os estádios estavam cheios ao contrário do que acontece nos dias de hoje.

É uma inversão completa do que deveria ser e uma contradição infelizmente demasiado fácil de explicar. Aqui, aplica-se quase o mesmo princípio que à proliferação de auto-estradas destinadas pelos teóricos a um desenvolvimento das regiões que não passou de mera ilusão. A alternativa às estradas esburacadas e aos dias inteiros de viagem passou pelo surgimento dessas auto-estradas que reduzem de facto o tempo a um terço, sendo que o grande e real obstáculo reside nos adeptos (e não só) não poderem pagar as portagens. Tudo isto e muito mais tem a ver com o futebol e com a forte diminuição de assistências, sobretudo se as equipas que prendem a paixão dos adeptos não estiverem na mó de cima. Quando assim não acontece ainda mais flagrante se torna o divórcio.

Assistir dantes a um jogo de futebol era corriqueiro e quase obrigatório. Os Sábados e sobretudo os Domingos à tarde estavam reservados de antemão para os adeptos e para as respectivas famílias. Era impensável alguém questionar os valores monetários envolvidos discutindo-se apenas, na grande maioria dos casos, se devíamos ir para o peão ou para a bancada-lateral. Ia-se cedo, almoçava-se na tasca ou levando o farnel incluindo o obrigatório palhinhas, partilhava-se com os vizinhos de circunstância das redondezas a alegria do momento. Em suma convivia-se!

Era o tempo em que para assistir a um jogo de futebol não se pagava IVA a 23%, as portagens das (poucas) auto-estradas eram acessíveis e não estavam hipotecadas a consórcios privados, os combustíveis cabiam na bolsa dos cidadãos mais comuns, e a alimentação básica estava ao alcance da maior parte das bolsas. Era o tempo em que o futebol era um desporto popular na verdadeira acepção do termo. Onde não se questionava o que se iria gastar para assistir a um jogo de futebol. E nem sequer estamos a falar dos tempos do Estado Novo mas já de uma época cuja tradição tem ainda relativamente pouco tempo de percurso.

Caminhando-se para um estádio de retrocesso em que o simples facto de respirar corre o risco de vir a ser tributado, a esmagadora maioria dos adeptos não pode deixar de se questionar no presente quanto irá dispender para ver um jogo de futebol ao vivo. Admitindo que a sua conclusão aponta para a disponibilidade, a questão que surge a seguir é se vale a pena e se o espectáculo é susceptível de justificar a sua presença sem hesitações, sabendo previamente que do outro lado vão estar treinadores e jogadores principescamente pagos e, como tal, com condições plenas para justificar o valor do espectáculo. Aparte as incidências e o resultado, partindo-se do princípio que a aleatoriedade do futebol pode introduzir factores que alteram toda e qualquer lógica.

A fria realidade é que num tempo em que se desconfia de tudo e mais alguma coisa, as tremendas dificuldades que nos estão a fazer passar têm uma influência decisiva nas nossas opções. Ainda que estejamos motivados, toda a envolvência de um jogo arrasta atrás de si um conjunto diversificado de problemas sem qualquer garantia de sucesso e isso, mesmo admitindo disponibilidade, pesa sempre na hora de todos aqueles que ainda têm a ventura de poder optar. Para minorar essas dúvidas existenciais seria necessário que as equipas apresentassem níveis condizentes com os custos do espectáculo a quem lhe transmite a alma – os adeptos. É essa justamente a grande questão e talvez isso justique em grande parte o decréscimo das assistências. A começar pelas da Luz.






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