Ponto Vermelho
Sinais alarmantes
5 de Março de 2015
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1. Quer queiramos quer não as sociedades vão registando evoluções próprias resultantes da constante mutação do tempo. Existe em muitos de nós, em particular nos mais optimistas, a tentação lírica de considerar que os novos tempos concorrem apenas para uma evolução positiva. Como temos observado, isso fica-se apenas pelo desejo, dado que a evolução que paulatinamente se regista arrasta com ela todo o tipo de novas situações, algumas muitas positivas sem dúvida, mas também outras muito negativas. Poderá aqui e ali por um conjunto de razões ou de estratégia viverem-se períodos mais ou menos prolongados em que a acalmia impera mas, como os factores de turbulência não são nem há interesse em que sejam eliminados, é certo e sabido que ressaltarão mal surja a primeira oportunidade. Assim tem sido invariavelmente.

2. É, todavia, uma situação complexa que resulta das profundas assimetrias que os diferentes sectores da sociedade registam e que têm aumentado com intensidade nos últimos anos. As enormes dificuldades de toda a ordem que temos vindo a sentir criaram um sentimento de desconfiança, de descrença e de revolta na população portuguesa. Todos esses factores conjugados fomentam a instabilidade e o desespero, em que nas vezes em que tudo isso se manifesta quiçá através de manifestações espontâneas de indignação, são com frequência excedidas as regras do Estado de Direito.

3. É consensual que em todos os sectores sem excepção, existem grupos minoritários de interesses e ideologias que por obedecerem a princípios rígidos de radicalismo e de xenofobia procuram afincadamente a disseminação desses princípios ultra. O aproveitamento da concentração de massas é um dos seus palcos favoritos e, nos últimos tempos, o alcance das redes sociais tem funcionado com seu aliado precioso. Ninguém hoje em dia com um mínimo de interesse pelo mundo que nos rodeia pode alegar desconhecimento dessa ameaça latente que tem crescido de forma exponencial e perigosa.

4. Estranhamos por isso esta aparente e prolongada passividade dos representantes do nosso Estado de Direito que perante sinais evidentes e contínuos regista passividade, agindo em reacção (e bastas vezes mal), quando deveria fazê-lo de forma preventiva e antecipada. No mundo do desporto o terreno é fértil e propício para o crescimento e desenvolvimento dessas minorias de cariz radicalista que se sabe ao que vêm, como aliás têm demonstrado. E como não existe reacção apropriada, é evidente que numa próxima vez seja qual for o lugar, o risco de subir a parada aumenta de forma muito séria.

5. No futebol, época após época, vão-se repetindo episódios preocupantes não só entre os vários agentes desportivos como entre adeptos e infiltrados que aproveitam as ocasiões para causarem distúrbios e fomentarem a confusão. De tão recorrentes, são por norma encarados com indiferença. Não é nem jamais poderá ser esse o caminho. A grande maioria dos adeptos e dos espectadores que se deslocam a um pavilhão ou a um estádio muitas vezes com a família, têm todo o direito de se sentir tranquilos e protegidos de qualquer tipo de violência. Porque pagaram o bilhete de acesso ao espectáculo e liquidam impostos para que as autoridades do País lhe garantam a protecção adequada. Já sem falar nos clubes.

6. Têm feito manchetes os mais recentes acontecimentos que causaram ainda maior clamor e impacto porque mais uma vez não foram encarados de frente como deviam mas, de uma maneira que tão bem nos caracteriza de fuga às responsabilidades, tentando atribuir aos outros as culpas que eventualmente nos cabem. Desta algazarra sem sentido e ultrapassadas que foram todas as marcas, ninguém pode ser considerado inocente. A imprensa limita-se a explorar o momento, os causadores da confusão saem (mais uma vez) impunes e animados a prosseguir com as suas proezas, num círculo vicioso sem fim à vista.

7. Foi assim que sucedeu por exemplo o incêndio da Luz instigado pelo então V.P. leonino Paulo Pereira Cristóvão e cujos autores directos nunca terão sido identificados. Bem recentemente, a tarja sem classificação da Luz, as T-Shirts e tarjas miseráveis de Alvalade bem como as cenas de pirotecnia registadas. Já sem falar nos repetidos petardos que deflagram na maioria dos estádios do País e que originam multas avultadas aos clubes. Esperamos, sinceramente, que não tenha prescrito o prazo de actuação das autoridades para exterminar de vez todos estes pesadelos. É que, segundo a imprensa, no recentíssimo caso que volta a envolver o ex-dirigente referido e pelo menos um dirigente de uma das claques leoninas, este, para além de estar muito longe de possuir cadastro imaculado teria sido, por isso, impedido de frequentar estádios. Assumindo isso como verdadeiro, como é então possível que continuasse na plenitude de funções?






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