Ponto Vermelho
Viagem ao “bas-fond” do doping portista-II
13 de Dezembro de 2014
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Por EagleView

Prosseguimos com a publicação deste tema.
Dois dias depois… "Casagrande recebeu vários telefonemas de Portugal a pedirem para se calar e esquecer este assunto do doping", escreveu o diário generalista "Correio da Manhã" com base numa fonte próxima do ex-jogador brasileiro, que afirmou no programa de Jô Soares que tinha utilizado substâncias dopantes quando estava ao serviço do FC Porto, em 1987. A mesma fonte não sabe de quem eram os telefonemas, apenas que tinham como objetivo alertar o ex-futebolista para ficar em silêncio. Sintomático!

Passagem do livro de Casagrande: Existe um pacto tácito pelo silêncio. O recente caso do ciclista Lance Armstrong, lenda do ciclismo mundial, mostra bem a desfaçatez que impera nesse campo minado. Sabia-se já havia algum tempo que o heptacampeão da Volta da França fazia uso de substâncias proíbidas, o que ele negava veementemente, com indignação capaz de comover até inimigos. Jurava inocência e ameaçava processar quem lhe imputasse tal desonra. Por ter voltado a vencer a prova mais importante do ciclismo internacional depois de se recuperar de um cancro nos testículos, pousou como herói até ser desmascarado. Somente quando surgiram provas materiais, incontestáveis, ele meteu a bicicleta no saco e retirou-se de cena.

Apesar dessa cortina de fumaça, Casagrande não se pode furtar a assumir uma passagem relevante na sua carreira. A intenção não é denunciar ninguém, nem difamar qualquer clube — até porque já se passou muito tempo, e a vida segue em frente. Depois de ter admitido tantos pecados publicamente, não faria sentido esconder a própria experiência com doping. Por precaução, para evitar qualquer viés acusatório, vamos omitir nomes e lugares. Afinal, o que importa são os factos.

Em todos os anos que atuou na Europa, Casagrande foi dopado para jogar quatro vezes. Nunca quis, foi sempre contra, mas aconteceu. "Em geral, injetavam Pervitin no músculo. De imediato, a pulsação ficava acelerada, o corpo superquente, com alongamento máximo dos músculos. Podia-se levantar totalmente a perna, a gente virava bailarina... Isso realmente melhorava o desempenho, o jogador não desistia em nenhuma bola. Cansaço? Esquece... se fosse preciso, dava para jogar três partidas seguidas." Esse procedimento acontecia abertamente no vestiário, sem a menor preocupação de escondê-lo de qualquer integrante da agremiação. "Era uma coisa oficial: do treinador ao presidente do clube, todo o mundo sabia."

Só havia o cuidado de acompanhar o atleta até a eliminação da droga pelo organismo, tanto para prestar socorro, caso alguém se sentisse mal ou tivesse algum efeito colateral, quanto para liquidar as provas, embora exames antidoping fossem raros naqueles tempos. "O clube não deixava a gente ir pra casa depois do jogo. Ficávamos concentrados e dormíamos no hotel. No dia seguinte, fazíamos sauna de manhã e dávamos uma corridinha ao redor do campo. Só depois disso nos dispensavam. O uso da substância não era exatamente opcional. Embora não houvesse um aviso formal de obrigatoriedade, isso estava implícito, e quase todo mundo seguia o script. Estava sempre à nossa disposição, mas, nos jogos importantes, parecia obrigatório. Tomar ou não tomar poderia definir a escalação, pelo menos essa era a sensação geral."

Ao contrário do que disse o Dr. Domingos Gomes que seriam vitaminas, o que injectavam nos atletas do Porto, era o Pervitin, que mais não é que uma metanfetamina proibida desde sempre pela UEFA/FIFA.
(Metanfetamina)- Remédio altamente estimulante, à base de anfetamina pura. Teve seu ápice na década de 50. Era indicado inadequadamente para combater a depressão. Qualquer pessoa com 50 anos se lembra do Pervitin, vendido facilmente nas farmácias para quem desejava ou precisava passar noites em claro, dormir pouco ou reduzir o apetite. Foi retirado do mercado pelos seus graves efeitos colaterais: dependência física, alucinações, irritabilidade, taquicardia, ansiedade, forte diminuição dos reflexos. A venda ainda se faz hoje sob a forma de pílulas ou injectável, sendo considerado doping pela UEFA. Ele (Casagrande) não se deparou com essa prática em outros clubes europeus nos quais jogou, é bom ressaltar.

Em recente entrevista ao programa «Sport TV», o jornalista Gilvan Ribeiro, co-autor do livro «Casagrande e seus Demónios», revelou que a parte do livro mais complicada para o ex-jogador foi mesmo a questão do doping, mas que o convenceu da importância de abordar a questão para sua história? «Achei muito importante que entrasse no livro. É um assunto importante, é grave e que marcou a vida dele. Ele se sentiu obrigado a fazer o doping porque era uma coisa institucionalizada desde o presidente até a comissão técnica. Se você não usasse poderia até interferir na sua não escalação. Ele acabou usando o doping, mas sempre foi algo que o incomodou. Para ele é antidesportivo e não queria dar o exemplo para os filhos», explicou Gilvan. «Foi uma passagem que não foi espontânea, mas eu achava importante. Tinha receio da interpretação das pessoas. Meu maior receio no livro é sempre focado em como as pessoas iriam interpretar as histórias ligadas ao doping ou ligadas às drogas», comentou Casagrande. (…)


















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