Ponto Vermelho
Uma velha questão…
16 de Janeiro de 2015
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As dificuldades crescentes que a Selecção portuguesa tem vindo a encontrar para alargar a sua base de recrutamento têm sido recorrentes, uma situação que no consulado do anterior seleccionador atingiu fases preocupantes por motivos bem conhecidos. Melhorou nesse particular com a chegada de Fernando Santos mas, no essencial a questão que preocupa os portugueses do futebol mantem-se viva e actuante, se olharmos para o todo da floresta que tem vindo a sofrer uma desflorestação acentuada. Quando o leque de recrutas se estreita o aparecimento de novos talentos é ainda mais difícil.

É consensual que Cristiano Ronaldo a nossa maior vedeta futebolística da actualidade, mesmo considerando os altos e baixos que sempre registou ao serviço da Selecção, tem vindo a disfarçar muitas debilidades e tem resolvido muitos problemas do seleccionado luso, contribuindo assim de forma decisiva para a excelente posição que, mau grado tudo, Portugal ocupa no ranking da FIFA. É da mais elementar justiça reconhecer esse importantíssimo contributo que paradoxalmente tem criado uma falsa ilusão em muitos adeptos.

Mas o jogador não é eterno, e apesar de estar na plenitude dos seus recursos consubstanciados no período de grande fulgor que está a atravessar traduzido na chuva de prémios individuais que tem alcançado nos tempos mais recentes, começa a não ser propriamente um jovem futebolisticamente falando. Já sem considerar que numa profissão tão aleatória como é o futebol, a possibilidade de lesões (longe vá o agoiro) é sempre um factor que não deve nem pode ser menosprezado. Isto embora tenha saído praticamente incólume até ao momento.

Esta fase marcante para o jogador e para Portugal está a coincidir com um período em que tanto se fala de formação e das possibilidades que se poderão abrir com talentos emergentes que começam a despontar nos vários clubes, os quais nos últimos anos têm vindo a trabalhar muito e bem na detecção e potenciamento de jovens nos vários escalões etários. Para além dos 3 grandes que têm outras infraestruturas e possibilidades, é com bastante agrado que vemos diversos clubes a desenvolverem um trabalho profícuo na área, dando já luta aos principais clubes nos vários escalões, cuja exemplo último é o Real Massamá que se apurou para a fase seguinte do escalão de Juvenis deixando o Sporting pelo caminho. Situação impensável até há pouco tempo.

A velha questão que se coloca é o que fazer com os eventuais talentos que sobressaiam e a resposta a isso, como temos visto, não tem sido tarefa fácil. Pelo contrário reflecte-se de grande complexidade, porquanto a transição para o patamar profissional está recheada de escolhos e de novas situações que os jovens nem sempre são ou estão preparados para ultrapassar. É um tema sempre actual numa fase em que perante uma conjuntura económica e financeira adversa se fala abertamente do aproveitamento que é preciso fazer da Formação, a começar por Luís Filipe Vieira que tem vindo a alertar e a insistir cada vez com maior frequência nessa possibilidade se tornar real.

Como seria previsível as posições divergem e nalguns casos extremam-se. Havendo um largo consenso que os clubes deveriam apresentar nos plantéis e nas suas equipas jogadores portugueses em número crescente, a realidade é bem diversa, com a excepção que é sempre chamada à colação; o Sporting. Mas sendo que os adeptos clamam pelo óptimo (ganhar com jogadores portugueses) em detrimento do bom (vencer não importa a nacionalidade), esse desejo legítimo que poderia ser subscrito por muitos encontra na prática dificuldades de monta, bastando olhar para o número de títulos alcançados pelos leões de há largos anos a esta parte. E isso obriga a reflectir.

Acresce que o modelo em que assenta a gestão desportiva do Benfica tem, como se sabe, vindo a apontar noutro sentido, atendendo que a competitividade desportiva obriga a um esforço acentuado e a um equilíbrio constante na sua gestão de tesouraria para manter toda uma estrutura em que o profissionalismo tem que estar presente em todas as áreas. E isso, para além do fair-play financeiro que tem que ser respeitado custa dinheiro. E aí tem sido preciso recorrer às receitas extraordinárias obtidas com a venda de jogadores.

Pese embora o sucesso alcançado, as dificuldades parecem perfilar-se cada vez mais no horizonte, havendo indícios de que terá que haver ajustamentos no futuro para antecipar problemas que poderão surgir. Até porque, a aposta crescente na Formação encarnada, origina gastos acrescidos neste sector, havendo que encontrar o ponto de equilíbrio. No que toca à transição se compararmos com tempos mais recentes, constata-se evolução. Importa agora reunir todas as condições para que dentro de algum tempo possamos sentir que a aposta valeu a pena e é uma realidade irreversível. Não será fácil mas estão lançadas as sementes que haverão, assim o esperamos, de florescer num futuro próximo. Atingido esse ponto que beneficiará o Benfica e dará motivação aos jovens, fica também aberta a via que poderá também alargar o campo de recrutamento da Selecção. Mas que ninguém conte com facilidades!




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