Ponto Vermelho
Os burros e a arbitragem
23 de Janeiro de 2013
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A qualquer pessoa menos familiarizada com as artimanhas congeminadas nos bastidores do futebol português poderá parecer estranho que dirigentes desportivos que por acaso lideram os principais clubes nacionais venham falar de burros directamente ligados à arbitragem. Embora a característica principal do simpático quadrúpede seja a teimosia e daí o uso frequente da expressão teimoso que nem um burro. Tudo a propósito da menina que sempre encantou os olhos, os ouvidos e a vontade de Pinto da Costa desde que iniciou a sua viagem à frente dos destinos do FC Porto já lá vão tantos anos...

Sempre que ao abrigo de mais um roubo de igreja, uma expressão popularizada por José Maria Pedroto que amparou durante algum tempo o presidente portista nos seus desejos hegemónicos com o Benfica a fazer o papel de vítima e alguém da estrutura encarnada manifestava o seu direito à indignação, ouvíamos amiúde algumas cantigas de escárnio e mal dizer e não raras vezes a fina ironia com epicentro no decano presidente portista então no auge da sua forma, reflectindo que os benfiquistas eram burros pois só falavam na arbitragem por despeito e quando julgavam que eram prejudicados nos resultados. Sempre que aconteciam os tais roubos cíclicos e o Benfica reagia como lhe competia, lá tínhamos que ouvir a mesma ladaínha.

O 'Apito Dourado' por mais que os da situação tentem provar que não aconteceu, apenas e só fez alguns arranhões no Sistema. No fundo veio acelerar a necessidade de ajustar algumas peças e actualizar alguns procedimentos dada a evolução dos tempos e haver cada vez mais gente atenta ao fenómeno. E o advento das redes sociais foi de facto um dos piores inimigos dado que se começou a tornar impossível controlar toda a informação. Mas, a sua génese manteve-se sem alteração porque os tentáculos eram fortes, estavam bem colocados e sempre prontos a acudir a uma eventual aflição. Não foi pois de estranhar que a montanha tivesse parido um ratinho e nada de substancial se tivesse alterado para melhor. Basta observar os factos e os acontecimentos desde então.

A entrevista que Pedro Proença concedeu em finais de Dezembro, pode-se considerar desassombrada para os padrões a que estamos habituados mas foi certamente pensada e amadurecida pelo juiz lisboeta. O que disse explicitamente e nas entrelinhas, provou que muitas das preocupações que foram objecto de discussão no âmbito do já citado processo se mantinham inalteráveis, com os observadores a continuarem a assumir um papel de charneira no mundo da arbitragem e a influenciarem as actuações dos árbitros, dado que a vastidão de interesses é de tal ordem que qualquer juíz de campo acaba em tese e muitas vezes de facto, por entrar condicionado para arbitrar um jogo. Porque os observadores mantêm quase um poder discricionário para darem notas e alterá-las sempre que recebem indicações do Sistema para beneficiar ou prejudicar este ou aquele árbitro em função de interesses alheios. Alguns casos têm vindo a público o que indicia que estamos na presença de um gigantesco icebergue que ameaça a cada passo o futuro de cada um.

No excelente trabalho de investigação que o jornalista Carlos Rias do jornal 'A Bola' levou a cabo e que é hoje publicado nas páginas daquele diário, dá para perceber de uma forma clara, tudo aquilo que era divulgado de uma forma avulsa e que por vezes era confundido com rumores. É impossível afastar suspeições quando os casos são tão evidentes. Veja-se por exemplo o caso de Carlos Xistra no Académica-Benfica em que lhe foi atribuída pelo observador uma nota de 3,9 depois do deplorável trabalho a que se prestou conforme opinião unânime dos observadores independentes, no mesmo jogo da época transacta com Hugo Miguel que foi contemplado com nota 2,1 mas um reparo influente feito a tempo e horas para que reclamasse deu origem a ter melhorado a nota para 2,5 o que o alcandorou a internacional em detrimento do tão vilipendiado Bruno Paixão que viu a sua nota descer em flecha para permitir a subida de Miguel.

Segundo informação veículada na peça de Carlos Rias, a classificação para a próxima época deixará de assentar basicamente na classificação dos observadores que passam a ser escolhidos através do critério estabelecido pelo Presidente da Comissão de Arbitragem Vítor Pereira, o que promete dar azo a uma enorme controvérsia. Porque, como se sabe, não existem critérios infalíveis sejam eles quais forem desde que sejam estabelecidos ou neles tenha intervenção o factor humano. Vamos esperar para ver, mas a actual situação é manifestamente insustentável e resulta claro que continuarão por todos os motivos aflorados no artigo do jornalista, os critérios díspares e duais sejam eles técnicos ou disciplinares e a decisão do campeonato pode vir a correr sérios riscos de vir a ser mais uma vez adulterada. É talvez por isso que temos assistido deliciados a burros que não o eram e estão a sê-lo agora e outros que eram apelidados de tal e deixaram de o ser. Como as coisas mudam...








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