Ponto Vermelho
Marinho Neves-Testemunhos-I
20 de Janeiro de 2015
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Por EagleView

Num tempo em que a liberdade de informação sofreu um duro revés em Paris com a violência que foi exercida sobre profissionais do jornal satírico 'Charlie Hebdo' e que acabou em tragédia, é altura de recordar Marinho Neves (MN) e a sua cruzada contra a corrupção existente no futebol português. As linhas que se seguem constituem por isso uma homenagem a um dos jornalistas portugueses mais corajosos e o primeiro a revelar e denunciar o maior escândalo de corrupção na História do país mais antigo da Europa.

Poder-se dizer, em absoluto, que "sofreu na pele e na carteira, por várias vezes, as consequências da sua audácia por ter tido a coragem de denunciar a Máfia portuguesa instalada. Corrupção essa que dura de forma mais visível há mais de 30 anos, sem que o poder judicial, policial ou político tenham feito o que quer que fosse para lhe pôr cobro. Pelo contrário, foram e ainda são cúmplices dessa corrupção que tem minado a sociedade portuguesa ao longo de mais de uma geração com as implicações sociais, económicas e políticas gravíssimas que têm ajudado e contribuido para mergulhar o país no buraco de que dificilmente irá sair.

Muitos jornalistas tentaram anos atrás denunciar e expôr a Mafia que corrói o futebol. Mas foram ameaçados e espancados pelos capangas do Clube Porto (cujo nome oficial é Corpo de Segurança Privado). MN foi um corajoso jornalista. Escreveu o livro "Golpe de Estádio" onde de forma romanceada conta a história da Mafia com nomes falsos. Antigo jornalista do extinto 'Norte Desportivo' e 'Gazeta dos Desportos' já o desancaram várias vezes, para o silenciar. Colaborou com a SIC nos 'Donos da Bola'. O livro teve algum sucesso há uns anos, mas agora está praticamente esquecido.

Nesse particular MN teve azar no país onde nasceu. Tivesse nascido nos Estados Unidos e estava rico. Tivesse nascido na Rússia e já não estava vivo - mas essa é outra história... O autor do primeiro best-seller do futebol luso, o famoso "Golpe de Estádio", sempre foi um repórter de mão cheia. Fui seu colega de banca muitos anos e conheço a seiva que lhe corre nas veias e o gosto pela reportagem que tem. Desde que a 'Gazeta dos Desportos' acabou, depois de comprada pelo senhor Berardo (já dono do concorrente 'Record'), MN teve muitas dificuldades em encontrar um lugar num jornal. Porque é uma pessoa incómoda e as redacções estão cheias de comissários políticos. Eu próprio fui na conversa de alguns e não o levei para o '24 Horas' quando o projecto estava a arrancar - e não estive bem.

A verdade é que o MN é um repórter anacrónico. Não cabe nos jornais demasiado formatados de hoje e fica desfocado na fotografia de família que junta presidentes, jornalistas e restantes primos do futebol. Emendo: não é o Marinho que é um jornalista anacrónico, o jornalismo que hoje se faz é que é... Como já aqui disse, o MN não é perfeito, tem os seus defeitos - mas de falta de coragem ninguém o pode acusar, muito menos os cobardolas que se acolitam nas redacções e que reproduzem fielmente a voz do dono. Lá virá o dia em que MN assumirá finalmente a autoria do trepidante "Blog da Bola". Ou será que esse vai ser mais um segredo tão bem guardado que todos os conhecem, tal como o "Golpe de Estádio".

Aquando do escândalo do 'Apito Dourado', muitos foram os que profetizaram o declínio do FCP em termos de domínio dos meandros da arbitragem. Devem ser os mesmos que estão convencidos que, uma vez PC reformado, o Sistema vai desaparecer, como por artes mágicas… Sinceramente, nunca tive tais ilusões. E infelizmente, após um breve período de descontrolo, o Sistema voltou a recuperar e as coisas retrocederam. Se juntarmos a isto a simples observação de quais os árbitros que são promovidos ou despromovidos; ou o facto curioso de, depois da tal reunião secreta entre a direcção do FCP e o Conselho de Arbitragem em que teriam sido vetados Bruno Paixão e Duarte Gomes, nunca mais estes árbitros terem apitado o Porto, somos obrigados a concluir que as coisas ainda são o que eram…

Como ultrapassar este estado de coisas? Não me parece que a profissionalização dos árbitros ajude muito. Tenho para mim que, enquanto o Conselho de Arbitragem depender da Federação, ou seja, de forma indirecta, dos clubes, vai ser muito difícil que as coisas melhorem. Por isso advogo há vários anos que o Benfica, como maior clube português, deveria liderar um movimento tendente a alterar definitivamente uma situação que agrada a uns quantos mas não seguramente à grande maioria." (...)






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