Ponto Vermelho
Novo ano, vida velha?
2 de Janeiro de 2015
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Ao abrigo da tradição é da praxe formular votos para o novo ano que acabamos de atingir. Votos pessoais porque de uma forma geral há em cada um de nós um sentimento egoísta, mas também para aqueles que conseguem ultrapassar essa questão circunscrita e alargam de forma generosa e solidária os seus desejos a um universo mais alargado. Para esses que são cada vez mais em menor número, o reconhecimento para o seu espírito aberto e solidário pois aquilo que devia constituir a normalidade acaba afinal no honroso campo das excepções em que este estranho mundo acabou por transformar as excelsas gentes.

Posto isto vamos aos desejos desportivos dos adeptos. Não temos a menor dúvida de que os adeptos clubistas quererão para o seu clube o melhor dos mundos. Um desejo bastas vezes não exequível mas que deve ser entendido como uma meta a atingir custe o que custar. Como nem todos poderão subir ao lugar mais alto do pódio, é certo e sabido que os mais radicais quase nunca conseguem digerir um eventual fracasso que, a acontecer, atribuem sempre à menor capacidade da estrutura, assestando críticas nem sempre justas e equilibradas. Mas a paixão nem sempre consegue ultrapassar lógicas evidentes à vista de toda a gente.

No tocante ao campeonato são diferentes os estados de espírito com que os adeptos dos três grandes enfrentam o próximo futuro. Enquanto o Sporting, depois de um breve interregno, volta a activar o comando que conduz à confusão e ao auto-suicídio e o FC Porto mantêm viva a chama da esperança amplamente demonstrada na multidão que assistiu ao primeiro treino de 2015, o Benfica apresta-se para uma nova etapa alicerçada em seis confortáveis pontos de avanço o que, não constituindo de nenhuma forma uma almofada segura e decisiva, ainda assim indicia uma tranquilidade que pode e deve ser aproveitada sem qualquer hesitação no caminho encurtado a percorrer.

Esperanças renovadas é um desiderato dos adeptos estribados numa conjuntura que, ao abrigo da tese da paixão, muitos encaram como favorável. Todos será porventura um exagero se considerarmos o estado de coisas que atingem os nossos vizinhos que continuam a não se conseguir libertar do síndroma natalício ao voltarem a enveredar pela auto-flagelação que se chegou a admitir ter sido sido erradicada de Alvalade de modo definitivo. Pelo que tem sido possível observar não foi, e isso é um factor preocupante e desestabilizador que nunca se sabe como vai acabar tendo em conta as circunstâncias que rodeiam mais esta novela de baixo calibre.

Continuamos pois a dissertar sobre as agruras do destino verde quando deveríamos estar a preocupar-nos com coisas positivas em perspectiva. Vencer quando os outros se auto-debilitaram não tem nem pode ter, o mesmo sabor que vencer em competição disputada palmo a palmo. Só assim para além do incontestável melhor sabor se pode ter a certeza que houve real evolução, um dos objectivos que deve sempre ser perseguido sem desfalecimento por qualquer estrutura. A cada momento devia ser testada a capacidade de resposta de cada clube mas, aí, apenas se observam paixões idílicas bastas vezes desfasadas da realidade.

Este romance que tem florescido em Alvalade e que contém todos os ingredientes para acabar mal, acaba mais uma vez por provar a tendência que os sportinguistas possuem para se auto-mutilarem numa guerra de egos sem sentido que acaba por não poupar ninguém. Depois de uma conjugação que alinhou os astros numa conjuntura que até nem era previsível e que acabou por constituir, afinal de tudo, um achado de dimensões assinaláveis, fazemos uma pequena ideia de como os adeptos sportinguistas se devem sentir neste momento depois de ultrapassada uma das piores fases do seu passado recente.

Como é óbvio, só eles conseguirão ou não afastar as sombras negras que pairam de novo sobre o seu céu, depois do desencadear das hostilidades por parte do seu presidente e potenciadas pelos seus homens de mão que têm ultrapassado em muito as mais elementares regras do bom senso e do sentido de responsabilidade. Eles lá saberão porquê, mas o facto óbvio é que esta contínua agitação representa um óptimo serviço prestado aos próprios adversários internos e não só, que cada vez mais fazem ouvir as suas vozes num mundo de memória escassa. Isso acaba por dar força aos que, desde sempre, se interrogaram sobre se Bruno de Carvalho tinha a capacidade e o discernimento suficientes para empreender um virar de página definitivo na conturbada história do Sporting nas décadas mais recentes. As dúvidas estão a crescer exponencialmente…






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