Ponto Vermelho
Insustentável leveza do dislate
7 de Dezembro de 2014
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Vivemos tempos estranhos em que a liberdade devolvida permite todo o tipo de intervenções. Ao abrigo dessa mesma liberdade, produzem-se e inventam-se críticas que em circunstâncias normais seriam completamente ignoradas até desincentivar por completo os arautos da maledicência. Todavia, não é isso que sucede. Se considerarmos determinados parâmetros que têm como denominador comum fazer eclodir o clamor público para atrair as atenções de parte importante das massas ululantes, eis que de assuntos irrisórios se constroem temas que põem a discutir muitas vezes sem saberem exactamente de quê e porquê, comentadores, cronistas, jornalistas e quejandos, ampliando o som das conversas de café e contribuindo assim para a degeneração galopante dos principais valores da sociedade em decadência.

Como se tem vindo a constatar de forma acentuada e precisa, não há sectores que escapem a esse vírus maléfico. Essa tendência fomentada a que cada vez menos pessoas conseguem resistir representa, sob outra capa, os mesmos princípios elementares que outrora distraíam as atenções daquilo que deveria ser verdadeiramente essencial – a resposta aos anseios elementares dos cidadãos, a satisfação das suas necessidades básicas, o melhoramento do seu modo de vida, as esperanças no amanhã e a forma como os seus filhos poderiam enfrentar o futuro sempre incerto.

Dantes era a trilogia dos três FFF’s, hoje é o despautério e a maledicência elevados ao mais elevado grau, o desrespeito por todas as regras, a invasão da privacidade dos cidadãos, a forma capciosa e crescente de transformar o saque descarado ao seu bolso em acções legais. O Estado em grande parte dos seus sectores e das pessoas que o representam, tal como está actualmente, não merece a credibilidade dos cidadãos. Todos nós somos culpados por termos contribuído nem que seja pela inércia para este estado paranóico de degradação moral colectiva em que tudo se critica sem critério, sem objectividade e sem lógica à vista, porquanto ao fazê-lo, não no princípio legítimo e salutar da liberdade de crítica, estamos a contribuir, alguns certamente de forma involuntária, para abastardar de forma decisiva os próprios valores que defendemos.

Quando chegamos ao ponto em que a própria amizade e solidariedade são diariamente questionadas e postas em causa, algo acontece de muito errado na sociedade em que continuamos a viver por não restar alternativa a muitos que, de forma mais ou menos incisiva, contribuiram ao longo das suas vidas para a edificação de um património colectivo, moral e material. É flagrante a impotência e a desilusão que sentem ao ver a delapidação activa dos valores patrimoniais que com tantos sacrifícios ajudaram a construir, por gente que sem qualquer esforço, sem competência, sem qualquer passado e com princípios morais questionáveis, viram cair no regaço. Faz-nos lembrar amiúde os casos individuais que todos conhecemos do dia a dia em que os herdeiros directos desbaratam ao virar da esquina sem quaisquer engulhos ou arrependimentos, todos os activos de uma vida dos seus progenitores.

O curioso é que, com excepção das vozes isoladas de espinha direita neste imenso mar de histeria colectiva, a tendência é de agravamento. Quando se está prestes a conseguir o milagre da desmultiplicação em que para além do ar, do mar e do sol que cada vez mais nos prega maiores partidas nada mais nos restará, deixaremos de ter aspirações colectivas . O que era nosso deixou de o ser a pretexto de algo inatingível como esse papão agitado do cumprimento do défice a coberto do qual se vão cometendo as maiores loucuras e injustiças de que há memória, sendo que como se pode constatar esse caminho jamais nos conduzirá a bom porto.

Ouvimos com regularidade falar alguns que temos que mudar de política. É rigorosamente verdade. Mas num momento particularmente grave em que os alicerces estão a sofrer abalos telúricos de grande intensidade em que seria preciso em primeiro lugar definir com precisão um enunciado que podesse ser um polo gerador de consensos coerentes quanto aos grandes temas nacionais, o que vemos é grande parte a olhar para o seu próprio umbigo tentando ganhar a melhor posição na grelha de partida. Compreendendo-se que assim seja, é preciso notar que estamos numa encruzilhada em que, desta vez, qualquer má decisão terá consequências devastadoras. Infelizmente, com a mentalidade que continua a prevalecer não se vê maneira de inverter a tendência. Não basta já só mudar de política, pois é preciso mudar também de pessoas…








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