Ponto Vermelho
Ecos do “inesperado”
17 de Dezembro de 2014
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A história do clássico já tinha sido contada por antecipação vezes sem conta e na sua esmagadora maioria os vatícinios apontavam sempre numa determinada direcção; salvo qualquer anormalidade que pudesse surgir, o FC Porto seria a exemplo do que tem acontecido nos últimos anos, um vencedor declarado do "jogo do ano". Temos que convir que era a lógica a funcionar e sobre isso pouco haveria a dizer – os portistas chegavam de uma fase europeia deveras positiva em contraponto com o seu opositor, com a moral elevada e a vitamina suplementar de estarem a escassos três pontos da liderança. Numa visão simplista poder-se-ia dizer que estavam reunidas todas as condições para atacar sem hesitação o objectivo que estava ali mesmo à sua frente.

Tudo poderia até ter sido atingido se não houvessem os incontornáveis ses. Se Herrera tivesse concretizado nos momentos iniciais, se Júlio César não tivesse encaixado a bola rematada de primeira por Jackson Martínez antes do golo inaugural do Benfica, se a trave e o poste não estivessem lá a delimitar o espaço de baliza em lances de perigo eminente protagonizados pelo mesmo jogador, se Lima tivesse falhado a concretização a exemplo de anteriores desafios, era bem possível que o FC Porto tivesse vencido sem sobressaltos de maior.

Contudo, as coisas não são assim tão simples e socorrer-nos da lógica no futebol pode ser um exercício perigoso e destinado ao insucesso. Esta conclusão a que muitos chegaram antes do tempo tinha a ver com a história mais recente destes clássicos e da forma como Jorge Jesus e a equipa do Benfica costumavam enfrentar estes desafios, em que o FC Porto entrava quase sempre com superioridade de ordem psíquica bem vincada que se traduzia depois numa forma de abordagem bem delineada e que geralmente vinha a consumar-se em vitória no fim de cada prélio.

Essa constatação assente em três décadas de cultura de vitória por um conjunto de razões já por diversas vezes abordados, fez com que se começasse a cimentar a tradição que apontava para uma certa crença enraízada de que em casa, perante o Benfica, o FC Porto para além da sua própria valia como equipa, contava logo à partida, com genes superiores que lhe permitiam impôr, mal cada jogo começasse, uma abordagem que conduzia bastas vezes aos sucessos antecipados. Disso não se cansava de dar eco a imprensa na sua generalidade, facto que se propagava ao espírito dos adeptos.

Do mesmo modo que há que conceder créditos a essa estratégia portista bem sucedida, é evidente que temos que reconhecer alguns deméritos à equipa benfiquista que, com maior ou menor evidência permitia que fosse assumido esse prévio fatalismo acabando por conceder razão involuntária aos que, jogo após jogo, desde logo apontavam a equipa portista como grande candidata à vitória final. Mesmo até na menor parte dos casos em que a posição do Benfica se encontrava em situação de previlégio competitivo. Como por exemplo no penúltimo encontro para o campeonato. Fixar esse fluxo positivo como inalterável começava a ser um ponto de honra para o FC Porto para poder manter essa tradição recente que atingiu o clímax no reinado de Jorge Jesus.

Não nos poderemos esquecer todavia, que para além dessa evidência, alguns sinais vinham sendo transmitidos cada vez com maior intensidade, que começavam a revelar que a propalada hegemonia portista vinha dando mostras de algum abrandamento e de um certo desgaste. Se olharmos para a última metade da década constatamos sem grande dificuldade (excepção feita a 2010/2011), que as dificuldades que o FC Porto tem sentido contrastam com a facilidade com que fugia ao Benfica logo nas primeiras jornadas de cada campeonato, limitando-se a gerir a partir daí de modo tranquilo, o percurso até final. Isso começou a ficar mais nítido nas últimas três temporadas.

A vitória encarnada consumada no último Domingo insere-se pois na conclusão de mais uma etapa cujo muro psicológico importava derrubar. Em jogos desta dimensão competitiva há que restabelecer uma lógica que transmita uma certa imprevisibilidade a este tipo de encontros devido à sua natureza, e não previsões alargadas que consagrem uma superioridade antecipadamente garantida de uma das equipas. Por isso mesmo, este último êxito encarnado não se esgota nos três pontos conquistados e na quebra das estatísticas; pode vir a representar a quebra de uma barreira importante, para contestar de vez com factos a hegemonia portista das últimas três décadas.

Atribuir um eventual demérito portista apenas e só a Lopetequi parece-nos demasiado redutor. Recordar anteriores jogadores azuis e brancos como símbolos do querer portista é regressar a um passado que teve muito mais para além disso. Todos os factores terão porventura quota-parte na nova face azul e branca, sendo difícil à própria estrutura e aos adeptos habituados a um ciclo prolongado de vitórias, aceitar a inevitabilidade que representa o evoluir dos tempos e a alteração das condições e das possibilidades em que assentou grande parte dos seus êxitos. Todos os ciclos, mais ou menos prolongados, têm necessariamente um começo e um epílogo, sendo que o mais importante é conseguir prever o seu fim inevitável. O tempo dar-nos-á conta se se virá a confirmar o fim de um ciclo que já dura há mais de três décadas…




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