Ponto Vermelho
Até Bernardo!
22 de Janeiro de 2015
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A venda de Bernardo Silva ao Mónaco anunciada pelo Benfica, não colheu totalmente de surpresa o universo encarnado. Era uma situação admissível face à demonstração do seu potencial e tendo em conta a política seguida pela gestão encarnada na difícil conjuntura que atravessamos. Apenas ganhou mais realce por se tratar de um jogador que encarna a mística do Benfica onde começou muito jovem, por ter qualidades inatas que o poderão tornar num jogador de grande sucesso no futuro e, a parte mais poderosa e impactante, por sempre se ter afirmado benfiquista dos quatro costados.

Natural portanto que a sua partida a título definitivo tenha mexido com o mundo encarnado sobretudo o mais jovem que reage de forma mais intempestiva e emocional. Não fulanizando a questão, diríamos que a alienação do seu passe pode ser observada de vários ângulos, existindo em cada um deles uma quota-parte de razão. Mas sendo um facto consumado, de pouco adianta agora estarmos a prolongar a discussão sobre a bondade ou deméritos do acto em si. É indesmentível que a nossa parte emocional não pode ser desligada do contexto.

Num momento em que oportunamente foi posto cobro ao folclore da janela de aquisições encarnada, os lesionados estão de forma gradual a regressar ainda que de imediato Gaitán tenha ingressado no clube e o Benfica esteja na mó de cima do campeonato, é evidente que todos os temas com potencial tenderão a ser explorados. Daí que, por exemplo, quando o derby em Alvalade começa a perfilar-se no horizonte, a simples constatação da realidade observada por Jorge Jesus foi de imediato transformada em polémica a que não faltou sequência do outro lado da 2.ª Circular.

O tema Bernardo Silva deve pois estar a abrir o apetite voraz dos opinadores que conhecemos. Na impossibilidade de desmontarem um bom negócio financeiramente falando, o caminho é fazerem incidir o foco sobre mais um pretenso rotundo fiasco desportivo no aproveitamento da Formação. Não havendo mais lugar para lirismos onde o grosso da coluna faz do vencer o seu único objectivo, é preciso olhar e compreender o presente, as exigências e as dificuldades que se colocam, bem como os desafios que dele emergem para sustentabilidade futura.

Em termos românticos não haverá benfiquista que não defenda uma equipa maioritariamente composta por portugueses e de preferência oriundos da Formação. A questão que se coloca é: neste momento tendo em conta a conjuntura e a realidade do Clube existem condições para isso? Do nosso ponto de vista não devido a um conjunto diversificado de razões. Mas isso não impede que deva ser manifestado o desejo e vontade de ver aproveitados na equipa principal de forma gradual, os valores que depois da fase de maturação, possam emergir da Formação. A resposta está na fila de espera a aguardar concretização.

Bem sabemos que a realidade é complexa. Para além de múltiplos factores, hoje em dia os talentos começam a ser assediados desde os escalões mais jovens por clubes estrangeiros de nomeada que prometem desde logo um ror de situações cor-de-rosa, a primeira das quais é o acenar com ordenados chorudos que fazem a cabeça dos miúdos devidamente convencidos por empresários, agentes, familiares e quejandos. Foi assim que vários clubes incluindo o Benfica têm visto partir alguns sem retorno. Veja-se por exemplo o que está a passar-se com o ainda júnior Romário Baldé.

Aainda que sem poder controlar todos os vectores mas cônscio da realidade, o Benfica tem vindo a tomar medidas e a transmitir sinais de que olha para a Formação como um sector emergente em que é preciso apostar, conjugando a realidade com a necessidade. Falta a concretização do que é tido como inevitável. Do nosso ponto de vista, enquanto o projecto não entrar em velocidade de cruzeiro a resposta a ofertas tentadoras não pode ser menosprezada. E nem mesmo depois disso. O Benfica luta com a concorrência desleal patrocinada pela FIFA e UEFA e, como tal, vender para equilibrar e cumprir os parâmetros financeiros definidos terá de ser uma premissa que não pode ser ignorada.

Foi o caso de André Gomes e de Bernardo Silva. Ambos demonstraram potencialidades desde a primeira hora com o primeiro a beneficiar de várias chamadas à equipa principal ainda que de forma intermitente, e o segundo de forma mais fugaz. Nunca, portanto, com utilizações regulares. Uma das hipóteses teria sido o empréstimo a um clube da I Liga mas isso podia não ser suficientemente apelativo para além de criar, como se sabe, constrangimentos por insuficiente regulamentação da matéria, e o outro seria como aliás de verificou, irem competindo na equipa B. Aqui também havia os seus contras porquanto, aparte as ambições pessoais dos jogadores, no seu patamar seria importante desenvolverem-se num ambiente mais competitivo. Daí a opção por Ligas estrangeiras.

A transição de jogadores sempre foi e sempre será uma incógnita. A evolução nem sempre decorre de acordo com as expectativas (por ex. Nélson Oliveira), sendo que a situação que parecia mais ajustada seria o empréstimo sem opção de venda. Isto partindo do princípio que os clubes estrangeiros aceitam empréstimos nessa condição o que como se sabe não é assim tão líquido. Seja como for a decisão da gestão apontou para a sua venda o que sendo um óptimo negócio do ponto de vista financeiro, no reverso da medalha – a parte desportiva – fica um certo vazio com a sua partida, pois foi com mágoa que vimos partir um jovem com o seu talento e potencial. No entanto, também sabemos que os novos horizontes e realidades, por serem apelativos, permitirão uma rápida adaptação. Que tenha sucesso é o que esperamos mantendo a convicção de que há sempre um amanhã…


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