Ponto Vermelho
Linguagem da bola…
14 de Janeiro de 2015
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1. Já foi dito e redito mil vezes que a liberdade é dos bens mais preciosos que o ser humano pode disfrutar. Para as novas gerações isso não lhe dirá grande coisa porque felizmente sempre a conheceram, mas para quem experimentou o outro lado da barricada e dela foi privado, o sabor é demasiado amargo para que alguma vez possa ser esquecido. É evidente que há muitas formas de privação da liberdade mas não é o tempo e muito menos o modo para entrarmos nesse tipo de discussões filosóficas. Fiquemo-nos portanto pela assumpção genérica do conceito.

2. O futebol como desporto de reacções expontâneas e imprevisíveis, é tido como um acontecimento que revela a par da sua beleza incomparável como imagem de marca, o lado mais animalesco do ser humano. Não são raros os exemplos de pessoas intelectualmente bem formadas e mentalmente desenvolvidas que, em momentos de maior tensão futebolística assumem posições inesperadas publicamente que dão a conhecer o outro lado da personalidade do indivíduo. Nenhum adepto clubista que viva o seu clube com proximidade pode afirmar, em teoria, que será imune a manifestações exacerbadas, em particular o uso de interjeições suscitadas pelo erro de um qualquer árbitro contra as suas cores ou do falhanço incrível de um jogador da sua própria equipa. Tudo isso acaba por ser normal se o situarmos no contexto que estamos a abordar.

3. Os dirigentes dos clubes sabem-no e, como tal, são por vezes compelidos a fazer um esforço suplementar de contenção pública, porquanto qualquer expressão menos correcta e mais inflamada, por mais razão que lhes assista, tende a inflamar os adeptos mais radicais, mais a mais quando o panorama vigente está muito longe de registar padrões sociais tidos como minimamente aceitáveis, sobretudo para um país europeu que é membro da UE desde 1986. Logo, muito embora tenhamos tido muitos exemplos negros no passado futebolístico das últimas três décadas protagonizados por intérpretes sobejamente conhecidos, não poderemos continuar a evocar essa realidade de triste memória ad eternum para justificar as diatribes do presente.

4. Mau grado tudo isso, há quem interiorize e assuma que a liberdade individual é ilimitada e que a fraseologia tudo permite mesmo que isso colida, a cada passo, com a liberdade alheia no nosso quotidiano. Teremos sempre dificuldade em aceitar que assumidas personalidades em termos públicos, utilizem linguagem que ultrapassa parâmetros aceitáveis de urbanidade e de educação, apenas e só porque usam a linguagem do futebol ou em resposta a alguém que igualmente se excedeu utilizando frases e/ou expressões inapropriadas. Para isso, sem perder a eficácia que lhe está subjacente, há formas e locais mais apropriados para o fazer.

5. Regularmente é-nos dado observar manifestações de boçalidade assumidas por gente fora da massa anónima. Que tal deveria ficar circunscrito a quem as profere ou pratica e aos eventuais alvos a atingir é uma questão que não sofre a mínima contestação. Na prática todos sabemos que não é assim. Daí a proliferação acentuada de pasquins sejam eles jornais, revistas ou programas televisivos os quais, se alimentam e regozijam com esse pasto. E não por acaso, pois está justificado pelo interesse coscuvilheiro que desperta em muitas mentes ávidas de banalidades que aumenta se as mesmas roçarem a grosseria…

6. Num passado não muito distante, o presidente do FC Porto foi um fiel intérprete desse estado de coisas que numa expressão alinhada e subserviente da generalidade dos media adquiriu o conceito de fina ironia, ao abrigo da qual foram proferidos os maiores despautérios que por serem públicos foram ficando registados nos anais da história do futebol em Portugal. Mais recentemente, encerrada que está por ora a dinastia dos viscondes, foi-nos dado a constatar que havia um talento a emergir em que um dos objectivos parece ser o de rivalizar, nesse particular, com a decana personagem.

7. No seu ainda curto mandato, bastas vezes tem-se dado ao luxo de dizer e repetir frases e expressões que ultrapassam em muito o conceito de liberdade mesmo a da bola, pois a despeito do descontrolo emocional e do abastardamento em que hoje se vive, há regras e sobretudo limites para os cidadãos, em particular daqueles que são figuras públicas e devem começar por dar o exemplo. Quando se excedem como tem sido manifestamente o caso, há órgãos que existem para exercer fiscalização e decidir punições sobre esses excessos. Foi por isso com naturalidade que vimos a Liga abrir processo disciplinar ao presidente leonino por declarações abrasivas sobre vários agentes desportivos, mas foi com enorme surpresa que vimos o processo ser arquivado. É um precedente perigoso porque ao ser tomada a decisão de arquivamento, incentiva outros agentes a proceder de igual forma qual bola de neve. Todavia, vindo de quem vem não nos admira, sendo que começa a ser mais ajustado colocar o in como prefixo no nome de alguns órgãos…






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