Ponto Vermelho
As aventuras de um basco "A Oeste de Pecos"
20 de Março de 2015
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1. Sendo o nosso País comprovadamente um país de descobridores, aventureiros (sem carga pejorativa) e de emigrantes, não nos ficaria nada bem quaisquer sintomas de rejeição ou de xenofobia quando sucede, ainda que em muito menor escala, a vinda de estrangeiros. Nesse particular, à medida que o Mundo evoluia nem sempre no melhor sentido e quando começaram a emergir, um pouco por toda a parte, cenas inimagináveis de intolerância, de violência, de perseguição religiosa e até de descriminação racial, Portugal e os portugueses têm dado lições que nos enobrecem. Casos isolados a contrariar essa tese não podem servir para diminuir a nossa postura e atitude de povo compreensivo e tolerante, embora tenhamos que estar atentos porque o perigo espreita!

2. No desporto e no futebol a regra era precisamente a primeira divisão comportar maioria de treinadores estrangeiros, uma tendência que se foi gradualmente esfumando ao ponto de há alguns anos a esta parte, a regra ser precisamente o contrário em absoluto. Dirão alguns cujo nacionalismo possa ser mais exacerbado que assim é que deve ser. Sem pretender contrariar a situação vigente que demonstra a evolução do treinador português, diríamos que nada temos contra o facto dos clubes alojarem treinadores estrangeiros, desde que obedeçam à premissa de serem competentes e trazerem evolução e produto acrescentado ao nosso futebol.

3. A imagem pouco apelativa e entusiasmante do futebol português e a capacidade de corresponder aos anseios e aos proventos que por norma pretendem usufruir limita, como é óbvio, a vinda de treinadores estrangeiros de grande gabarito. É um facto adquirido que nem sequer vale a pena contestar. Mas sendo esse um factor claramente inibidor, não significa que a nível dos nossos principais clubes não possamos vir a observar treinadores que não se encontrando no patamar mais desejado, possam, ainda assim, ser atraídos pelo prestígio dos emblemas e pelos projectos apresentados que possam conter variantes compensatórias.

4. Terá sido isso, porventura, que aconteceu com o FC Porto esta época ao romper com a tradição mais recente de treinadores lusos. É evidente que a sua opção tem, como tudo, várias leituras, mas a isso não terá sido porventura alheia a fria constatação da real encruzilhada em que o clube se encontrava, e que a estrutura outrora inexpugnável e eficientíssima no controle e manipulação dos factores mais influentes, já não podia assegurar com a eficácia habitual a supremacia cada vez mais ameaçada pelo crescimento e apetrechamento do seu principal rival Benfica.

5. É assim que surge o basco Julen Lopetegui, um nome apenas conhecido pelas suas prestações à frente das Selecções mais jovens do futebol espanhol. Manda a verdade e o rigor dizer que, apesar das vozes com tiradas tonitruantes que se fizeram ouvir na altura, ninguém deve ser julgado, à priori, sem ter prestado provas. Com carta-branca, escolhendo e recebendo 17 novos jogadores alguns dos quais não passavam de meros projectos com potencial, Lopetegui por força de alguns resultados menos conseguidos e pelo facto de insistir na teoria da rotatividade, foi impiedosamente metralhado por muitos teóricos que fazem do clamor e da maledicência a sua profissão. Quem não se lembra das críticas sem quartel com origem no próprio mundo portista?

6. Apesar dessa situação nos ser favorável enquanto benfiquistas, sempre tivémos uma opinião menos pessimista que aquelas franjas, porquanto a nossa conclusão era a de que perante tantos jogadores novos para integrar, era preciso fazer experiências e rodar todos os jogadores para perceber, num contexto novo de competição, quais aqueles que eram mais fiáveis e que poderiam vir a ser os titulares do próximo futuro. Mesmo que isso acarretasse alguns dissabores como afinal aconteceu. Acresce que durante todo esse período o discurso de Lopetegui pautou-se por uma visão realista e equilibrada da situação e nas várias variáveis que a envolviam.

7. Estranhamente, à medida que a equipa-base ia ganhando contornos definitivos e os resultados começavam a aparecer em particular na Champions ainda que fruto de sorteios muito favoráveis, Lopetegui, enquanto as jornadas se acumulavam e o atraso para o Benfica não minguava, sofreu uma metamorfose discursiva e, pior do que isso, passou a comportar-se em cada Conferência de Imprensa como um fiel porta-voz da estrutura portista como se conhecesse a realidade desde pequenino, hipotecando a sua personalidade que deu mostras inequívocas de começar a ser volátil ao optar por obedecer a parâmetros previamente definidos por outros.

8. Acresce que Lopetegui enveredou por caminhos perigosos. Desde logo porque baseando contínua e sistematicamente as suas opiniões sobre arbitragens esqueceu-se que no seu País natal as mesmas, como assistimos regularmente, não nos ensinam nada, antes pelo contrário. E depois, e mais importante, é que tem insistido nos hipotéticos benefícios ao Benfica, omitindo os que recolheu em mais do que um desafio. De permeio, deixou-se convencer pelas dicas fornecidas pela estrutura, permitindo-se tecer considerações sobre temas que não conhece e sobre uma história (longa e triste) que muito menos domina. É triste, mas agora já não há nada a fazer a não ser jogar com a memória curta dos Homens. A quanto obrigam os mind games...




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