Ponto Vermelho
A velha questão do ‘chover no molhado’
19 de Fevereiro de 2015
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Com a cadência ritmada de situações em que não se regista, por parte de quem deveria assumir atitudes e agir em conformidade com a gravidade que os acontecimentos requereriam, vamos tendo ciclicamente episódios lamentáveis que envergonham o desporto português aos olhos de todos com o futebol como expressão mais popular e mediática a erguer a bandeira da triste liderança. Mais do que lamentar e condenar os factos ocorridos, a questão que se coloca e deveria ser prioritária, era a de engendrar soluções que antecipassem acontecimentos de algum modo previsíveis e susceptíveis de virem a ocorrer. Uma simples questão de prevenção em detrimento da corrida (?) atrás do prejuízo.

Como isso teima em não ser feito vá lá saber-se porquê, após os factos se registarem, perante o silêncio sepulcral das entidades competentes (Governo, Federação e Liga), explora-se até ao tutano a culpa dos dirigentes e adeptos não importando a cor das camisolas e, como uma reacção provoca sempre outra de sinal contrário, a imprensa alimenta e explora o assunto da forma que mais lhe convém, sendo que no final, os pratos da balança acabam quase sempre equilibrados. O despoletar da questão aponta para alguém que terá alegadamente dado o pontapé de saída que motivou da parte contrária a resposta condizente senão mesmo desproporcionada, condenando-se as partes excepto quem enfatiza e explora. Passado algum tempo (pouco) a poeira assenta, tudo volta às origens e fica esquecido, ficando a aguardar-se as cenas dos próximos capítulos. Que poderão ser mais ou menos condimentados…

No entretanto, culpa-se o dirigente X porque não fez o que deveria ter feito ou, no reverso, o dirigente Y pelo que fez e não devia ter feito, com os problemas de fundo de novo a serem adiados. Durante a filmagem destas cenas a opinião pública vai sendo intoxicada com factos avulso a apimentar os anteriores sabiamente administrados a conta-gotas, e aos adeptos dos diversos lados da barricada vão sendo fornecidas achas e incentivados a manifestarem opinião que surge extremada nos próprios órgãos que a fomentam com argumentos irrisórios e estapafúrdios. É como sabemos frequente a utilização de linguagem ofensiva e insultuosa que obviamente os cataloga, mas ainda menos dignifica os órgãos de informação que estranhamente lhes dão guarida.

O curioso é que ouvimos alguns profissionais da imprensa a criticarem (e bem) esse estado de coisas, mas a nada fazerem para evitar tais desmandos. Percebemos na perfeição a sua contradição e porque o permitem, mas convinha que fizessem um pouco mais de esforço para não serem tão descaradamente hipócritas. Mas este é apenas um dos vectores das actuais posições que alguns pretendem manter no limite, pois o essencial e mais importante desta questão abrangente e transversal, está muito para além da exploração e especulação a que se devota alguma imprensa sensacionalista para levar a água ao seu moinho.

Resulta claro na estratégia que enquanto se atiram pedras para o quintal do vizinho e este as devolve e se dá ênfase às suas reacções, se menorizam e afastam as responsabilidades e as acções que deveriam ser empreendidas. Enquanto se conseguir ir passando pelos intervalos da chuva sem se molhar, vai-se prosseguindo no caminho do laisser faire…, porque se sabe de antemão que em caso de novo conflito que pode surgir a qualquer instante há salvaguardas, porque a culpa continuará a ser sempre atribuída em exclusivo aos dirigentes e aos adeptos mais radicais. Não é por acaso que os desmandos sucedem a um ritmo vertiginoso e nada acontece a não ser mais do mesmo…

Vamos lá ver se nos entendemos: não há inocentes no meio de toda esta bagunça e os dirigentes têm bastas culpas no cartório. Mas há, sem sombra de dúvida, uns mais culpados do que outros, sendo que uns têm culpas porque fomentam e praticam a confusão e os outros porque não a antecipam e não agem quando o termómetro começa a registar temperaturas elevadas. A sociedade e este Estado de Direito, mau grado tudo, têm regras para ser cumpridas. E quando o não são por culpa dos dirigentes, dos adeptos ou dos órgãos desportivos adequados, compete às entidades que supervisionam o cumprimento das leis agir em conformidade. É aqui que reside o grande busílis da questão pois os excessos vão sendo permitidos e não são penalizados como deviam. Ou seja, se as regras que existem não são cumpridas quer por excessos dos adeptos, quer pela inércia dos dirigentes, quer ainda dos órgãos desportivos competentes, é tempo da Tutela atacar o problema sem hesitações.

Em todos os derradeiros episódios verificados (situação recorrente), não demos porque Federação, Liga ou Governo agissem. Aplicar simples multas é curto, ineficiente e nem sequer atinge o estatuto de paliativo. Alguns opinadores eternos apaixonados pelos disparates perenes, têm referido que não compete à Tutela intervir no desporto. Como, importam-se de repetir? É indesmentível que em primeira instância, deveria ser a Liga e principalmente a Federação a pugnar por medidas para resolver o assunto. Não o faz, faltando saber se a sua inércia se deve à habitual tendência do Presidente para fugir dos problemas, se por incapacidade ou por mera opção estratégica. Não acontecendo como é o caso, seria altura de o Governo agir promovendo acções envolvendo todos os intervenientes com responsabilidades mais directas na matéria por forma a encontrar uma solução que acabasse de vez com toda esta confusão que pode agradar a alguns mas não serve seguramente o futebol e o desporto em geral. Os verdadeiros adeptos continuam à espera de acções que agilizem o fim da violência seja qualquer a forma de que se revista. Prevenir para não ter que lamentar…






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